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SELO: Da (Re)lembrança do Max Love ao direito à indignação
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Vozes - @Hora da Verdade
Escrito por Luís Nhachote  em 04 Dezembro 2014
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Fez a 21 de Novembro, um ano que o jovem músico Max Love foi assassinado nesta cidade por um dos guardas da segurança do governador Joaquim Veríssimo, quando celebrava, com algumas pessoas aqui pressentes, a reeleição do edil Manuel de Araújo, para a condução dos destinos de Quelimane e de todos que nele residem.

Na condição de observador dessas eleições autárquicas, eu encontrava-me nesta cidade para aferir o grau participativo, os números e o civismo com que as mesmas decorreram. No dia 21 de Novembro de 2013, no calor da vitória que levou a maioria dos munícipes às ruas nessas celebrações, eu estava sentado algures, numa Internet café, quando uma SMS entrou no meu celular dando conta do assassinato de Max Love. “Mataram um jovem cantor em frente da residência do governador”, dizia a mensagem!

Apesar de o destino não ter convergido para que nos conhecêssemos em vida, os valores nobres e universalizados do direito à vida não me permitiram que eu ficasse estático na “Internet café”. O homicídio voluntário qualificado é um crime previsto e punível nos termos do Código Penal vigente no país, que conheço, e na Declaração Universal dos Direitos Humanos, que consagra o direito à vida. Por isso, tomei o primeiro táxi feito com recurso à bicicleta que me apareceu em frente e fui de imediato ao local onde o crime tinha acontecido.

Meia hora antes da minha chegada nesse local onde ainda fervia a indignação popular, parte dos guardas do governador da província impedia aos munícipes de continuarem a marcha, quando o corpo de Max Love dava entrada no Hospital Provincial de Quelimane. Fazendo uso do crachá que me tinha sido facultado pelos órgãos de administração eleitoral, exibi-o aos guardas para que permitissem a minha passagem pelo local onde os algozes, quais vampiros sedentos de sangue, tinham, com as armas do totalitarismo e da arrogância, posto fim à vida de um cidadão nacional que escolheu Quelimane como lugar para se estabelecer.

O seu único crime foi celebrar a vitória da oposição e do seu candidato. Esta prova cabal da intolerância política criava este “mártir” dos dias difíceis da consolidação da nossa perene democracia! Chegado ao hospital, pude ler nos olhos dos presentes o sentimento de revolta contida na raiva em hibernação... Mataram Max Love. Assassinaram Max Love. Uma parte de todos nós também foi “assassinada” naquele fatídico dia 21 de Novembro.

É essa parte de nós “assassinada” que pretendemos resgatar nesta homenagem ao jovem cantor. Como resgatarmos essa parte de nós que também foi um pouco “assassinada”? Resgatamos exercendo na plenitude o direito à indignação e ao protesto formal junto às autoridades competentes. Ninguém deve ficar impune dos crimes de homicídio voluntário, sobretudo quando o rosto do “assassino” foi identificado. Eu soube que os autos foram abertos e um processo foi então instaurado. Eu soube também que o responsável directo por este crime, a todos os títulos condenável, foi “afastado de circulação”.

É, por isso, então urgente que como cidadãos protegidos pela mesma Lei-Mãe, a nossa Constituição da República, nos ergamos. Se a Procuradoria-Geral da República, entidade conhecida como advogada do Estado, dos seus cidadãos e garante da legalidade, já remeteu a acusação aos tribunais competentes, então o criminoso deve ser julgado seja ele quem for.

É preciso que petições sejam escritas, assinadas e entregues a outras entidades, tais como a Liga dos Direitos Humanos, o Concelho Constitucional, o Ministério da Justiça e o Tribunal Supremo, denunciando a apatia da justiça na resolução deste caso, que infelizmente não trará de volta o Max Love, mas que de certeza irá sementar o direito à dignidade pela vida.

É verdade que a expressão mais alta da “insensibilidade” ao assassinato de Max Love veio da parte do nosso mais alto magistrado da Nação que a 07 de Abril ignorou o minuto de silêncio solicitado pelo Presidente da Autarquia de Quelimane, Manuel de Araújo, aquando da celebração dessa efeméride (Dia da Mulher Moçambicana), num comício popular que teve lugar na Praça dos Heróis Moçambicanos em memória do jovem músico Max Love. Mas isso não nos pode fazer desistir de exigirmos, todos os dias, que a JUSTIÇA SEJA FEITA.

Desafio a todos os presentes para a criação da Associação dos Amigos do Max Love, uma agremiação que poderá servir como meio de pressão para a resolução deste caso e de tantos outros anónimos que teimam em perdurar na consolidação de um verdadeiro Estado de Direito e Democrático, onde ninguém esteja SENTADO em CIMA DA LEI!

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