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Toma que te dou: Para onde vos dirigis?
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Vozes - @Hora da Verdade
Escrito por Alexandre Chaúque  em 19 Junho 2014
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Sacudiu a poeira dos tempos da guerra dos 16 anos, que dizimou vidas às centenas de milhares e plantou paredes que ainda se mantêm até hoje por todo o lado, deixando no seu rasto as poeiras de sangue que hoje submergem das estradas e dos sopés das montanhas, e virou-se para a multidão que o escutava no palanque implantado na margem sul do rio Save: “Seus desgraçados, para onde vos dirigis? Acaso não sabeis que há perigo na próximo esquina? Porventura não percebeis que ninguém vos protegerá quando a pólvora se libertar? Quem vos disse que essas armas que vos escoltam servirão para vos salvar? Porque teimais em seguir a vereda da morte no lugar de vos manterdes nas vossas pobres casas, ou levantardes para apanhar os restos do banquete deles? Porquê?”.

Os camiões de carga e os autocarros de passageiros e as viaturas ligeiras estão perfilados sem ninguém no seu interior. O mar de gente está cá fora entre o medo e a estupefacção de ver e ouvir um homem que fala por sobre um palanque a cair: “E vocês, jovens, são para quê essas armas engatilhadas? Conheceis a história de Abel e Caim? Eu sei que não sabeis nada dessas parábolas, pois se tivessem conhecimento delas teríeis recusado pegar nas balas e na pólvora e nos carros blindados para matardes os vossos irmãos. Vós não sabeis de nada, e pior do que isso, não quereis escutar o que vos digo, seus pobres de espírito”.

No leito do rio Save o que sobrou é um fiapo de água que corre, lento, como uma lesma insignificante. Os crocodilos que lá viviam fugiram para outras águas e os que tentaram resistir morreram asfixiados na lama. Há mais carros que vão chegando seguindo a direcção norte-sul. Há muitas mulheres entre a multidão, que pretendem seguir os seus destinos ao encontro da subsistência. Têm os lombos cingidos, como se toda aquela coragem que transparecem fosse capaz de contrariar o terror que as espera na estrada, onde as feridas já estão cansadas de esperar. Ninguém fala, nem cochicha, nem tosse.

As próprias moscas que poderiam estar a zumbir ou a poisar por sobre as marmitas onde cheira a comida preparada para a merenda fugiram do odor da pólvora. As nuvens também voaram, deixando o céu completamente limpo para dar vazão ao brilho do astro-rei. Quer dizer, reina um silêncio incaracterístico que agora, uma vez mais, é quebrado pela voz poderosa do homem que oscila no estrado: “Eu vim aqui com estas cítaras e trompetas para oferecer a vós, jovens militares.

Ou melhor, o que eu pretendo é trocar estes instrumentos que embevecem, com os vossos estúpidos artefactos. Mas o que vejo é que estais decididos a ir ao encontro da morte, como se Deus de Jacob e de David e Abrahama vos tivesse feito para morrerdes. Ademais, o que é difícil entender é que, no lugar de seguirdes a vocação de construir pontes e abrir janelas e portas, estais a fortificar as paredes semeadas nos dezasseis anos de carnificina. De genocídio. Seus pobres de espírito!”

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