Pandza: Me transporta! | ![]() | ![]() | ![]() |
| Vozes - @Hora da Verdade | |||
| Escrito por Hélder Faife | |||
| Quinta, 16 Fevereiro 2012 15:06 | |||
Ela deve ter imaginado uma cena de telenovela brasileira quando fechou os olhos, ajeitou os fios de cabelo postiço, abrasileirou o sotaque anasalado pelo changana, e ordenou, em tom sedutor: – Me transporta! – Para onde? – não que eu não soubesse que o destino dela era aquele lugar para onde se levam, um ao outro, os amantes. Um bom motorista como eu, adivinha o destino pelo rosto de qualquer passageiro. – Para a lua, ué! – luziu no escuro a alvura amarelada dos dentes. – À lua não se vai a pé – adverti. – Quem disse que eu vou a pé? Quem não tem transporte próprio, anda de chapa. – Mas eu não sou chapa. – Mas tu é motorista... meu motorista. – disse, melando mais a voz. Quando levantou os braços, para me abraçar, senti-le o perfume exótico das axilas. – E tu queres ir à lua de chapa? – O teu chapa chega lá. Anda cá – puxou-me pela camisa entreaberta, deixando-se cair, lentamente, para trás. Caímos sobre uma capulana estendida que por nós esperava no chão. O baque foi suave, amortecido pelas ádipes traseiras dela. Depois voltou a sorrir para dizer – não se deixa um um passageiro a espera, senão aparece outro chapa e me leva. – São sete e meio. É pronto pagamento – retorqui. – Só pago quando chegar ao destino! – reivindicou, conhecedora dos seus direitos de passageiro. Deitada, deixava perceber toda a paisagem debaixo dos trajes que a embrulhavam. A luz do xiphefo, candeeiro à petróleo, realçava as lombas que a moldavam. Comecei a salivar, com aquela apetência de chapeiro diante de uma estarda esburacadas, e disse-lhe: – Sim, sou teu chapa. E tu és a minha estrada. – Então, me percorre – respondeu-me, desabotando a blusa, e expondo todo o asfalto do seu corpo –, chapa não gosta de velocidade em estradas esburacadas? Então viaja em mim, mas não esquiva meus buracos. – Deixa meter combustível. Em dois tragos esvaziei o combustível azedo que me restava no copo e senti os calafrios do álcool estremecer-me a chaparia. Certifiquei-me que tinha os óleos em dia e posicionei-me para a viagem. – Liga a ignição, então. Já estava ligada. A minha carroçaria trepidava de impaciência. Um chapa não gosta de ficar muito tempo parado. – Já está ligada. – Então acelera, motorista – disse, de olhos fechados. Como chapa que se preze, fiz um arranque brusco, pelo asfalto esburacado do corpo dela. O êmbolo do meu motor de quatro tempos fazia movimentos de vai e vem, admissão, compressão, explosão e escape. Eu meti uma mudança, ela esgazeou e sussurrou: – Acelera... Eu acelerei, mas tive que fazer uma travagem brusca, mesmo à chapa, quando o celular dela chamou. Ela nem ia atender mas quando olhou para o visor e percebeu quem era, gritou: – Paragem cobrador. É o meu marido. Saltou do chapa antes deste estar totalmente parado, mudou o sotaque, a expressão do rosto e o tom desavergonhado de voz. Falaram. Disse-lhe que estava tudo bem, justificou-lhe a possível demora, dizendo que estava no mercado e havia falta de transporte. – As paragens estão cheias. Quando desligou e olhou para mim, as pálpebras descaíram e perdeu aquele ar inocente de mulher fiel. Sorriu e disse, abrasileirando a voz: – Me leva, motorista. E acelerei, sem esquivar os buracos da estrada precária, mas não levou muito tempo para que começasse a sentir os parafusos soltos do meu corpo a tilintar, os amortecedores a reclamarem, as minhas chapas a trepidarem violentamente, o motor a soluçar deseperadamente e aquele vazar inevitável de todos dos meus pneus carecas. Parei. – O que foi, amor? Encurtamento de rota? – Não, acabou combustível. – Mas como? Não encheste o tanque há pouco? – Não deu para encher, o combustível está caro. Vestiu-se, reclamando, por tê-la deixado numa paragem distante do destino. – Espera, só um tempinho para reabastecer. Vou te levar. – Vou ter que fazer ligações. – disse, indo-se. Enquanto ela se ia embora, e eu pensava em reabastecer mais uns copitos, um agente de trânsito aproximou-se, de bloco e esferográfi ca, pronto a multar-me: – Excesso de velocidade! Conduz mal e nem se protege. – Mas eu usei cinto de segurança, chefe. – Cinto de segurança? Nestas estradas? Achas que isso basta para te meteres nestes buraco? Recebendo a multa e as palavras do agente, levei a mão à cabeça. Só então me apercebia que acelerara pelos buracos daquela estrada sem o mínimo de proteção, um preservativo que seja. Comentários (2) Joomla components by Compojoom
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