Pandza: Na Praça dos Não Heróis | ![]() | ![]() | ![]() |
| Vozes - @Hora da Verdade | |||
| Escrito por Hélder Faife | |||
| Quinta, 02 Fevereiro 2012 14:17 | |||
Era uma praça sem vento. O vento sentia preguiça de frequentar aquela enchente, ter de soprar entre as pessoas, pedir licenças, empurrões. Ainda por cima a soprar desajeitado, a levantar poeiras e a sujar os produtos dos vendedores, não seria bem-vindo por ali. Sentado sobre uma pedra, na posição informal dos dumbanengues, um velho amputado na perna e no destino, abraçava as muletas, imóvel, exercitando a paciência, naquela posição quase yoga de esperar clientes. Sentado ao seu lado, um puto balançava as pernas, com ansiedade típica da idade. O silêncio entre os dois parecia falar mais alto do que o burburinho dos vendedores à volta. Um caixote fazia de balcão para cigarros e outras coisas à venda. – Avô, o que é um herói? – É um fulano que depois de morto é sepultado na praça dos heróis. O miúdo, que já tinha um pouco mais de noções, não gostava da forma como o velho lhe falava, abreviando as respostas, para poupá- lo do mundo. Mas não questionou, respeitando a hierarquia da idade. O velho percebeu aquela insatisfação, endireitou o palito na boca e melhorou a resposta: – Um herói é um gajo corajoso – dramatizou a voz e olhou para distante, em jeito de contar estórias –, um gajo que dá muito de si batalhando pelos outros – ficou a olhar para longe, vasculhando o filme das lembranças. – Como esta gente – o miúdo apontou, com um gesto largo, para toda a extensão da praça – que enfrenta o sol e batalha para pôr pão na mesa? – Não, vender aqui todos os dias é muito duro. Heróis não seriam capazes. Heróis têm coragem para enfrentar o mundo, mas não seriam capazes de sofrer com ele. O velho fazia pausas no discurso, processando sem pressa, como um computador antigo, carregado de informação. – No dia-a-dia, assim, não há heróis. Heróis fazem-se nas guerras. – E tu avô, foste à guerra? – Não! Eu não estive na guerra, mas sofri com a guerra – olhou para a meia perna. – Numa guerra sofrem mais os que não pegam em armas. COVARDE Enquanto a conversa corria, as moscas enervaram-se e desapareceram. Só quem convive domesticamente com elas descodifica a linguagem daqueles voos. O velho, antenado, franziu o sobrolho. Nas rugas desenhava-se a preocupação. Olhou para ali, para lá e para acolá. Não demorou que visse os vendedores espalhados pela praça em debandada. Com aquela gente gritando e fugindo ocorreu-lhe o tempo da guerra, trauma que se lhe colou na memória como uma chuínga teimosa que se recusa a desgrudar. Nunca conseguiu sair daquele tempo, onde deixara ficar parte da perna. Com os membros assim reduzidos não poderia obviamente fugir. Recolheu num gesto a pequena banca, segurou as muletas como se segura uma companheira de vida e mergulhou de bruços para o chão. – Deita-te miúdo! – ordenou. O miúdo, sem entender, cedeu ao puxão do velho. – Aplaca, são os bandidos armados. Permaneceram assim, rasos, fingindo-se de chão, naquela posição aprendida nos tempos da guerra, para escapar aos tiros. – Esses bandidos não têm visão – segredou ao miúdo –, só sabem olhar para cima. Esconde aqui no chão. Assim rasteiros, a poeira estorvando, o miúdo espreitou por entre as volutas de poeira e viu a praça agitada, vendedores atarantados a fugirem como baratas, capulanas esvoaçarem, bebés ao colo, outros esquecidos, choros, gritos, risos, pernas. – Mas avô, não são bandidos armados. São da polícia camarária. – Schhh! Cala-te! Não vês que estão armados? Não vês que estão a saquear os pobres? São bandidos armados de uniforme esses. Quando a confusão sumiu e as viaturas desapareceram carregadas, as moscas regressaram à praça em prenúncio de tranquilidade, depois vieram os vendedores, um a um, com as suas pequenas montras: caixotes de papelão, os panos de serrapilheira, capulanas, bancas de madeira, ou o que fosse. O velho voltou a sentar-se na pedra. Limpou-se do empapado de poeira e suor, enquanto contemplava os vendedores rearrumarem a mobília e a tranquilidade retornar à praça. – Uma praça é lugar de a gente estar ou passar, ver ou fazer fluir a vida. Não para fugir de bandidos – desabafou, falando mais consigo do que com o neto. – Avô, amanhã é dia dos heróis, né? Esta gente devia ir toda para a praça dos heróis, né? – Não caberiam, não caberiam... Comentários (2)
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