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“As pessoas já não levam os corpos para a casa mortuária, ficam com elas” revela deputado Picardo que clama por apoio para quem está no que resta da sua casa
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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Adérito Caldeira  em 21 Março 2019
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Enquanto as equipa de emergência nacionais e internacionais voa e nadam contra o tempo para resgatar cerca de 350 mil moçambicanos que continuam sitiados pelo quinto dia consecutivo nos distritos de Búzi, Chibabava, Nhamatanda e Dondo, na cidade da Beira os cadáveres acumulam-se na casa mortuária diante da impossibilidade de serem realizados funerais. “As pessoas já não levam os corpos para a casa mortuária, ficam com elas” revelou nesta quarta-feira(20) Juliano Picardo, que fez a pé o trajecto entre o distrito de Nhamatanda e a capital da província de Sofala e apelou: “Os apoios estão sendo canalizados para os centros de acomodação, estamos a esquecer que a cidade da Beira é essencialmente urbana”.

Até o fecho desta edição 202 continuava a ser o número oficial de vítimas mortais do Ciclone IDAI no Centro de Moçambique, porém o deputado da Assembleia da República Juliano Picardo, que chegou a cidade da Beira no passado domingo (17) a pé, afirmou: “Posso vos garantir que os números que são apresentados em relação as vidas humanos não são correctos, não existem números exactos, todos os dias aparecem cadáveres”.

Picardo, que vive na cidade da Beira, revelou que: “As pessoas já não levam os corpos para a casa mortuária, fica com elas. Os solos estão todos debaixo de água e não se podem realizar funerais. Estamos a guardar os corpos em locais que nós achamos seguros, que não tenham água. É um cenário de muita tristeza”.

O deputado que trabalhou na cidade do Chimoio durante a semana passada, é assessor político do partido Renamo, e no domingo (17), diante da falta de comunicação com a família que reside no bairro de Matacuane, partiu de carro para a cidade da Beira na companhia de outro deputado, Francisco Maingue, e do general na reserva Hermínio de Morais mas tiveram de abandonar a viatura 4x4 pouco depois da portagem de Nhamatanda.

“Atravessamos a portagem e na primeira ponte existe um rombo de cerca de 1000 metros. Era uma área residencial, na quinta-feira quando passei para o Chimoio vi ali muitas casinhas tradicionais que a nossa comunidade sempre faz e neste momento não tem absolutamente nenhuma”, relatou Juliano Picardo acrescentando que os locais comentaram que na região existia “uma represa de irrigação de campos, um canavial, e não suportou a quantidade de água que chegou do rio Metuxira e cedeu, a água levou tudo o que encontrou pela frente”.

O deputado e os seus companheiros de viagem cruzaram o rombo na novíssima Estrada Nacional nº6 dentro de um barco a remos, propriedade de um agricultor britânico que disponibilizou dois trabalhadores para garantirem a ligação e têm estado a transportar tantas pessoas quantas as autoridades que ali estão ausentes.

Evite-se “o envio de dirigentes para o local do sinistro, apenas estamos a gastar o pouco que temos que poderia beneficiar a muita gente"

Na outra margem não havia meios de transporte e a solução foi caminhar os 100 quilómetros que faltavam para a cidade da Beira. Durante o trajecto, com a água “à altura dos joelhos”, Juliano Picardo contou ter tido “a oportunidade impar e sentimental de socorrer pessoas em cima de árvores correndo risco da minha própria vida. Imaginem o que é, desprovido de tudo, com as minhas próprias mãos ter que carregar seis cadáveres e colocar ao longo da Estrada Nacional nº 6”.

“Assisti viaturas com pessoas ainda dentro, mas o helicóptero ainda girava por cima de nós e a informações que nos chegou é o Presidente a ver a situação de alagamento na zona de Lamego, infelizmente o helicóptero não baixou, provavelmente se tivesse tirado aquela viatura talvez pudéssemos retirar os corpos que ainda se encontravam no interior”, lamentou e deixou um apelo ao Governo e as instituições humanitárias: “os meios aéreos, os poucos que existem, parem de sobrevoar para fazerem fotografias, para fazer filmagens e vão ao encontro de vidas humanas”.

É que com o Presidente da República e comitiva em permanentes sobrevoos sobre as regiões inundadas os 11 helicópteros à disposição ficam ainda menos para recolher os 347 mil cidadãos que se estimam estejam em risco de vida nos distritos de Búzi, Chibabava, Nhamatanda e Dondo, na província de Sofala. Há ainda relatos de um número não conhecido de cidadãos sitiados no distrito de Sussundenga, na província de Manica.

O representante do povo de Sofala pediu para que evite-se “o envio de dirigentes para o local do sinistro, apenas estamos a gastar o pouco que temos que poderia beneficiar a muita gente. Eu presenciei a chegada de um boeing 737 com meia dúzia de ministros, ontem (terça-feira, 19), não trouxe na sua bagagem nem uma carga para a cidade da Beira, para 15 minutos depois o voo levantar em direcção a Nampula”.

“Apoios estão sendo canalizados para os centros de acomodação, estamos a esquecer que a cidade da Beira é essencialmente urbana”

Picardo, que residia na capital de Sofala quando no ano 2000 o Ciclone Eline a fustigou compara “foi forte mas não se equipara a este”, “não há nenhuma residência ou algum edifício que resistiu a este vendaval de 9 horas, não há um único vidro”.

“A Ponta-Gêa, Palmeiras, Macuti, Estoril toda aquela área de lazer não existe, os únicos edifícios intactos é o Dom Carlos e o Estoril”, detalhou Juliano Picardo assinalando que as residências oficias do presidente do município e do governador também não aguentaram com os ventos de 200 quilómetros por hora.

O parlamentar voou para a cidade de Maputo para lançar um apelo as autoridades: “os apoios estão sendo canalizados para os centros de acomodação, estamos a esquecer que a cidade da Beira é essencialmente urbana, 90 por cento das coberturas de edifícios e residências pessoais desapareceram e estas pessoas precisam também de um apoio. Não tem água, não tem luz, não tem dinheiro porque não podem levantar, não tem combustível”.

A cidade que ficou completamente arrasada tem 533.825 habitantes, de acordo com o Censo de 2017, contudo a receberem assistência humanitária estão oficialmente apenas 14.198 pessoas em toda província de Sofala, aquelas que estão nos centros de acomodação.

Picardo concluiu denunciando “o oportunismo dos nossos empresários. A inflação de preços, uma vela de iluminação custa 25 meticais, o transporte público foi inflacionado a circulação na cidade da Beira custa 30 Meticais, o prato de frango custa 1.500 Meticais, os nossos empresários têm que ter o sentimento de solidariedade em momento de calamidade”.

Quiçá por isso durante a tarde desta quarta-feira (20) cidadãos famintos tentaram assaltar um armazém com produtos alimentares, no bairro de Matacuane. A polícia interveio disparando balas reais mas a população respondeu com pedras, a situação acabou por acalmar-se sem vítimas.

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