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Guebuza demite-se e Filipe Nyusi assume a liderança do partido Frelimo
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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Emildo Sambo  em 30 Março 2015
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No quarto e último dia da IV Sessão Ordinária do Comité Central do partido Frelimo, que decorria na Matola, cidade industrial, Armando Guebuza colocou à disposição a presidência desta formação política, uma decisão que surge depois de muita fricção interna e pública. Os seus prosélitos não se fizeram de rogados, aceitaram o acto e, naturalmente, legitimaram o que já se vaticinava: Filipe Nyusi, Presidente de Moçambique, acumulou este cargo com o de Presidente da Frelimo, tendo sido eleito com 98.4% de votos, num processo que registou dois votos em branco e um nulo.

Guebuza, um empresário que não passa despercebido e com “tentáculos” em vários sectores moçambicanos, agora terá mais tempo para gerir os seus negócios consolidados na altura em que era Chefe de Estado. Porém, a sua abdicação não constitui, para os mais atentos, nenhuma novidade, pois há anos que, por tradição, o Presidente da República é simultaneamente líder do partido do qual provém. Ele chegou à presidência do partido Frelimo um ano após tomar posse como Presidente da República sucedendo a Joaquim Chissano no cargo.

Filipe Nyusi, que agora tem total soberania para gerir e decidir sobre a vida do país sem abertamente ser ofuscado pela sua obediência à formação política a que está filiado, tomou o poder e seguiu o ritual de praxe, o de jurar “servir fielmente o partido e a pátria moçambicana, empregar todas as (suas) energias na realização dos objectivos do partido, defender e preservar a unidade nacional e cumprir resolutamente as tarefas que (lhe) são confiadas pelo Comité Central”.

Já no trono e de pé, minutos antes de se tomar a cadeira na qual Guebuza se sentava, Filipe Nyusi, manifestou a sua abertura para receber “as contribuições e os conselhos” em prol do país. Refira-se que todos os trabalhos decorreram, como sempre, à porta fechada e nalgumas vezes em sessões restritas aos convidados.

“Não me vou desviar da agenda principal do nosso partido (...). Defenderei, sempre, os interesses dos moçambicanos. Tenho sobre a mesa a paz efectiva. Vamos trabalhar para a paz porque só com a ela é que iremos desenvolver Moçambique”, disse Nyusi.

Para além de uma vaga interna de contestação, acredita-se também que pesou para esta resignação a frontalidade com que Guebuza se dirigiu aos membros do Comité Central na abertura da IV Sessão Ordinária. “Preocupa-nos a postura e o comportamento de alguns camaradas que publicamente engendram acções que concorrem para perturbar o normal funcionamento dos órgãos e das instituições para gerar divisões e confusão no nosso seio”, declarou.

“O camarada presidente Armando Guebuza surpreendeu os membros do Comité Central com uma declaração de que coloca(va) à disposição os cargos de presidente da Frelimo e da Associação dos Combatentes da Luta de Libertação Nacional. Os membros do Comité Central aceitaram o pedido e foi criada, imediatamente, a comissão de eleições”, explicou a jornalistas Damião José, porta-voz do partido no poder.

Segundo ele, antes de manifestar a intenção de abandonar o cargo, Guebuza teve supostamente tempo de consultar os membros do Comité Central – órgão máximo, entre os Congressos, que toma as principais opções políticas, define os ajustamentos necessários e elege o presidente do partido – e fundamentou a renúncia com a necessidade de manter 'a união e a coesão' do partido, tendo em consta 'o momento que vivemos nesta fase'.

Todavia, Óscar Monteiro, que já ocupou vários cargos no Governo e que faz parte da ala crítica dentro da Frelimo, considerou que a desistênciade Guebuza foi penosa na medida que não havia necessidade de ser arrastada até ao encontro havido na Matola. As pessoas achavam que tal não era possível e passaram muito tempo a fazer alaridos negando a realidade.

Segundo o antigo ministro da administração estatal, há necessidade de se “repensar o país como deve ser, a começar pelas estruturas do partido” e inculcar nele “uma nova ética e filosofia”. Urge ainda travar “uma luta sem limites contra a corrupção” e assegurar que haja “credibilização do Estado”. O veterano da luta de libertação nacional disse ainda à Imprensa que é preciso que o Estado se dedique à “causa dos pobres” porque “quem vive bem não precisa muito do Estado. (...) Mas os pobres precisam de um Estado muito actuante”. Ele defendeu ainda que se deve poupar os recursos o “máximo possível” e criar-se estaleiros de emprego. E precisa-se de um sistema de gestão pública composto por gente com um comportamento exemplar para que os cidadãos adoptem o mesmo modelo de vida.

Pouco depois de meia-noite, Nyusi dirigiu-se aos “camaradas” para declarar encerrada a IV Sessão Ordinária do Comité Central, evento cujo fim estava previsto para terminar às 17h00 de domingo (29).

O “operário que virou gestor e depois político” dirigiu “uma saudação de carinho a Guebuza pelo seu gesto nobre (de renunciar ao cargo) que contribuiu para o reforço da dignidade do partido e da coesão entre os moçambicanos. Com o seu gesto, longe de palavras, demonstrou em termos práticos ser fiel continuador dos ideias de Eduardo Mondlane, Samora Machel e de Joaquim Chissano, colocando-os nos mais altos interesses do partido (...)”.

“Aceito com humildade (...) a honra e a responsabilidade que o Comité Central acaba de me conceder, de ser entre os milhões de militantes do partido aquele que passa a dirigir o partido nos próximos desafios. Os esforços devem continuar a ser a busca da paz efectiva e duradoira. Vamos encorajar o diálogo entre os vários sectores da sociedade para que Moçambique possa ser admirado como nação pacífica, em crescimento e um destino seguro de investimento (...).”, disse Nyusi.

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