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Milhões gastos em eventos, seminários e empoderamento poderiam ser investidos na manutenção das raparigas na escola em Moçambique
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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Adérito Caldeira  em 12 Outubro 2017
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Foto de Adérito CaldeiraMilhões de raparigas moçambicanos não sabem que nesta quarta-feira(11) o mundo comemorou o seu Dia. Em hotéis e salas climatizadas em centros urbanos fizeram-se as “tradicionais” conferências e palestras de empoderamento que custaram milhões de meticais num único dia. Teresa é uma das meninas que que cedo teve de casar-se, hoje é mãe de duas crianças e há cerca de um ano não consegue ir a escola porque embora a matrícula e os livros do ensino primário que tenta acabar sejam gratuitos é obrigada a comprar cadernos, caneta, fardamento... com 5 mil meticais por ano continuaria a estudar.

@Verdade conversou com dezenas de raparigas que vivem em pequenos povoados ou em bairro suburbanos na província de Nampula, elas partilham o cada vez mais popular estigma que se está a torna o casamento prematuro.

Na generalidade estas meninas entre os 12 e 14 anos participam dos ritos de iniciação, e daí começam a sentirem-se mulheres. “Eu aceitei que a minha filha se casasse porque eu sabia que ela ia começar a brincar com rapazes e pelo menos este que veio apresentar-se pareceu-me sério e prometeu que ia cuidar dela. Se eu não tomasse essa decisão ela ainda me traria aqui para casa uma grávida sem dono” explicaram alguns dos pais entrevistados pelo @Verdade que vêm nos futuros genros um ajuda para o sustento da sua filha e quiçá de toda a família.

À parte de muitas que se tornam esposas de homem adultos o @Verdade falou com várias raparigas que com 13 a 15 anos casaram-se com rapazes um pouco mais crescidos, menos de 17 anos. Aliás a denominação de casamento para as uniões que acontecem é um eufemismo.

Aqueles que professam a religião muçulmana consumaram as uniões junto aos muálimo na mesquita e outras há que a cerimónia resumiu-se a uma pequena reunião familiar onde um futuro marido, nem sempre acompanhado por um parente mais crescido, apresentou-se oficialmente e o pai da rapariga aceitou o pedido publicamente.

Há vários maridos que querem que as suas jovens esposas estudem

Passa-se a mensagem nos imensos seminários e conferências que se vão realizando que os pais entregam as filhas para pagarem dívidas ou em troca de algum dinheiro. Dentre as raparigas que o @Verdade entrevistou nenhuma “serviu” de pagamento de dívida. Todavia a união de várias foi formalizada através do pagamento de pequenas quantias em dinheiro, farinha e alguns animais, os montantes que nos revelaram situam-se entre os 2 mil e os 5 meticais.

Dos casais que entrevistamos pouco mais de uma dúzia de pais referiram o compromisso assumido pelo genro em não apenas sustentar a sua filha como também de a manter a estudar. Filomena e Momade foi um dos casais em que o casamento foi condicionado a garantia de que a jovem não iria parar com os estudos. Casada desde os 15 anos, frequenta a 11ª classe apesar dois filhos que tem. O seu esposo que vive da pesca e machamba tem cada vez mais dificuldade em custear os estudos assim como manter a casa.

A jovem revelou que nem sempre consegue o dinheiro que a escola exige para que possa realizar as avaliações, uma cobrança ilegal de acordo com o Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano diga-se. Espera concluir o ensino secundário e depois verá como sair do distrito para ir estudar na cidade de Nampula e tornar-se enfermeira. “Espero que ela depois possa arranjar um emprego e também ajudar-me”, remata Momade.

Bolsas de estudo de 5 mil meticais anuais poderiam manter raparigas na escola

Já Teresa, parou de estudar na 9ª classe. O marido foi procurar ganhar a vida numa região distante, a última vez que esteve com ela deixou-lhe o filho que agora tem 1 ano e poucos meses de idade. A jovem sobrevive graças aos esforços do seu pai que vai sustentando duas famílias. Mas a rapariga quer voltar para a escola, e o seu pai assegurou ao @Verdade que se a machamba produzisse como outrora iria garantir que isso acontecesse. Entre o material escolar e fardamento Teresa não precisa de mais do que 4 mil meticais por ano para voltar às aulas. Os mais de 30 quilómetros que terá de percorrer a pé todos os dias para ir a escola, mais 30 para regressar, não a intimidam.

O @Verdade contactou a escola para apurar se existe algum procedimento para a jovem obter algum tipo de bolsa ou apoio social, o diretor não soube responder. Nos serviços distritais de Educação fomos informados que tínhamos de procurar saber na capital da Província “como se consegue isso da bolsa de estudos”.

Foto de Adérito CaldeiraEste drama de abandono escolar por falta de menos de 5 mil meticais por ano foi nos repetido por imensas raparigas que têm a plena consciência que casaram cedo e aquelas que têm filhas pequenas se pudessem gostariam de evitar que a sua sina se repetisse.

Paradoxalmente o nosso País até tem uma Estratégia Nacional de Prevenção e Combate dos Casamentos Prematuros. Porém, aprovada antes da crise financeira eclodir, nunca teve fundos necessários para a sua implementação. Graças ao apoio de cada vez mais países doadores mais sensibilização e advocacia tem sido feita sobre os casamentos prematuros mas o @Verdade constatou que pouco ou nada é feito para solucionar situações concretas e reais.

Quiçá em vez de se gastarem milhões em seminários, palestras e conferências o melhor seria usar esse dinheiro para de alguma forma manter as raparigas casadas nos bancos da escola e talvez elas possam dessa forma evitar que as suas filhas também se casem prematuramente.

Importa recordar que imensas bolsas de estudos continuam a ser esbanjadas nas nossas cidades capitais onde o critério é ser-se filho de alguém importante, muitos deles até poderiam pagar os seus estudos sem o dinheiro do Estado.

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