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“O porto não pode parar, temos que investir porque as coisas boas não acontecem de um dia para o outro” Administrador delegado da Cornelder
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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Adérito Caldeira  em 11 Outubro 2017 (Actualizado em 14 Outubro 2017)
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Foto de Adérito CaldeiraPouco depois do auge da crise económica e financeira que afecta o nosso País e com a tensão política e militar a condicionar a Economia da região Centro de Moçambique a empresa que tem a concessão do Porto da Beira teve de enfrentar um desafio ainda maior após perder a sua Administração num trágico acidente aéreo. O @Verdade entrevistou Jan Laurens de Vries, o novo Administrador delegado da Cornelder, um jovem de 37 anos de idade que gere perto de sete centenas de pessoas e tem pela frente o desafio de manter a empresa como uma das maiores contribuintes do erário, nos últimos dois exercícios fiscais a empresa pagou mais impostos ao Estado do que todos os megaprojectos em Moçambique juntos. “O porto não pode parar, temos que investir porque as coisas boas não acontecem de um dia para o outro(...) E sabemos que se os volumes maiores de carga não vêm hoje, não vêm amanhã, hão-de vir e temos de estar preparados por isso temos uma visão de onde queremos estar daqui a 10 anos” revelou este cidadão holandês que chegou a empresa em 2009, na área de desenvolvimento de negócios, foi diretor Comercial e agora lidera o Porto que mais contentores movimente no nosso País.

@Verdade - Como é que a crise económica e financeira assim com a crise político-militar afectaram a Cornelder?

Jan – A crise económica afectou-nos bastante, o Porto da Beira vinha de 10 a 15 anos de crescimento rápido e contínuo, geralmente sempre a subir. Os últimos dois anos, 2015 e 2016, não foram fáceis. Em 2015 ainda conseguimos terminar com um crescimento ligeiro, enquanto os portos Maputo e Nacala baixaram os volumes(de carga manuseada). Mas em 2016 não conseguimos escapar e os lucros desceram, foi a primeira vez que isso aconteceu. Um porto não pode criar mercado, por mais anúncios (comerciais) que façamos somos dependentes, se a economia está (dinâmica) há muita exportação e importação. Teve alguma influência no volume total(de carga) que manuseamos. Mas como o Porto da Beira não é somente para Moçambique, temos (clientes) do Zimbabwe, Zâmbia, Malawi e o Congo. Para eles o Porto da Beira é perto então é um mercado que nós podemos explorar. Mas temos concorrência, historicamente a Região tem estado a depender muito do Porto de Durban que tem a força que tem a economia sul-africana, sempre teve vantagens de economia de escala. O Porto de Durban é só maior cinco vezes do que os três portos moçambicanos juntos.

@Verdade – Nacala não é um concorrente?

Foto de Adérito CaldeiraJan – É também concorrente mas historicamente o grande volume(das cargas) do Zimbabwe, Zâmbia e Malawi foi sempre para Durban e uma parte para Dar Es Salam. Os Porto de Nacala, Maputo e nós estamos a tentar mudar este cenário. Nós sempre tivemos vantagem de ser um corredor mais próximo, temos a vantagem das distâncias, em princípio quanto mais curto o caminho mais barato, mas se vai ver uma cadeia logística tem vários intervenientes. Tem a parte de transporte marítimo, o porto, tem os transportes rodoviários e ferroviários.

Nós tínhamos uma desvantagem que é o porto marítimo era bastante mais caro, os navios (que podiam atracar) eram bastante menores por falta de dragagem, não tínhamos ligações directas com os destinos principais, os navios não vinham regularmente. Isso para um importador ou exportador é um grande problema, o custo de transporte pode ser um pouco mais barato mas se a carga leva mais tempo a chegar ao destino é preferível pagar um pouco mais.

Muitas vezes os navios tínham de esperar pelas marés para entrar ou sair. Esse cenário mudou drasticamente nos últimos seis a sete anos. Em 2010 foi feita a dragagem de emergência e o Porto da Beira começou a ter uma profundidade maior o que permitia navios com um calado maior pudessem entrar. Logo as grandes agências de navegação (CMA/CGM, MAERSK, MSC e PIL ) criaram ligações directas o que mudou bastante permitindo que os custos do transporte marítimo baixassem e as conexões tornaram-se mais regulares. Isto permitiu que nós também pudéssemos exigir mais dos clientes em termos de trânsito da carga.

Nos últimos anos melhoramos drasticamente o tempo que os contentores ficam no porto.

 

“A nossa maior preocupação é como vamos conseguir atender esses volumes de carga que vêm aí”

 

@Verdade – Qual é a situação da dragagem do porto?

Jan – Sempre tem que ser feita mas até 2013 tinha sido feito muito pouca(dragagem) durante muitos anos. Sempre tem que ser feita, a EMODRAGA tem os navios que tem, infelizmente no ano passado tivemos um acidente com a draga Macuti, que esperamos em breve estar de volta. Os CFM também está a trabalhar para ter apoio de uma empresa estrangeira para fazer a dragagem de novo. Neste momento estamos bem, já recebemos navios maiores, mas o porto está a crescer e precisamos sempre melhorar.

@Verdade – E a crise político militar?

Jan – Quando mercado interno começou a baixar nós tínhamos começado a crescer nos mercados dos Países vizinhos e isso ajudou a manter os resultados positivos em 2015, mas em 2016 não foi possível, descemos ligeiramente os volume. Este ano já voltamos a crescer. Mas durante esses dois anos não estivemos parados e conseguimos melhorar a nossa eficiência e tornamo-nos mais competitivos.

Foto de Adérito Caldeira

@Verdade – Mas apesar das crises, financeira e a militar, a empresa continua a pagar muitos impostos, mais do que todos os megaprojectos como é que se consegue isso?

Jan – Maior eficiência. Podemos fazer mais trabalho em vez de contratar mais pessoas, aplicamos novas tecnologias para aumentar a produtividade, melhoramos a nossa manutenção, conseguimos optimizar bastante as nossas operações. A nossa maior preocupação é como vamos conseguir atender esses volumes de carga que vêm aí.

@Verdade – Nestes 18 anos que dura a concessão do Porto da Beira a Cornelder não tem parado de investir?

Jan – Sem dúvidas, especialmente nos últimos cinco a sete anos foram mais de 100 milhões de dólares norte-americanos. O porto não pode parar, temos que investir porque as coisas boas não acontecem de um dia para o outro. Sabemos que desde fazer um projecto e até concluir passam anos e não podemos olhar para o mercado se hoje não está bom deixar de investir, um porto é sempre um investimento de longo prazo. Temos que ter confiança, é difícil ganhar mas perder é fácil. E sabemos que se os volumes maiores de carga não vêm hoje, não vêm amanhã, hão-de vir e temos de estar preparados por isso temos uma visão de onde queremos estar daqui a 10 anos.

 

Em seis anos movimento passou de 85 mil contentores para mais 207 mil por ano

 

@Verdade – Excluindo a indústria extractiva quem são os principais clientes da Cornelder?

Jan – Nós temos uma base de clientes muito diversificada. Na exportação o volume total de carga do interland é maior que o local, temos clientes do sector agrícola(que manuseiam tabaco, algodão, chá, café, vários tipos de feijão, gergelim), no sector mineral, excluindo o carvão, transportamos cobre, cobalto, crómio. Na importação os Países vizinhos também movimentam mais carga, é difícil nomear os produtos pois manuseamos um pouco de tudo desde televisores, cerveja, alimentos entre outros produtos que os Países precisam.

@Verdade – Faltam sete anos para acabar a concessão, mas a Cornelder continua a fazer investimentos?

Foto de Adérito CaldeiraJan – Estamos em discussão com as autoridades, queremos ter uma extensão da concessão. Queremos apresentar um plano de ampliação, é um processo longo de negociação, mas a nossa intenção não é no final da concessão fechar às portas.

Acho que a Cornelder tem se mostrado um parceiro bastante estratégico para os Caminhos de Ferro de Moçambique desde o primeiro dia, temos pago dividendos, temos pago a taxa de concessão, ganhamos há vários anos o prémio de maior contribuinte da Autoridade Tributária, criamos emprego, achamos que os accionistas também estão satisfeitos. Estamos também a investir nos trabalhadores, na formação, estamos bastante contentes com os nossos trabalhadores. Os expatriados somos poucos, agora somos apenas três.

@Verdade – Olhando para futuro que produtos espera que aumente o seu manuseamento?

Jan – O mercado de minerais está ainda para ser conquistado por nós, por exemplo (a República Democrática do) Congo está a começar a usar o Porto da Beira mas exporta muito através de Dar Es Salam e de Durban. Há um mercado de camiões sul-africanos que transportam produtos para o Congo e na volta trazem carga. Não é necessariamente porque a distância é mais curta que nós somos os mais baratos, existem esses elementos.

@Verdade – Mas Nacala não é um concorrente também?

Jan – Claro que poderíamos ser o único porto na Região, seria muito confortável, mas para o País é salutar que exista concorrência seja de Nacala, Maputo, Dar Es Salam ou Durban, não podemos ficar a dormir e isso estimula-nos a fazer cada vez melhor. É certo que Nacala para certas cargas tem vantagens, por exemplo para carvão, embora seja mais longe mas tem um calado que permite os navios de grande calado entrarem. Acreditamos que com o volume operacional que temos mesmo que Nacala fique melhor temos como manter a nossa posição do Porto que manuseia o maior número de contentores em Moçambique.

@Verdade – Nestes oito anos que trabalha na Cornelder qual foi o maior desafio que enfrentou?

Jan – Quando cá chequei, em 2009, transportamos cerca de 85 mil contentores, seis anos depois ultrapassamos os 207 mil. Acompanhei esse crescimento, também do terminal de carvão. O desafio foi criar capacidade necessária rapidamente para acomodar essa demanda.

Nos últimos dois anos o desafio foi continuar a crescer com um mercado a reduzir e os constrangimentos financeiros. Mas o crescimento que temos hoje não seria possível sem o envolvimento de todos que trabalham para o Porto. Tenho confiança que nos próximos 10 anos o Porto da Beira vai continuar a crescer e ficar mais competitivo.

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