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“Inhaca tornou-se num destino para esquecer, porque não há condições de transporte para os turistas”
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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Adérito Caldeira  em 17 Novembro 2016
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Foto de Nuno TeixeiraOs residentes do distrito municipal KaNyaka(Inhaca) estão mais uma vez privados do transporte marítimos público que garante a ligação entre a ilha e a capital moçambicana, a embarcação Nyeleti está avariada há algum tempo e o barco que a substitui também avariou. Antes um destino turístico de eleição a ilha localizada a 32 quilómetros a leste de Maputo viu, há mais de um ano, fechar a sua principal instância hoteleira propriedade de um grupo internacional. “A Inhaca tornou-se num destino para esquecer porque não há condições de transporte para os turistas e por isso tivemos que fechar o hotel”, explicou ao @Verdade o director-geral do hotel.

O drama do transporte de e para a ilha de Inhaca não é novo, a causa principal é que existe apenas uma única embarcação que assegura o transporte público e essa opera desde antes da independência nacional. Todavia parece sempre uma novidade para os políticos que escalam o agora denominado distrito municipal KaNyaka.

Em Junho passado o Presidente Filipe Nyusi esteve na ilha, viajou de helicóptero para não sentir o desconforto do mar, e como o seu antecessor prometeu uma nova embarcação para acabar com o sofrimento dos residentes.

“O barco que faz a carreira Maputo – Inhaca, o Nyeleti, está avariado mas nós estamos a cobrir essa carreira através do Paulo Santos, uma embarcação mais pequena. Mas esta mesma teve uma paralisação de ontem para hoje e vai para uma reparação, não de grande vulto, e até sexta-feira estará a trabalhar” explicou ao @Verdade telefonicamente Felisberto Sitoe, delegado da Transmarítima, empresa que opera as embarcações de transporte público na capital moçambicana.

De acordo com a fonte, “na sexta-feira se as condições do tempo permitirem há-de haver haver carreira para Inhaca com a embarcação Paulo Santos”. Questionado quando o Nyeleti voltaria a navegar, que por ser maior possibilita o transporte de mais carga, Felisberto Sitoe declarou que “tão já não há previsão”.

A questão do transporte de carga é fundamental para a sobrevivência dos residentes de KaNyaka pois na ilha a produção agrícola é limitada, os solos são salinizados e a disponibilidade de água para a rega é limitada. Todavia, durante a sua visita, o Presidente Nyusi disse aos residentes que o distrito municipal tem condições para produzir batata, mandioca, arroz, feijões e hortícolas. “Podem produzir localmente para não irem buscar alguns do produtos agrícolas em Maputo. É preciso continuar a pescar e fazer machambas grandes?”, sugeriu o Chefe de Estado que ainda apontou a promoção do Turismo como alternativa para gerar renda.

“A questão principal da Inhaca é a falta de transporte”

Foto de Nuno TeixeiraOs residentes da Inhaca devem ter-se divertido com as sugestões do Presidente Filipe Nyusi afinal fazia pouco mais de um ano que a principal, e mais antiga, unidade hoteleira da ilha havia fechado. “A 31 de Março passado fizemos um ano fechados”, revela ao @Verdade Vasco Manhiça, director-geral do Pestana Rovuma hotel que geria na ilha o Pestana Inhaca Lodge, uma instância turística de 4 estrelas.

Natural da ilha, Vasco Manhiça não tem dúvidas que “a questão principal da Inhaca é a falta de transporte. O barco privado não é para o Turismo é para aquelas pessoas esporádicas que vão para lá, o potencial turista da Inhaca quer ir lá de avião(a viagem é de 15 minutos). Barco não resolve (demora tempo, não é confortável). Só agora que estamos a falar já não há nem o barco privado nem o Nyeleti, o pessoal que vive na Inhaca vai de barcos à vela”.

Há muitos anos que deixou de existir uma ligação aérea regular para a ilha, onde existe um pequeno aeródromo, a última companhia a voar para lá, de acordo com o nosso entrevistado foi a CR Aviation, “funcionava em regime charter, e cobrava 300 dólares norte-americanos. A Inhaca é um destino que não se vai sozinho, imagine que vai com a sua esposa vai pagar 600 dólares? É o equivalente a sair daqui e ir para as Maurícias, via Johannesburg. Ninguém queria ir para lá”.

“Nós vamos ser realistas a Inhaca tornou-se num destino para esquecer, porque não há condições de transporte para os turistas e por isso tivemos que fechar o hotel. Como é que você vai gerir um hotel com 1% de ocupação, um hotel que ficava de segunda à sexta com zero clientes e depois chegava a sexta-feira eventualmente poderia ter três quartos ocupados, como você gere uma unidade hoteleira assim? Como se pagam os salários”, questiona Manhiça.

“Mesmo que eu ofereça agora a possibilidade de ter alojamento com alimentação gratuita por uma semana na Inhaca como é que você chega lá agora? De barco à vela é uma viagem de várias horas (se o tempo estiver favorável). A infra-estrutura está lá, se quiser posso abrir amanhã só tenho que mandar uma equipa de trabalhadores. A Inhaca tornou-se num dos destinos mais caros e só pelo preço do transporte, a ilha tem que ser vista num outro contexto”, lamenta-se o experiente profissional de Turismo moçambicano.

Presidente Nyusi sugeriu que o Grupo Pestana comprasse um avião

A análise de Manhiça é corroborada pelo Plano Estratégico para o Desenvolvimento do Turismo em Moçambique, aprovada em Fevereiro de 2016, que constata que enquanto o transporte aéreo doméstico cresceu acentuadamente entre 2011 e 2013, devido ao aumento de tráfego nos aeroportos associados à exploração dos recursos minerais (Tete, Nampula, Beira e Pemba), “os que prestam serviços ao turismo de lazer, tais como Vilankulo, Inhambane, Chimoio e Inhaca experimentaram um certo declínio nos últimos cinco anos.”

Vasco Manhiça revelou ainda ao @Verdade que recentemente privou com o Chefe de Estado, Filipe Nyusi, no recente evento Descubra Moçambique, e ele disse “vocês Pestana são fracos porque deviam comprar um avião. Ele não tem a percepção do que é gerir uma companhia aérea. É como se agora o Pestana Rovuma como tem baixa ocupação resolvesse comprar um avião para fazer voos low cost ir buscar os turistas a Europa ou aos Estado Unidos da América! Se nem as próprias companhias aéreas conseguem, ele tem ideia do que é isso de comprar um avião, qual é a estrutura logística?”

“Outros dizem comprem barcos! Eu falo com toda propriedade eu nasci na Inhaca e comecei a trabalhar lá, tenho amigos que tinham barcos e hoje ninguém mais tem nem faz a ligação. Os custos de manter uma embarcação e da operação são insuportáveis. O Governo tem que olhar e assumir a sua parte, em todo mundo é assim. Em Portugal, por exemplo, os operadores da travessia ao rio Tejo têm um incentivo do Governo” disse o nosso entrevistado.

As barreiras que estão a minar o Turismo em Moçambique

O @Verdade perguntou se com a desvalorização do metical em relação as principais divisas o Turismo moçambicano não ganhou mais turistas. “Pelo contrário, era suposto ser assim mas há um conjunto de constrangimentos que estão à volta disso”, declarou Vasco Manhiça e explicou.

Foto de Nuno Teixeira“Lembra-se que há alguns anos atrás havia facilidade na obtenção de visto de turismo no aeroporto, agora só é possível para quem venha de Países onde Moçambique não tem representação consular. Se olharmos para esses Países onde Moçambique não tem representação consular não são claramente os locais de maior proveniencia de turistas para cá, por isso é que não temos nada. Se o turista vier de Portugal não pode obter visto na fronteira, tem que levar 15 dias a ir para a embaixada”.

As estatísticas pouco fiáveis sobre o Turismo em Moçambique indicam que, sem contar com os turistas africanos, os portugueses foram os que mais visitaram o nosso País nos últimos quatro anos, seguidos pelos norte-americanos e pelos ingleses.

O nosso entrevistado citou a situação caricata que uma funcionária de alto escalão do Grupo Pestana, que trabalhou durante anos em Moçambique e agora está baseada na Inglaterra, enfrentou para conseguir a preciosa autorização de entrada, “precisou de ir três dias seguidos à embaixada moçambicana lá e exigiram-lhe até o extrato da conta bancária para ter o visto”.

“Por outro lado um turista que queira sair de Portugal, ou de qualquer País da União Europeia, para a África do Sul tem entrada livre, numa situação dessas para onde irá o turista? São esses constrangimentos que as pessoas que governam precisam de olhar para elas e perceber que são barreiras que estão a minar o Turismo. Os assuntos são sempre os mesmos, este País não é normal. Portugal durante todos estes anos que esteve em aperto financeiro o que permitiu-lhes sobreviver foi o Turismo (estatísticas recentes) e nós estamos a fazer claramente ao contrário.”

A dificuldade de obtenção de um visto de turismo para Moçambique e o seu impacto está patente no Plano Estratégico para o Desenvolvimento do Turismo em Moçambique. “Um regime de vistos que permite o acesso fácil e acessível, especialmente para mercados-alvo emissores de alta rendar é, portanto, necessário. Além de mostrar um sinal muito positivo para os mercados turísticos, tal abordagem, sem dúvida, resulta em grandes ganhos económicos no turismo”, indica o documento aprovado pelo Governo de Filipe Nyusi.

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