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Acabou o “El Dorado”, ficou o crime organizado em Tete
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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Adérito Caldeira  em 01 Abril 2016
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“O El Dorado já acabou há muito tempo” contou ao @Verdade um cidadão natural de Tete, empresário do ramo comercial o único sector que se desenvolveu graças a indústria do carvão, alguns terão ficado muito ricos mas pouco ficou com o povo na província. Das promessas de um futuro melhor continua a faltar acesso à água potável, ao saneamento, à hospitais, a electricidade de qualidade, à empregos dignos... mas floresceu o crime, que está cada vez melhor organizado e a aterrorizar os empresários da terra que já ponderam fugir para não serem sequestrados.

Passada a fase inicial de implantação e início da exploração dos projectos de mineração de carvão o volume de negócios entre as multinacionais e as empresas locais diminuiu significativamente, os postos de trabalho para os moçambicanos também reduziram e pelo meio as limitações para o escoamento, derivadas pela fraca infra-estrutura logística, conjugada com a queda drástica do preço mineral no mercado internacional resultaram na crise económica que se vive em Tete. “Não há negócio” desabafou o empresário cinquentão que pede para não ser identificado.

“As coisas por aqui não estão bem” continuou o nosso entrevistado depois de explicar que embora nunca tenha tido como cliente directo do seu comércio nenhuma das multinacionais, afinal “os megaprojectos sempre tiveram empresas de fora a fornecer”, o negócio era bom, o poder de compra era grande.

Segundo a nossa fonte o preço dos produtos alimentares aumentaram, “o milho disparou” e as vendas, mesmo de comida, baixaram. Quem investiu no ramo imobiliário, condomínios com centenas de habitações foram construídos, hoje não têm nem 20% de ocupação apesar dos preços de aluguer terem reduzido. “Nunca vi Tete neste estado, há lojas a fecharem” declarou o empresário natural de Tete.

Um cenário de crise corroborado pelo Carlos Cardoso, presidente da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) na província, que também refere a guerra, envolvendo o Governo e o partido Renamo, com outra das causas.

Alguns economistas, não alinhados com a propaganda governamental, foram avisando desde a chegada das multinacionais que o modelo económico de desenvolvimento escolhido não iria criar impacto significativo na economia local da província.

“A maioria dos fornecedores nacionais das mineradoras actua em áreas não nucleares (gestão documental e de arquivos, climatização, assistência eléctrica geral, transporte de pessoas, pequenas obras de construção civil, equipamento de protecção pessoal, substituição de vidros em camiões e comboios, limpeza de escritórios, fumigações e catering) e pouco complexas, dependentes de imputs importados com limitada adição de valor local. Por consequência, as ligações estabelecidas são de curta duração, instáveis e sem perspectivas claras de continuidade”, constatou a economista Epifânia Langa, numa investigação realizada para o Instituto de Estudo Sociais e Económicos (IESE).

Não fomos avisados atempadamente para que nos pudéssemos preparar para os megaprojectos

Mais diplomata no diagnóstico, o representante do CTA acrescentou ao rol de problemas a falta de comunicação entre o Governo e os pequenos e médios empresários de Tete antes do início da exploração do carvão. “Um dos aspectos caricatos que tem existido é que não entendemos como é que por exemplo quando os megaprojectos se vêm instalar, ou necessitam de determinados serviços nós deveríamos ser avisados com o seu tempo para que nos pudéssemos preparar, para que pudéssemos investir naquela área tendo em conta que vamos fornecer aquele material. Muitas vezes quando somos informados é na hora e o caricato é que na África do Sul sabem com antecedência e obviamente quando chega o negócio estão mais preparados” afirmou Carlos Cardoso em entrevista telefónica ao @Verdade.

Foto de ArquivoOlhando para as estatísticas oficiais constata-se que apenas o ramo comercial e de serviços financeiros registou crescimento de postos de trabalho, entre 2008 e 2015 passou de 1,9% para 4,8. A indústria de carvão empregava 0,6% de trabalhadores só aumentou, no mesmo período, para 1,1%, de acordo com os Inquéritos aos Orçamentos Familiares produzidos pelo Instituto Nacional de Estatística. O ramo da construção civil oficial está estagnado. Em contraponto a maioria dos tetenses continua a praticar a agricultura, silvicultura e pesca de sobrevivência, um sector que na última década não conseguiu transformar-se em comercial para poder fornecer aos supermercados e quiçá alimentar os megaprojectos.

Os empresários lamentam que a ideia de que há muito dinheiro em Tete seja partilhada pela Autoridade Tributária e pela Inspecção Nacional das Actividades Económicas que têm levado à cabo constantes inspecções às pequenas e médias empresas, várias têm sido encontradas em falta e acabam por pagar multas elevadas.

“Ainda não vi até hoje uma inspecção que não acabe em multa, há poucas semanas um conhecido apanhou uma multa de alguns milhões de meticais, bem mais do que ele havia facturado no exercício de 2015”, confidenciou-nos um empresário que também prefere não ter a sua identidade conhecida com receio de “retaliações ou inspecções”, segundo a fonte vários empresários estão a reduzir trabalhadores e outros mesmo a fechar os negócios formais e a abrirem “bancas onde só pagam um imposto municipal”.

Bem mais optimista está o representante dos patrões de Tete, “(...) nós temos em carteira vários projectos, como a mina de ferro que está para começar, a nova barragem que vai ser construída e estou certo de que a curto prazo a situação no mercado internacional do valor do carvão se vai estabilizar, e sabe que Tete tem um dos carvões de melhor qualidade a nível mundial” concluiu o presidente do CTA local.

Criminalidade, sequestros e muito medo

Para agravar o drama, desde o primeiro dia de 2016, começaram a acontecer raptos a empresários para o pedido de resgate. Primeiro foi um cidadão de nacionalidade chinesa, ligado ao ramo da construção civil, e na segunda semana de Março um cidadão moçambicano também foi vítima dos sequestradores.

“Tete sempre foi uma província pacata”, explicou ao @Verdade o presidente do CTA que aponta como causas do aumento da criminalidade o despedimento de muitos trabalhadores das mineradoras, “por outro lado a criminalidade não é feita pelas pessoas de Tete, são pessoas que vêm de fora. O desenvolvimento atrai os bandidos do outro lado,(...) há importação de assassinos paquistaneses para virem fazer determinados trabalhos” acrescenta Cardoso.

O @Verdade não pôde confirmar mas tem indicação de que o resgate do cidadão Abdul Razak Abdula Valymamad, no valor de algumas centenas de milhões de meticais, foi pago e ele liberto sem a intervenção da Polícia. O empresário, do ramo comercial e imobiliário, preferiu deixar a cidade de Tete, e ao que tudo indica o nosso país.

Entretanto, desde a semana finda outros empresários de Tete começaram a ser chantageados com ameaças de que caso não paguem os valores que lhes são exigidos serão também alvos dos raptores. “Ligam e dizem, este é o numero da conta onde o senhor deve depositar 300 mil senão será a próxima pessoa a ser raptada”, relatou ao @Verdade um dos visados.

Como é usual a Polícia da República de Moçambique naquela província assiste impávida a actividade dos criminosos, com a repetida desculpa de “falta de meios”, que não se coíbem de telefonarem para as suas vítimas a partir de números não restringidos e até enviam os seus dados bancários, para a transferência dos resgates, por mensagem de texto (vulgo SMS).

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