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Combatente da liberdade, Nelson Mandela (1918 - 2013)
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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Adérito Caldeira  em 12 Dezembro 2013
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O mundo perdeu o seu maior guerreiro pela Liberdade. Nelson Mandela partiu para o descanso eterno na passada quinta-feira, 5 de Dezembro. Nelson, que nasceu Rolihlahla – que significa em língua xossa “agitador” – não se recorda do momento em que decidiu que empenharia a sua vida na luta pela liberdade. “Não houve um dia especial em que tenha dito: «A partir de agora vou dedicar-me à libertação do meu povo». O que aconteceu foi que dei por mim a fazer isso mesmo, sem alternativa possível.”

Filho de Gadla Henry Mphakanyiswa e de Nosekeni Fanny Nonqaphi, nasceu num minúsculo vilarejo nas margens do rio Mbashe, “uma terra linda, de colinas ondulantes e vales férteis, que conservam a verdura da paisagem mesmo durante o Inverno” no distrito de Umtata, a capital do Transkei.

O pai era conselheiro de chefes tribais e estava destinado a ser chefe, não fora uma disputa com magistrados coloniais tê-lo feito cair em desgraça. “Tinha eu pouco tempo de vida quando o meu pai se envolveu numa disputa que teve por consequência a perda do seu posto de chefe em Mvezo e que revelou um defeito do seu carácter que julgo ter transmitido ao filho. Acredito que, mais do que a origem biológica, o que nos molda verdadeiramente o carácter é a educação, mas o meu pai possuía um orgulho rebelde e um sentido obstinado de justiça que reconheço em mim próprio (…) Certo dia, um dos súbditos do meu pai apresentou uma queixa contra ele por causa de um boi extraviado. Na sequência dessa queixa, o magistrado ordenou a comparência do meu pai. Quando este recebeu a convocatória, respondeu do seguinte modo: Andizi, ndisaqula («Não vou, estou a preparar-me para a batalha»). Ora nesses tempos não era sensato desafiar um magistrado, pois tal atitude seria considerada insolente – o que neste caso correspondia à verdade.”

“O meu pai, que pelos padrões da época era um aristocrata rico, perdeu não só a fortuna como o título. Foi-lhe sonegada grande parte das terras e do gado e os respectivos rendimentos. Confrontada com estas dificuldades, a minha mãe mudou-se para Qunu, uma aldeia um pouco maior, a norte de Mvezo, onde podia contar com o apoio da família e dos amigos. Em Qunu, a nossa vida era menos faustosa, mas foi nessa aldeia próxima de Umtata que vivi os dias mais felizes da minha infância e é de lá que provêm as minhas primeiras recordações.”

Preparado para me revoltar contra o sistema social do meu próprio povo”

Quando o pai morreu, Mandela tinha nove anos de idade. Foi adoptado pelo chefe Jongintaba Dalindyebo, regente do povo thembo, adquirindo o mesmo estatuto dos seus dois filhos.

“As ideias sobre liderança que mais tarde desenvolvi foram profundamente marcadas pela observação do regente e da sua corte. Assisti e aprendi imenso com as reuniões tribais que regularmente tinha lugar na Casa Grande (…) Todos os thembos podiam comparecer e eram muitos os que apareciam (…) Todos os que quisessem falar podiam fazê-lo. Era a democracia na sua forma mais pura. É certo que havia uma hierarquia entre os oradores, mas todos podiam fazer ouvir a sua voz (…) O fundamento deste governo de todos era o direito que assistia a todos os homens de exteriorizar os seus pontos de vista numa base igualitária. (Infelizmente, as mulheres era consideradas cidadãs de segunda classe.)”

Enquanto nobre thembu, Nelson estudou e entrou, em 1939, aos 21 anos, na Universidade de Fort Hare, a única aberta a não brancos na África do Sul. Lá preparou-se para uma carreira de funcionário público, o melhor que um negro poderia alcançar na época.

“Com o bacharelato poderia finalmente devolver à minha mãe a riqueza e o prestígio que perdera após a morte do meu pai. Havia de lhe construir em Qunu uma casa como devia ser, com um jardim, mobílias e todas as coisas necessárias. Havia de a sustentar, bem como às minhas irmãs, para que pudessem ter coisas que há muito lhes eram negadas. Este era o meu sonho e parecia inteiramente ao meu alcance.”

Mas na sequência de uma eleição académica, para o Conselho Representativo dos Estudantes de Fort Hare, a vida do jovem Nelson começou a mudar. “Uma vez que o nosso objectivo inicial era o boicote das eleições, com o acordo da grande massa dos alunos, o nosso dever era respeitar essa resolução e não nos deixarmos enredar pelas habilidades do director. Como não consegui demover os meus colegas, demiti-me pela segunda vez. Fui o único (…) Não estaria a arriscar a minha carreira académica por causa de um princípio abstracto de pouca importância? Achei difícil engolir a ideia de sacrificar o que considerava serem as minhas obrigações para com os alunos em prol dos meus interesses egoístas. Tinha assumido uma posição e não queria surgir como uma fraude aos olhos dos outros estudantes. Mas também não queria ser expulso de Fort Hare”.

Mandela foi expulso, regressou a Mqhekezweni e teve de enfrentar a fúria do seu benfeitor que o obrigou a cumprir as regras e que regressasse à Universidade. Entretanto, o regente decidiu que era chegada a altura de casar e arranjou-lhe uma noiva. “O regente agia em conformidade com os usos e costumes dos thembos e os seus motivos não eram mal-intencionados: queria ver-nos instalados antes de morrer (…). Nessa época, estava mais avançado em matéria social do que em política. Ao mesmo tempo que nem sequer pensava em contestar o sistema político do homem branco, estava preparado para me revoltar contra o sistema social do meu próprio povo. Por ironia, indirectamente, a culpa era do próprio regente, pois fora a educação que me tinha proporcionado que estava por detrás do meu repúdio aos costumes tradicionais”.

Nelson decidiu fugir para Joanesburgo. Na sua busca por trabalho conheceu Walter Sisulu, na altura um homem de negócios imobiliários, que lhe arranjou o seu primeiro emprego, como “uma espécie de escriturário e rapaz de recados”.

Enquanto isso, terminou o bacharelato por correspondência na UNISA e ingressou na Universidade de Witwatersrand para estudar direito e foi onde Mandela sentiu abrirem-se “as portas de um mundo novo, um mundo de ideias, de convicções e combates políticos. Estava entre intelectuais brancos e indianos da minha geração, jovens que viriam a formar a vanguarda dos mais importantes movimentos políticos dos anos seguintes. Pela primeira vez encontrei pessoas da minha idade resolutamente dedicadas à luta pela liberdade e que estavam dispostas, malgrado a sua situação privilegiada, a sacrificar-se pela causa dos oprimidos”.


Marchar ao lado do povo é uma experiência exaltante”

O primeiro envolvimento de Nelson Mandela com o ANC aconteceu em 1942 por influência de um colega de trabalho. “Acompanhei Gaur a algumas reuniões do Conselho Consultivo da Township e do ANC. Como observador, não como participante, pois não me recordo de ter tido qualquer intervenção (…). Em Agosto de 1943 desfilei com Gaur e outras dez mil pessoas, em apoio ao boicote dos autocarros de Alexandra, um protesto contra o aumento dos bilhetes de quatro para cinco dinheiros (…) Ainda que de forma muito discreta, passei de simples observador a participante. Descobri que marchar ao lado do povo é uma experiência exaltante e animadora. Além disso, fiquei impressionado com a eficácia do boicote: ao fim de nove dias, durante os quais os autocarros andaram vazios, a companhia baixou o preço dos bilhetes”.

Tinha começado a sua militância no Congresso Nacional Africano. “Não houve qualquer epifania, qualquer revelação singular, qualquer momento de verdade, apenas uma acumulação repetitiva de milhares de pequenas coisas, de pequenas afrontas, de milhares de momentos que já esqueci, que em mim desencadearam uma raiva, uma revolta, um desejo de lutar contra o sistema que mantinha o meu povo acorrentado”.

Embora por essa altura o ANC já se destacasse de outras organizações, como o repositório das esperanças e das aspirações dos negros, muitos (incluindo Nelson) alimentavam a ideia de que o ANC estava a precisar de ser revigorado e de ser mais activo na defesa dos interesses do povo sul-africano. Junto a outros jovens intelectuais, Mandela participou, na Páscoa de 1944, na fundação da Liga da Juventude do ANC (ANCYL). “O objectivo político da Liga era consentâneo com os estatutos da fundação do ANC, em 1912 (…) O nosso manifesto proclamava: «Acreditamos que a libertação dos africanos será levada a cabo pelos próprios africanos (…). A Liga da Juventude do Congresso será o cérebro e o motor do espírito do nacionalismo africano»”.


Já tinha um herdeiro”

Entretanto, Nelson conheceu a sua primeira esposa, Evelyn Mase. “Era uma jovem do campo, bonita e discreta” com quem travou conhecimento na casa de Walter e Albertina Sisulo. “Pouco depois de nos termos conhecido, convidei-a para sair comigo. Apaixonámo-nos quase de seguida. Alguns meses depois, pedi-a em casamento e ela aceitou”.

Foi uma cerimónia simples com a presença dos noivo e uma testemunha, pois Mandela não possuía dinheiro para um casamento tradicional nem para a festa. Na falta de condições para arrendarem um local para viverem o jovem casal começou por instalar-se na casa do irmão de Evelyn e mais tarde na casa da irmã dela. No início de 1946, Nelson e Evelyn conseguiram, enfim, arrendar uma pequena casa municipal no Soweto. Mais tarde mudaram-se para outra maior no mesmo bairro no nº 8115 de Orlando West.

“Não era propriamente grandiosa, mas era a minha primeira casa e tinha nela grande orgulho (…). Por essa altura não podia adivinhar que não viria a ter outra a que pudesse chamar minha durante muitos, muitos anos”. Nasce Madiba Thembekile, o primeiro filho de Nelson Mandela. “Já tinha um herdeiro, embora pouco ou nada tivesse para lhe deixar. Mas perpetuara o nome de Mandela e do clã Madiba, que é uma das responsabilidades básicas de um homem de etnia xossa”.

 

Hei, Malan! Abre as portas da prisão. Queremos entrar.”

O Apartheid começou a ser instalado na África do Sul pelo Partido Nacional, dirigido por Daniel Malan. “Os africanos não tinham direito de voto, mas isso não significava que nos fosse indiferente quem ganhava as eleições. As eleições gerais dos brancos tiveram lugar em 1948 (…) A plataforma programática de Malan ficou conhecida como Apartheid. A palavra podia ser nova, mas a ideia era velha. Significa literalmente «separação» e representava a codificação num sistema opressivo de todas as leis e regulamentos que ao longo de séculos tinham mantido os negros numa posição de inferioridade em relação aos brancos”.

Através da realização de greves, boicotes, desobediência civil e recusa de cooperação, os negros, indianos e outros sul-africanos tentavam resistir à implantação do regime do Apartheid mas a reacção dos nacionalistas no poder foi aumentar ainda mais a repressão. Ao todo, o Partido Nacional criou 148 leis para restringir os direitos dos negros. A proibição de casamentos inter-raciais entrou em vigor em 1949.

Em 1950 nasce o segundo filho de Nelson e Evelyn – antes, em 1947, o casal chorara a morte da filha Makaziwe, com apenas noves meses. “Um homem empenhado no combate é um homem que não tem vida própria. Foi precisamente durante o Dia do Grande Protesto que nasceu o meu segundo filho, Makgatho Lewanika (…). Um dia, ainda durante este período, a minha mulher informou-me de que Thembi, o meu filho mais velho, então com cinco anos, lhe tinha perguntado: «Onde vive o papá»?”.

“Costumava chegar tarde a casa, muito depois de ele estar a dormir, e saía cedo, antes de ele acordar. Não me agradava ser privado da companhia dos meus filhos. Senti-lhe imenso a falta durante esses dias, muito antes de saber que viria a passar décadas longe deles”.

Da passividade inicial, milhares de sul-africanos – médicos, operários, advogados, professores, estudantes e até sacerdotes –, passaram à desobediência civil participando em Campanhas de Provocação onde várias das leis injustas do Apartheid eram transgredidas. Todos acabaram por ser detidos mas mesmo assim cantavam “Hei, Malan! Abre as portas da prisão. Queremos entrar”.

As transgressões eram pequenas e as penas não ultrapassaram algumas noites ou semanas na prisão, que podiam ser comutadas em multa. As leis não foram revogadas, mas graças à divulgação da campanha o número de filiados no ANC saltou de vinte mil para cem mil. “O ANC emergiu como uma verdadeira organização de massas, dotado de um corpo impressionante de activistas experientes que arrostavam a Polícia, os tribunais e as cadeias (…) Depois da Campanha de Provocação, ser preso tornou-se uma honrosa distinção para os africanos”.

 

Detido e divorciado

Combatente da liberdade quase em part-time, Mandela reencontrou Oliver Tambo em 1952 e juntos abriram o primeiro escritório de advogados negros.

“Depressa percebi o significado de Mandela & Tambo para os africanos comuns. Era um lugar onde encontravam quem os ouvisse, um aliado competente, onde ninguém os mandava embora nem explorava, onde se sentiam orgulhosos por serem representados por homens com a mesma cor de pele (…). Muitas vezes deparámos com preconceitos dentro do próprio tribunal. Era frequente as testemunhas brancas recusarem-se a responder a perguntas de um advogado negro”.

Em 1953, foi instituída a segregação em lugares e serviços públicos e o governo tomava mais medidas para tornar impossíveis todos os actos de protesto. “Desconfiei que dentro em pouco seria impossível organizar um protesto, fosse legal ou à margem da Constituição (…). A resistência passiva e não violenta só é eficaz quando os opositores respeitam as mesmas regras. Mas quando os protestos pacíficos são reprimidos com violência deixa de haver eficácia”.

A 3 de Setembro desse ano Mandela foi proscrito, obrigado a demitir-se do ANC e a não abandonar o distrito de Joanesburgo, durante dois anos. “Daí em diante, todos os meus actos e planos em prol do ANC seriam secretos e ilegais”.

Em 1956, o governo deteve todo o executivo do ANC, 105 africanos, 21 indianos, 23 brancos e sete mestiços. “Agora era o inimigo que nos reunia sob o mesmo tecto, para o mais longo e concorrido comício da Aliança do Congresso em vários anos”.

Os 156 réus foram acusados de alta traição e de conspiração para o uso de violência no intuito de derrubar o governo e substituí-lo por um sistema comunista. Acabaram por ser libertados sob caução.

Quando regressou a casa, Mandela já não encontrou a mulher Evelyn e os filhos, três na altura com o nascimento de uma filha que recebeu o nome da filha falecida seis anos antes: Makaziwe – na tradição xossa dar a uma criança o nome de outra que morreu é uma maneira de prestar homenagem à memória e manter um elo de ligação místico.

“Evelyn e eu tínhamos diferenças irreconciliáveis. Eu não podia abandonar a minha vida de luta, ela não conseguia suportar a minha devoção a qualquer coisa que não fosse a ela ou à família.

Winnie

O processo de Traição continuava a correr no tribunal e “uma tarde, durante um intervalo no processo de instrução (...) numa paragem de autocarro entrevi pelo canto do olho uma linda rapariga que aguardava transporte. Impressionado pela visão, virei a cabeça para a ver melhor, mas o carro ia demasiado depressa (…). Algumas semanas mais tarde deu-se uma coincidência curiosa. Estava no escritório, meti a cabeça no gabinete de Oliver para falar com ele e deparou-se-me a mesma jovem, sentada com o irmão diante da secretária dele (…). Oliver apresentou-me e explicou que estavam ali por causa de um problema legal. Chamava-se Nomzamo Winifred Madikizela, mas todos a conheciam por Winnie (…). Não posso afirmar que existe amor à primeira vista, mas sei que desde que pela primeira vez entrevi Winnie soube que a queria ter por minha mulher”.

Casaram-se em 1958 e, durante as celebrações, o pai de Winnie profetizou que o matrimónio ia ser constantemente posto à prova e disse à filha que se ligava a um homem já casado com a luta. “Não havia tempo nem dinheiro para lua-de-mel e a vida depressa regressou à rotina dominada pelo julgamento (…). A mulher de um combatente da liberdade assemelha-se em muitos aspectos a uma viúva, mesmo quando o marido não está na cadeia”.

A primeira filha do casal nasceu em 1958 e, por sugestão de um parente, foi chamada Zenani.

 

A luta tinha entrado numa nova fase”

Enquanto o processo de Traição se arrastava, há cerca de três anos, um acontecimento devastador ocorreu fora do tribunal. “Sharpeville era um pequeno subúrbio a pouco mais de 50 quilómetros a sul de Joanesburgo (…). Os activistas do PAC – Congresso Pan-Africano – fundado em Abril de 1959 – tinham realizado um excelente trabalho na região. Ao princípio da tarde uma multidão composta por vários milhares cercou a esquadra da Polícia. Os manifestantes não estavam armados e mantinham-se ordeiros.

Apavorados pela esmagadora diferença de números, os setenta e cinco membros da força policial entraram em pânico. Ninguém ouviu tiros de aviso nem ordens para disparar, mas subitamente a Polícia abriu fogo sobre a multidão e continuou a disparar quando os manifestantes voltaram as costas e começaram a fugir. Quando a zona ficou livre, tinham morrido 79 africanos, a maioria atingida nas costas quando tentava fugir. Ao todo foram feitos mais de setecentos disparos sobre a multidão, ferindo 400 pessoas, entre elas dezenas de mulheres e de crianças.”

O ANC apelou ao boicote ao trabalho, e iniciou uma jornada de luto e protesto pelas atrocidades cometidas pelos polícias do regime do Apartheid. O povo aderiu e houve motins em muitos locais. O governo declarou a lei marcial na África do Sul. Mais de duas mil pessoas foram detidos ao abrigo do estado de emergência. “Eram homens e mulheres de todas as raças e de todos os partidos que se opunham ao Apartheid.” No dia 8 de Abril, o ANC e o PAC foram ilegalizados. “A luta tinha entrado numa nova fase. Agora éramos todos criminosos”.

O julgamento de Traição prolongou-se até Março de 1961, – um ano antes havia nascido a segunda filha de Nelson e Winnie, a quem foi dado o nome de Zindziswa, a segunda filha com Winnie –, mas apesar de todos os esforços do Governo o tribunal não encontrou provas e declarou os réus inocentes. “A consequência maior desta humilhante derrota do governo foi o Estado decidir que tal nunca mais se repetiria. A partir desse dia já não confiariam em juízes que não tivessem sido nomeados por eles”.


Enveredámos por um caminho novo e mais perigoso”

Livre, Mandela não regressou a casa, pois sabia que a próxima detenção não tardava tendo passado a viver na clandestinidade. “Tornei-me uma criatura da noite. Durante o dia não abandonava o esconderijo, do qual só saía para trabalhar ao cair da noite. Operava principalmente a partir de Joanesburgo, mas viajava sempre que necessário (…). Viajei em segredo por todo o país; estive com os muçulmanos do Cabo, com os trabalhadores da cana-de-açúcar do Natal, com os operários fabris de Port Elizabeth.”

Nessa altura para Mandela estava claro que para enfrentar o regime do Apartheid era preciso pegar em armas. Depois de enfrentar muita resistência das lideranças, foi autorizado a formar uma organização militar, independente do ANC.

“Enveredámos por um caminho novo e mais perigoso, um percurso de violência organizada, cujos resultados não sabíamos nem podíamos prever”. Em 1962, Mandela sai clandestinamente da África do Sul, procura angariar apoios na Inglaterra e recebe treino militar no Marrocos e na Etiópia, tornando-se o primeiro comandante do braço armado do ANC, o Umkhonto we Sizwe (Lança da Nação).

De regresso à terra, ainda clandestinamente, acabou por ser detido a 5 de Agosto. Nelson Mandela defendeu-se a si próprio, e durante as suas alegações finais reafirmou a sua dedicação à luta pela liberdade dos sul-africanos.

“Qualquer que seja a pena que V.Ex.ª haja por bem aplicar-me pelos crimes por que fui condenado neste tribunal, que fique bem claro que assim que tiver cumprido a pena, terei de obedecer à minha consciência, como acontece com todos os homens (…). Cumpri o meu dever para com o meu povo e para com a África do Sul. Não tenho dúvidas de que a posteridade me há-de declarar inocente e que os criminosos que deviam comparecer perante este tribunal são os membros do governo”. Foi condenado a cinco anos de prisão.


Dediquei toda a minha vida à luta do povo africano”

Começou por cumprir a pena na prisão de Pretória, mas foi transferido para a ilha. “Só havia uma. Robben Island.” Nove meses depois, a Polícia descobriu a quinta de Rivónia, onde funcionava a base do Umkhonto we Sizwe. Mandela e outros onze membros foram acusados do crime de sabotagem e o Estado pediu o castigo máximo: a pena de morte.

Decorridos seis meses, o Julgamento de Rivónia chegou ao seu epílogo. O acusado número um pediu para fazer uma declaração a partir do banco dos reús. Mandela admitiu o seu envolvimento com o Umkhonto we Sizwe, explicou que não era comunista, apesar da estreita colaboração que o ANC teve com o Partido Comunista sul-africano, descreveu a disparidade das vidas dos negros e dos brancos, e após quatro horas concluiu:

“Dediquei toda a minha vida à luta do povo africano. Lutei contra o domínio dos brancos, tal como lutei contra o domínio dos negros. Sempre defendi o ideal de uma sociedade democrática livre, em que todas as pessoas vivam juntas e disponham das mesmas oportunidades. É por esse ideal que espero viver, para um dia o concretizar. Mas, se tal for necessário, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer”. O juiz De Wet condenou-os a prisão para toda a vida.


"As autoridades gostavam de dizer que nos serviam uma dieta equilibrada”

“Atribuíram-me uma cela na extremidade do corredor, com uma janela pequena à altura dos olhos, que dava para o pátio. Percorria o comprimento da cela em três passadas. Quando me deitava, ficava com os pés encostados a uma parede e a cabeça à outra (…). No exterior de cada cela estava pendurado um cartão branco onde figurava o nosso nome e número. No meu estava escrito «N. Mandela 466/64», o que significava que eu era o 466º preso a entrar na ilha durante o ano de 1964. Estava então com quarenta e seis anos, um preso político com uma pena perpétua para cumprir naquele espaço acanhado que seria a minha casa não sabia por quanto tempo.”

“Em Robben Island, os meses de Junho e de Julho eram os mais sombrios. O ar cheirava a invernia e as chuvas estavam a começar. A temperatura nunca passava dos cinco graus Celsius. Mesmo debaixo de sol tremia de frio dentro da camisa leve de caqui. Foi aí que pela primeira vez percebi o ditado «sentir frio nos ossos» (…). Não havia água corrente e como sanitários usávamos baldes (…). Ao fim de algum tempo, o pequeno-almoço começou a ser servido no pátio, em velhos bidões de petróleo, onde mergulhávamos as nossas tigelas metálicas. Cada um tinha direito a uma caneca de uma coisa a que chamavam café, mas que na realidade era milho moído e torrado até ficar preto e depois misturado com água quente (…). As autoridades gostavam de dizer que nos serviam uma dieta equilibrada; de facto era equilibrada – entre o intragável e o impossível de comer”.

Dos 27 anos que esteve preso, os primeiros 18 foram passados no estabelecimento penal de Robben Island, seguido da prisão de Pollsmoor, ambas na Cidade do Cabo, e acabando em Victor Vester, perto de Paarl.

 

É chegada a hora das negociações”

Com o aumento da pressão internacional, que incluiu sanções, o regime do Apartheid apresentou algumas propostas para a libertação de Mandela, e de todos os outros presos políticos. Contudo, Mandela considerou inegociáveis as condições de comutação da pena que lhe foram sendo propostas, por implicarem a renúncia às suas convicções.

Num discurso lido pela sua filha Zindzi, a 10 de Fevereiro de 1985, a uma multidão entusiasmada que há mais de vinte anos não ouvia as suas palavras, Mandela disse: “Fico surpreendido com as condições que o governo me tenta impor. Não sou um homem violento (…). Foi só então, quando todas as outras formas de resistência nos estavam vedadas, que recorremos à luta armada. Deixemos que Botha nos mostre que é diferente de Malan, Strijdom e Verwoerd (…) Deixemos que se comprometa a desmantelar o Apartheid (…) Deixemos que garanta a liberdade política para que o povo possa decidir quem o deve governar”.

“Não fui o único a sofrer durante estes longos anos de solidão e desolação. Não amo menos a vida do que vós amais. Mas não posso vender os direitos que tenho pelo simples facto de nascer, tal como não estou disposto a vender o direito do meu povo à liberdade”. “Só os homens livres podem entrar em negociações. Os presos não podem assinar contratos (…). Não posso nem quero fazer seja o que for enquanto eu e vocês, o povo, não formos livres. A vossa liberdade e a minha são inseparáveis. Hei-de voltar”.

Mas as negociações com o governo sul-africano avançaram, ainda durante o mandato do Presidente P.W. Botha (que renunciou ao cargo em Agosto de 1989). Depois de encontros secretos começaram as negociações formais com o ANC. O novo Presidente, Frederick De Klerk, começou por libertar Walter Sisulo e outros sete camaradas de Mandela e a 2 de Fevereiro de 1990 declarou perante o Parlamento sul-africano: “É chegada a hora das negociações.”

 

É às vossas mãos que entrego os anos de vida que me restam”

“No dia da minha libertação acordei às 4h30m, ao fim de poucas horas de sono. O dia 11 de Fevereiro amanheceu límpido e sem nuvens (…) Uma das primeiras questões a resolver foi onde dormiria a minha primeira noite em liberdade.” “Pouco depois das quatro horas saímos da vivenda numa pequena caravana. A uns quatrocentos metros do portão, o automóvel abrandou a marcha, parou e eu e Winnie apeámos e começámos a andar em direcção à saída. A princípio não entendi muito bem o que se passava à nossa frente, mas quando estava a menos de cinquenta metros apercebi-me de uma tremenda agitação e de uma enorme multidão: centenas de fotógrafos, de câmaras de televisão e de jornalistas, para além de milhares de pessoas que me tinham vindo das as boas-vindas. Fiquei estupefacto e um tanto inquieto (…).

Quando uma equipa de televisão estendeu na minha direcção um objecto comprido e felpudo, recuei instintivamente, receoso de que fosse uma nova arma criada enquanto estivera na prisão. Winnie explicou-me que se tratava de um microfone”. Ao cair do dia, já na Câmara Municipal da Cidade do Cabo, Nelson encontrou uma mar de gente à sua espera. “Amandla!”, gritou, “Ngawethu!”, responderam em coro.

“Amigos, camaradas e compatriotas sul-africanos. Saúdo-vos em nome da paz, da democracia e da liberdade para todos! Apresento-me perante vós não como um profeta, mas como um humilde servidor vosso, que sois o povo. Os vossos sacrifícios heróicos e infatigáveis tornaram possível que aqui esteja hoje. É às vossas mãos que entrego os anos de vida que me restam”.

 

Cada um de nós, sul-africanos, transporta dentro de si um pequeno Nelson Mandela"

Eleito primeiro Presidente negro da África do Sul em 1994, Mandela empenhou-se na consolidação da recém-conquistada democracia, afastando o sentimento de vingança entre brancos e negros. Em 1995, o seu governo estabeleceu a Comissão de Verdade e Reconciliação, para analisar as violações de direitos humanos cometidas durante o Apartheid.

Eram uma espécie de “tribunais pacificadores”, nos quais vítimas – ou seus familiares directos – poderiam acarear os perpetradores dos crimes contra elas cometidos e assim obter satisfação – catarse – sem cair na pura violência vingativa.

Duas condições presidiam a esta insólita forma de acareação: (i) que o criminoso confessasse toda a verdade sem nada escamotear; (II) que a vítima, ou seu familiar, dissesse, no final, se perdoava ou não o criminoso.

Os jurados – incluindo alguns estrangeiros expressamente seleccionados e convidados para o efeito – detinham o poder, no fim do processo, ouvidas as partes e ponderadas as provas documentais, de amnistiar o réu. Essa amnistia só poderia acontecer em casos justificados e votados como tal, segundo procedimentos registados em acta, contendo as fundamentações de voto por parte de cada membro jurado.

O professor e investigador da Universidade Católica Portuguesa, Roberto Carneiro, foi um desses jurados e narrou ao jornal PÚBLICO, de Portugal, um desses julgamentos:

“Um fazendeiro boer, homem rude e grotescamente inescrupuloso, fazia, do alto do seu 1,90 m de altura, uma descrição sádica do que fizera aos familiares de um jovem adolescente, com idade não superior a 16-17 anos, único sobrevivente do massacre levado a cabo na propriedade do primeiro”.

«É verdade. Matei o teu pai à paulada. Quanto mais ele gemia, mais forte lhe acertava com o maço, na certeza de que o calaria. A tua mãe, que assistiu à morte do teu pai, cortei-a às postas, com que alimentei os porcos na pocilga. Às tuas duas irmãs, violei-as repetidamente e chamei os meus colaboradores directos para assistirem, e banquetearem-se de seguida com os corpos jovens e apetitosos que lhes oferecia, após o que as matei sumariamente, a seu pedido, em nome da preservação das suas honras».

E, continuava, por aí fora, esmerando-se numa prosa ignóbil, perante o nojo dos jurados, que, entre estupefactos e revoltados com tão animalesca descrição, se viam compelidos a escutar, indefesos, o incrível rol de barbáries e de violências em catadupa.

Findo o martírio de uma narrativa digna de uma besta repugnante, o presidente da Comissão de Verdade e Reconciliação vira-se para o jovem negro, silencioso, por cujas faces rolavam grossas pérolas salgadas de um mar revolto que lhe invadia as entranhas, e interpela-o:

«Tens alguma coisa a dizer?»

«Sim», afoita-se o jovem, subitamente recomposto por uma notável serenidade.

Olhando de frente o sabujo criminoso, olhos nos olhos, diz-lhe numa candura de voz que nos deixou, a todos nós, gélidos: «Perdoo-te! (I forgive you!)». Foi a estupefação generalizada na sala de audiências.

Encerrada a sessão pública, dirigi-me ao jovem que se mantinha cabisbaixo, a um canto, confortado por outros jovens amigos que, na circunstância, o procuravam animar após a duríssima prova a que se submetera.

Num impulso irrefletido, interpelei o jovem: «Como foste tu capaz de perdoar àquele animal, àquela besta destituída de princípios de moral, àquela vergonha da espécie humana?»

Respondeu-me ele: «O senhor é estrangeiro, não é?»

E, perante o meu assentimento de cabeça, rematou lesto: «Pois é. Não pode compreender. É que cada um de nós, sul-africanos, transporta dentro de si um pequeno Nelson Mandela».

 

Uma equipa, Uma Nação”

Ainda nesse ano de 1995, Mandela tomou outra decisão, que inicialmente parecia absurda: concordou que a África do Sul acolhesse o “Mundial” de Rugby. Esta modalidade desportiva, praticada pelos brancos fora durante anos símbolo do Apartheid. Mas o recém-eleito Presidente viu uma oportunidade para unir o seu povo.

Junta a dirigentes da Confederação sul-africana de Rugby, Mandela cria o slogan que se transforma no símbolo da África do Sul durante todo o “Mundial”: “Uma equipa, Uma Nação”.

Os jogadores passam a cantar o novo hino nacional, e a ter mais contacto com os negros. Visitam as Townships, áreas destinadas aos negros por leis do regime do Apartheid, E sentem na pele um pouco do que a luta pela distinção étnica proporcionou àqueles povos. Nessa altura os Springboks, nome de guerra da selecção sul-africana, conta com um jogador que tem a sua imagem em todos os meios de divulgação e de transporte ligados à equipa, imagem que simbolizava essa nova consciência do povo sul-africano.

O jogador era Chester Williams, o único negro do combinado sul-africano de Rugby. Durante todo o período de preparação pré-mundial e durante a competição, os Springboks foram o símbolo da África do Sul, todos os sul-africanos os viam como a sua selecção, e os envolvidos na realização de tal articulação sabiam que quanto mais a equipa avançasse na competição, mais perto de realizar o objetivo eles ficavam.

O momento sublime aconteceu no jogo da final. No estádio Ellis Park, lotado por brancos e negros, sem distinção de lugares e entradas, estavam milhões de sul-africanos apenas. Quando Nelson Mandela, entrou em campo com a camisa e boné dos Springboks o estádio inteiro gritou o seu nome. Mandela trajava o antigo símbolo dos opressores, e os africâners saudavam o antigo símbolo da luta contra o seu governo.

No momento de entregar a taça de campeão para ao capitão dos Springboks, François Pienaar, Mandela disse: “Muito obrigado pelo que fez pela África do Sul”. Pienaar respondeu: “Madiba está enganado. Obrigado pelo que fez pela África do Sul.”

 

Apaixonado

Entretanto, Nelson Mandela divorciou-se de Winnie, em 1996. A segunda esposa criava embaraços dentro e fora do ANC, ao colar-se à ala mais extremista. Cinco anos antes havia sido condenada a seis anos de prisão (comutada em multa) pelo rapto de um jovem que acabou por ser assassinado pelos guarda-costas de Winnie, que defendeu a bárbara execução por colar de fogo (pneu a arder no pescoço). Winnie defendia também que Nelson não deveria ter aceite o Prémio Nobel da Paz, em 1993, com De Klerk, a quem chamou “seu carcereiro”.

Homem de paixões, no mesmo ano assumiu publicamente o namoro com Graça Machel que conhecera em circunstâncias em que ambos estavam "muito, muito sozinhos". Ela ainda recuperava da morte do marido e pai de seus dois filhos, Samora Machel, o primeiro Presidente de Moçambique.

Inicialmente amigos, Mandela e Graça começaram a aparecer juntos com cada vez mais frequência e casaram-se em 1998. A união coincidiu com o 80º aniversário de Mandela, que não se cansava de falar com a imprensa sobre "seu maravilhoso sentimento de estar apaixonado". Graça rejeita a idolatria de Mandela, afirmando que o seu marido "não era um santo e que tinha fraquezas".

"Nós, sul-africanos, temos uma grande dívida com Graça Machel", declarou o Prémio Nobel da Paz, Desmond Tutu, amigo pessoal do casal. "Não apenas trouxe alegria a Madiba, mas também tentou com todas as suas forças manter a família unida", acrescentou.

 

Continua a haver muitas montanhas por transpor”

O legado de Mandela parece desvanecer-se na África do Sul. O seu partido, o ANC, está no quinto mandato presidencial consecutivo e vários dos seus membros envolveram-se em corrupção enquanto a grande maioria dos sul-africanos continua tão pobre como há 15 anos atrás, após o fim do Apartheid.

A desigualdade económica entre brancos e negros ainda é gritante, apesar da ascensão de uma elite apelidada de “diamantes negros”, e a violência urbana é alarmante, com taxas de homicídios acima dos 50%.

A frustração é tanta que a população só consegue expressá-la pela violência. A maior e mais dramática expressão ocorreu no ano passado, com o massacre dos mineiros de Marikana, quando 34 operários foram mortos pela Polícia no decurso de uma greve.

Cyril Ramaphosa, dirigente do ANC, que foi líder sindical e passou à administração da mineradora multinacional Lonmim, defendeu a repressão. Os filhos e netos também parecem ignorar o legado de Mandela, dedicando-se mais a explorar comercialmente o seu nome e a disputar a administração dos seus bens do que a propagar os seus ideais. Ou seja, aqueles que lutaram pela liberdade e contra a burguesia opressora tornaram-se parte integrante da burguesia, uma burguesia negra.

“Quando saí da prisão, era essa a minha missão, a de libertar o oprimido e o opressor. Há quem diga que já foi conseguido. Ma sei que não é assim (…). Não demos o último passo do nosso percurso, apenas o primeiro de um caminho mais longo e ainda mais penoso. Porque ser livre não é apenas quebrar as correntes, mas viver uma vida que respeite e estimule a liberdade dos outros (…). Descobri que depois de subir uma montanha percebemos que continua a haver muitas montanhas por transpor”.

 

* Escrito por Adérito Caldeira baseado na autobiografia de Nelson Mandela “Um Longo Caminho para a Liberdade

Comentários   

 
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