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O troço da “guerra”
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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Hélder Xavier  em 14 Novembro 2013
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Nos últimos dias, o troço Rio Save – Muxúnguè, um percurso de aproximadamente 110 quilómetros, transformou-se no coração do medo em Moçambique devido aos ataques supostamente perpetrados por homens armados da Renamo. Porém, sem opção, todos os dias, centenas de pessoas, entre automobilistas e passageiros, fazem-se à estrada. No domingo (10), @Verdade fez o trajecto e constatou que a necessidade de chegar aos seus respectivos destinos é maior do que a discernimento para perceber que a coluna prossegue desprotegida.

Por razões de força maior, Dina Machado, de 22 anos de idade, tinha de se deslocar à cidade de Maputo. Devido ao elevado custo da passagem aérea, a única solução era percorrer de autocarro o troço da Estrada Nacional número 1 (EN1) mais temido nos dias que correm: Muxúnguè – Rio Save. “Não há como não ter medo, pois quase todos os dias há relatos de ataques. Mas não temos opção”, diz a jovem, aguardando na longa fila de viaturas para fazer o trajecto de regresso à casa, porém, desta vez fá-lo num veículo particular.

Dina esteve no autocarro que foi atacado na passada sexta-feira (8), a escassos quilómetros da ponte sobre o rio Save. O autocarro de transporte de passageiros saía da cidade da Beira com destino a capital do país, Maputo. A jovem conta que, primeiramente, no interior do veículo o ambiente era de aparente serenidade. Um viajante tentava acalmar os outros fazendo orações de modo que a viagem corresse sem sobressaltos. Mas as preces parece não ter surtido efeitos desejados. Ouviu-se um ruído abrupto e muito intenso. Era o barulho de tiros. Todos entraram em pânico. Desorientados e desesperados, as pessoas procuravam esconder-se debaixo dos assentos. Começaram os gritos.

“Foi um momento de terror e parecia o fim do mundo”, observa Dina. O cobrador foi alvejado no pé e um passageiro contraiu ferimentos após tentar sair pela janela. Foram as únicas vítimas do autocarro. “Os homens que faziam a escolta só se deram conta da situação muito tempo depois, e nem sequer pararam”, conta. O ataque durou menos de um minuto, foi que nem um piscar de olhos. Tem sido assim esporadicamente.

Apesar de ter passado pela situação, no domingo (10), Dina prepara-se para fazer o trajecto de volta à casa, e faz um comentário tranquilizador para si própria e as demais pessoas que fariam o percurso pela primeira vez: “Geralmente, eles só atacam a ‘coluna’ que sai de Muxúnguè”. Até às 19h00, um aglomerado de pessoas e viaturas sobressaía, aguardando pela escolta, nas proximidades da ponte sobre o rio Save, na vila franca do Save, província de Inhambane. De hora em hora iam chegando camiões, autocarros de passageiros e viaturas de particulares.

Nos últimos dias, a concentração de pessoas e veículos automóveis ficou mais intensa naquele pacato vilarejo, uma realidade que não se verificava há anos. Sublinhe-se que, antes do troço rio Save – Muxúnguè tornar-se perigoso, as cancelas da portagem encerravam por volta das 20h00. Presentemente, elas obedecem o horário das escoltas militares.

Na noite anterior (sábado), enquanto uns pernoitavam no interior do carro, alguns à beira do asfalto, e outros aguardavam o raiar do sol nos dois pequenos estabelecimentos comerciais onde funcionam simultaneamente um bar e uma mercearia. Na verdade, durante a noite a zona é tomada, diga-se de passagem, por tensão velada. O ambiente de instabilidade político-militar que se vive na zona Centro do país trouxe perspectivas económicas para os pequenos comerciantes da vila franca do Save, uma vez que, duas vezes por dia, dezenas de pessoas são forçadas a ficar temporariamente naquele local, onde o relógio parece não assinalar a passagem do tempo.

A desprotegida coluna

Ainda não eram 9h00, os automobilistas e passageiros aguardavam apreensivos a chegada da coluna oriunda do posto administrativo de Muxúnguè, província de Sofala. Enquanto esta não chegava, procurava-se aproximar os veículos à cancela da ponte para fazer a travessia. Todos os dias, de segunda a sexta-feira, existem quatro colunas que obedecem a um horário. A primeira e a terceira saem de Muxúnguè por volta das 6h30 e 12h00 respectivamente, e a segunda e quarta partem da vila franca do Save às 9h00 e às 15h00. Porém, no domingo (10), a “coluna” demorava a chegar de Muxúnguè, situação essa que deixava alarmado aos que se preparavam para percorrer o troço. O pensamento comum era de que algo deve ter acontecido. Não havia sossego que resistia às inúmeras investidas até então reportados.

Quando se deslocava à cidade de Maputo, a coluna na qual Mário Amide, de 53 anos de idade, fazia parte foi atacada. Limpando a sua viatura para fazer a travessia, Amide mostra-se céptico em relação à escolta militar. “O conceito de coluna que tenho é diferente do que se verifica aqui, as viaturas seguem desprotegidas o tempo todo”, observa e acrescenta que, na verdade, “o que acontece por aqui é apenas uma forma de mostrar que se está preocupado com a segurança dos moçambicanos”.

Amide afirma que o troço não é devidamente vigiado. “Os ataques acontecem praticamente em locais muito próximos e nas zonas habitadas. Por exemplo, Zove é a região onde se tem registado frequentemente os casos de investidas, porém, apesar disso, não existe nenhum acampamento das forças do exército e a Força de Intervenção Rápida (FIR)”, diz.

Um quarto para às 11h00 o carro blindado da Polícia da República de Moçambique (PRM), o único veículo que faz a escolta dos transeuntes, atravessava a ponte sobre o rio Save. Alguns segundos depois perto de cinco dezenas de automóveis, entre viaturas ligeiras, autocarros de passageiros e camiões de carga, chegavam à vila franca do Save. A curiosidade em saber se houve um eventual ataque era maior. Não havia sinais de bala em nenhum dos carros, facto que deixa os próximos a fazerem o trajecto com um misto de alívio e preocupação. “Se essa coluna não foi atacada, provavelmente será a nossa’, brinca Mário Amide.

Aproximadamente 20 minutos depois a cancela da ponte é aberta. Os veículos vão seguindo em fila, ocupando as duas faixas de rodagem. O carro blindado da polícia prossegue a frente. Na boleia de viaturas de particulares, uma média de seis agentes da FIR, segurando material bélico pesado, organizam os automóveis. Os camiões de carga são colocados no lado esquerdo da estrada e o resto ocupa o centro e o lado direito da rodovia. A coluna avança lentamente e, à medida que o trânsito vai fluindo, verifica-se a sua dimensão. São aproximadamente cinco quilómetros de viaturas em termos de ocupação da faixa de rodagem.

A instrução é de não abrandar. Não obstante a precariedade da via em alguns troços, a velocidade média exigida dos veículos é de 80 quilómetros por hora. Além disso, apesar de a estrada mostrar-se bastante pequena para tantas viaturas, os automobilistas procuravam fazer ultrapassagem de modo a estar próximo do único carro blindado que garantia a segurança de pouco mais de 100 automóveis. Numa empreitada sem fim, procurava-se a tranquilidade perdida ao lado da Força de Intervenção Rápida.

Com excepção da zona próxima a uma ponte sobre o rio Ripembe onde os veículos são obrigados a abrandar a marcha para fazer a travessia, ao longo do percurso não há sinais da presença dos agentes de FIR nem a força do exército moçambicano. Os automobilistas e os passageiros, na realidade, contam com a própria sorte para fazer o trajecto.

Os vestígios dos ataques revelam o terror que se vive naquele troço, aumentando o sentimento de insegurança. O cenário é este: atrelados de camião, ainda carregados de produtos, abandonados na mata e carros queimados na berma da estrada. Ao fim de aproximadamente duas horas, os automobilistas e os passageiros respiram de alívio. O contingente militar e uma placa com a indicação de que nos encontramos no posto administrativo de Muxúnguè devolviam a calma perdida num troço que, devido ao medo, parecia interminável.

A vida em Muxúnguè

À entrada do posto administrativo de Muxúngè, a impressão é de que se está a chegar a uma região de grande risco, mas, após um percurso de, pelo menos, um quilómetros a realidade é outra. A população voltou a levar uma vida tranquila e pacata. A presença dos militares da FADM e os agentes da FIR não parece intimidar os moradores daquela região. A zona é bastante movimentada ao longo da EN1 devido às transeuntes que aguarda pela escolta militar. As pousadas, as pequenas lojas, as barracas, o mercado, entre outros, encontram-se nessa via pública.

O pequeno povoado, constituído por quatro localidades, está a crescer, ou seja, a vida económica local começa a ganhar um novo fôlego. O desenvolvimento é impulsionado pela electricidade e também pelo facto de ser atravessado pela principal estrada do país. O posto ainda não dispõe de uma única instituição bancária sequer.

A população e os agentes económicos têm de percorrer longas distâncias para fazer qualquer tipo de movimento. Os habitantes, que vivem exclusivamente à base da agricultura de subsistência, continuam a dedicar-se às actividades agrícolas e ao comércio informal sem sobressaltos. Refira-se que a zona é um potencial produtor ananás.

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