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Autárquicas 2013: Chókwè, uma cidade desfigurada pelas águas
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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Rui Lamarques  em 13 Junho 2013
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Transformar uma cidade pobre, com potencial agrícola e à mercê das calamidades naturais num lugar para viver, é uma tarefa hercúlea mesmo para as pessoas mais determinadas. Esse é o problema de Chókwè, uma cidade onde a vontade da natureza impera sobre a actividade humana. No início deste ano a natureza, sempre ela, desfigurou uma cidade que já tinha 3100 quilómetros de estradas asfaltadas e outros 400 de ruas terraplanadas.

É difícil imaginar que, há pouco menos de 35 anos, brotavam arrozais aos pés dos regadios de Chókwè. Os campos alagadiços estendiam-se pelas margens tortuosas de uma estrada impecável. Em 1982, quando Moçambique mal assimilava a crise na agricultura daquele ano negro, o distrito de Chókwè ainda se dedicava a produzir comida para alimentar Maputo e outras cidades do país.

A cidade de Chókwè, sede do distrito do mesmo nome, tem como limites físicos o distrito de Guijá ao norte e o Rio Limpopo a nordeste. Os restantes limites são artificiais, sendo definidos por alinhamentos rectos. A cidade tem um clima do tipo tropical chuvoso de savana. A morfologia quase plana é caracterizada por solos cinzentos arenosos; argilosos granulosos, calcimórficos e hidromórficos. Chókwè foi concebida como pólo de desenvolvimento complementar da cidade de Xai-Xai.

Do nada, e a expressão não é gratuita, o verde-esmeralda das plantações perdeu fulgor e Chókwè deixou de ser o celeiro do país. Quando o sol se põe, as sombras das fábricas de processamento em construção avançam sobre o campo. E então, ao cair da noite, surge um festival de luzes intermitentes. A água, essa, sempre que pode, devasta a planície e semeia a pobreza no seio de 80 porcento da população que vive da agricultura.

Uma barragem em Mapai, dizem, pode ser a solução para acabar com uma situação que o homem não olha como uma prioridade, mas que já ceifou milhares de vidas. Prostitutas deambulam pelo centro da urbe à procura de clientes. Esta é a história de uma cidade onde só pode crescer aquilo que a água quiser.

Os trabalhos de remoção de resíduos sólidos, a terraplanagem das vias de acesso, a reabilitação de escolas e de pontes compõem a nova lista de prioridades que a água impôs. É comum ouvir responsáveis municipais exultantes com o ritmo da reconstrução. Querem que Chókwè seja um lugar acolhedor, mas a verdade ao redor do centro da cidade mostra que ainda há muito trabalho. E para chegar lá o município tem de contar com muito mais do que as suas receitas podem pagar. 900 mil meticais é muito pouco para custear o que é preciso fazer.

A vida no centro da urbe restringe-se ao comércio informal. Antes de o sol nascer jovens robustos estacionam os seus txovas e ficam à espera de clientes. Alguns aproveitam para dormir enquanto os clientes não surgem. Alfredo e Jorge carregam sacos de carvão para um mercado próximo da terminal de autocarros.

Os seus rostos ficam rapidamente cobertos de detritos do carvão oriundo de Chigubo e que faz uma paragem em Chókwè para seguir, depois, para Maputo. A poeira esconde a barba rala e malfeita. Só à noite têm tempo para se limpar. Em breve, o trabalho árduo, dizem, vai acabar. Já juntaram dinheiro suficiente para atravessar a fronteira e tentar ganhar a vida na vizinha África do Sul. Nem a fábrica de processamento de cereais que cresce imponente e já emprega 150 trabalhadores atrai a sua atenção.

“Quando ganho dinheiro com o txova sinto-me orgulhoso e poderoso”, diz Alfredo. “É muito fácil ganhar dinheiro aqui”. A roupa que vestem à noite quando saem para “matar” o frio com duas garrafas de um whisky de má qualidade, mas que ajuda a dormir, é fruto de 100 meticais diários que fazem na praça. Uma fortuna. Assim, Alfredo e Jorge têm emprego garantido. “Não temos a ambição de trabalhar na fábrica. O nosso sonho é chegar à África do Sul”, diz Jorge.

Os munícipes

A actividade comercial no centro da urbe tem atraído os nativos para a zona urbana. Dos mais de 50 mil habitantes, estima-se que dois terços abraçam o desemprego. Uma massa tão grande de pessoas em idade activa leva 80 porcento da população para a agricultura. No quarteirão 4, no sexto bairro, são quatro horas quando João Ernesto, de 45 anos, chefe de um agregado familiar de sete pessoas, sai de casa andrajosamente vestido.

Àquela hora o bairro é apenas seu, não há lugar para vergonhas. Vai ao campo cultivar. Às seis, regressa. É o seu biscate diário, a “safa” que lhe engorda o rendimento mensal inferior a dois mil meticais. João Ernesto é rebento de uma época em que a cabeça dos jovens era inundada pelo sonho de rumar às minas da África do Sul, todavia, a aventura da emigração nunca lhe rimou nos ouvidos.

Lá para longe, só partiu duas vezes. Foi até Joanesburgo, com uma muda de roupa, para trabalhar nas “farms”: “Com essas economias criei sete filhos. Dois Deus já mos levou.” João é funcionário de um estabelecimento comercial no centro de Chókwè. As madrugadas são passadas, porque o salário não “dá para nada”, a tentar retirar o que for possível da terra. O zelo de um hectare permite-lhe arrecadar 1200 meticais, o suficiente para comprar mensalmente um saco de arroz de 25 quilos, sobrando-lhe 700 para outras despesas.

Noutro bairro da cidade de Chókwè, encontra-se Maria Joana. De rosto enrugado, carrega nos braços o seu “bocado”: Quatro tomates, duas batatas e pó de caril para “escapar à miséria”. Perdeu o marido no tempo em que se enganava a fome com talos de repolho.

Hoje, para Maria, mãe de seis filhos, cair na esteira sem a barriga numa moinha é fortuna de dia de festa. Depois de entregar os artigos de cozinha à filha mais velha, parte para o centro da cidade onde trabalha como doméstica. Aufere dois mil meticais por mês. Guardar dinheiro “nunca mais”.

Não sobra nada. A gestão mensal fá-la na ponta da capulana, não chega ao banco. “E vai-se tão depressa! Quando chega já tem destino. O que nos pagam é uma desgraça. Agora só queria amealhar para o meu funeral, para não dar essa despesa aos meus filhos.”

Para sobreviver, Maria aproveita o que considera serem desperdícios em casa dos seus patrões: “Não fossem os bocados que sobram das refeições dos senhores, não sei o que seria dos meus filhos”, queixa-se da vida. Contudo, no imaginário da anciã, a culpa é deste sistema que “marginaliza o povo”.

“Quando o tempo era outro e as coisas estavam organizadas, pelo menos, tínhamos um quilo de arroz para todos. Agora, alguns têm tudo e nós nada”, afirma. Quando perdeu o marido, tinha 36 anos e seis filhos, dois dos quais à entrada da adolescência. Sentiu-se perdida, mas foram-lhe exigidas forças para cuidar dos filhos. Nos anos ‘70 começou a trabalhar numa empresa de descasque de arroz, mas pouco depois da independência a empresa fechou e, à semelhança de muitos moçambicanos, engrossou a fila dos desempregados no país. Sem nenhuma formação académica para disputar um emprego formal, Maria começou a trabalhar como doméstica.

Vida dura

Na família Ernesto, de membro em membro, o relato repete-se. Esta é uma família paupérrima, que vive, basicamente, do “amanhã Deus dará”. Mais do que a especulação de preços nos retalhistas, é aos governantes que a família Ernesto imputa a culpa pelas cheias que devastam Chókwè ciclicamente.

Eram 7h quando partiu para o seu emprego formal, não sem antes deixar os seus instrumentos de trabalho nas mãos da mulher. “E os terrenos?! Já viu como ‘tá’ isso?”, alerta Ernesto animado pela conversa. “Eu não me queixo, que moro aqui há 37 anos e a casa era do meu pai, mas os jovens...”.

Hermínio Carlos, 30 anos, e Luísa Gumende, 28, sabem bem do que fala o ancião. Há seis anos, Luísa engravidou e o pai expulsou-a de casa. Tinha acabado o nível médio, e o noivo estava quase a terminar os estudos. Com a chegada antecipada de Felizardo, o filho, contraíram um empréstimo num banco de microcrédito, amortizando-o em prestações progressivas, confiantes de que a vida melhoraria. Debalde. A barraca que alugaram para comercializar bebidas alcoólicas só chegava para pagar a mensalidade do banco.

Começaram por pagar 1500 meticais. Hoje pagam três mil. Hermínio acumula dois empregos: um de ordenado fixo, que lhe dá segurança, e a serralharia mecânica que dá lucro sem data marcada. “Tínhamos aquela ideia mítica da poupança... Poupamos mas é para chegar para tudo”, atesta Luísa. É ela que põe rédea curta na casa, ao ponto de se sentir culpada quando compra roupa nova. Televisão nem vê-la. Os passeios do tempo de namoro já lá vão. A machamba da mãe de Hermínio na baixa de Chókwè é um supermercado “bestial”.

A culpa do custo de vida para este jovem casal é imputada aos 16 anos de guerra civil: “Se não fosse a guerra, haveria mais terra fértil e as pessoas não teriam saído do campo”, lamenta Luísa secundada por Hermínio: “Pois é, a culpa é dos bandidos armados.”

A barragem de Mapai

Uma barragem em Mapai não só podia acabar com as cheias em Chókwè como também representaria uma mais-valia para o desenvolvimento da agricultura. O valor para a construção de um empreendimento dessa natureza vai muito para além da capacidade de gerar receitas da edilidade. A solução encontrada pelo município é melhorar os diques de defesa, mas também ensinar as populações a viverem com as cheias. Para o efeito, foi firmada uma parceria com uma organização que lida com problemas do género.

Acesso a energia

Em 2009, o número de bairros com energia eram seis. A edilidade acreditava que até 2010, o total de espaços residenciais com acesso à corrente eléctrica atingiria 100 porcento. Sucede, porém, que a expansão da rede de distribuição de corrente não foi tão célere como o esperado. Só no ano a seguir, 2011, é que essa fasquia foi atingida.

Para além dos bairros que já dispunham de energia, mais dois passaram a contar com o fornecimento a cargo da Electricidade de Moçambique. Embora ainda não existam registos do ano em curso, a estimativa da empresa fornecedora de energia é de que o número de consumidores continue a crescer, impulsionado pelos bairros em expansão.

Educação

Com uma população urbana estimada em 40 porcento, o investimento no sector tem estado a crescer, elevando para 14 o número de escolas do ensino primário do primeiro grau. No que diz respeito ao ensino primário do segundo grau, existem duas escolas.

Habitação

O tipo de habitação predominante é a palhota com pavimento de terra batida, paredes de estacas ou caniço com cobertura de zinco, o que representa 47 porcento das casas de Chókwè. As moradias de madeira e zinco, em termos estatísticos, significam 33 porcento. As de bloco e tijolo representam 30 porcento da habitação daquela urbe.

Saúde

O município está dotado de 4 unidades sanitárias. O hospital de Chókwè conta com uma maternidade e 40 camas para internamento. O tempo médio de espera, calculado pelo @Verdade, no terreno, é de 47 minutos. Em conversa com os munícipes, constatámos que o maior problema que enfrentam é a falta de medicamentos.

Contexto histórico

A povoação foi criada a 6 de Dezembro de 1916 com o nome de Caniçado (portaria no 292). A 19 de Março de 1960 passou a designar-se Vila Alferes Chamusca, e a 25 de Abril de 1964 recebeu a denominação de Vila Trigo de Morais, a pioneira do projecto do Limpopo (portaria no 17781).

A 17 de Agosto de 1971 a vila ascendeu à categoria de cidade (portaria no 713/71). Em Março de 1976 passou a designar-se Chókwè, ao abrigo do Decreto no 10/76 de 13 de Março. A resolução no 7/87, de 25 de Abril, classificou a cidade como sendo de nível D. Em 1992 criou-se o Distrito Municipal ao abrigo da Lei no 3/94 de 13 de Setembro, revogada pela Lei no 10/97 que criou o Conselho Municipal.

Município do Chókwè em números

Vereações 6

Habitantes 55562

Bairros com energia 8

População com acesso a água 99 porcento

Transportadores licenciados 36

Escolas primárias de primeiro grau 14

Escolas primárias de segundo grau 2

Instituições de ensino superior 1

Vias de acesso construídas 3100 metros

Vias de acesso terraplanadas 400 quilómetros

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