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Autárquicas 2013: Ribáuè, Num desamparo total
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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Hélder Xavier  em 30 Maio 2013
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Com as características próprias de um local abandonado, a vila municipal de Ribáuè, na província de Nampula, cresce no meio de dificuldades. O acesso deficitário a água e a saúde, o desordenamento territorial, as estradas sem asfalto e o alto nível de desemprego são alguns dos principais problemas que apoquentam milhares de munícipes daquela autarquia. Porém, apesar de enormes privações por que a população passa, aquele ponto do país pode orgulhar-se do protagonismo que tem vindo a ganhar no campo agrícola. Nos últimos dias, os agricultores já começam a abandonar outras culturas para se dedicarem exclusivamente ao cultivo de mandioca para a sua venda à fábrica de cerveja.

Todos os dias, pelas manhãs, quando sai de casa à procura de água, Margarida, de 48 anos de idade, tem de percorrer pelo menos três quilómetros a pé até chegar ao fontenário mais próximo. Quase sempre, em busca do precioso líquido, ela tem de atravessar a linha férrea com um recipiente na cabeça ou nas mãos. Diga-se, em abono da verdade, que o acesso ao bairro onde mora é feito de forma precária, uma vez que não existe uma passagem de nível.

Apesar de a cada ano aumentar o fornecimento de água, a população continua a caminhar longas distâncias para obter o preciso líquido. A título de exemplo, frequentemente, quando a água deixa de jorrar naquele ponto, a dona Margarida é obrigada a caminhar pouco mais de 10 quilómetros, mais para o interior da localidade. Mas nem sempre consegue obter água para o consumo. “É uma situação muito difícil para todos os moradores”, desabafa.

Margarida e o seu agregado familiar, constituído por oito pessoas, vivem no bairro de Triângulo, na localidade de Namigonha, a 12 quilómetros da vila de Ribáuè. É um sofrimento constante, que começa nas primeiras horas do dia e termina ao pôr-do-sol. O problema não é de hoje, já é de conhecimento das autoridades locais, porém, pouco ou quase nada foi feito para mudar a situação.

Embora a vila municipal de Ribáuè seja abastecida por um sistema de água canalizada, o fornecimento de água potável aos habitantes ainda é feito de forma deficiente. Há bem pouco tempo, o distrito contava com 12 furos e três poços, para uma população estimada em mais de 140 mil pessoas. Presentemente o número cresceu, embora não de forma satisfatória, sobretudo a nível do município, onde o fornecimento é feito em condições extremamente difíceis. A nível do distrito de Ribáuè, cerca de 70 porcento da população ainda recorrem ao rio e poços tradicionais.

Na maioria dos bairros da autarquia, o acesso a água potável ainda é um problema sério, e afecta directamente pouco mais de seis mil pessoas. A essa situação, agrega-se o precário sistema de abastecimento.

Saúde

Não só a falta de água deixa a população à beira do desespero, o acesso à saúde é outro grande problema que tira o sono aos munícipes da pobre vila de Ribáuè. A nível do distrito não existem mais de 10 unidades sanitárias. Apesar disso, ainda se assiste a casos de pessoas que têm de percorrer longas distâncias para obter cuidados médicos.

As principais causas de internamento nas unidades sanitárias têm sido a malária e as doenças diarreicas. Em média, por mês, pouco mais de 25 pessoas são internadas. Os casos mais graves são transferidos para o Hospital Central de Nampula. Além de percorrer longas distâncias – pelo menos quatro quilómetros –, os pacientes são obrigados a aguardar por muito tempo nas filas para serem atendidos e receberem cuidados médicos. A nível do sector, neste momento, o desafio continua a ser o melhoramento do atendimento e a disseminação dos serviços de saúde a nível do município.

 

Electricidade e criminalidade

A falta de rede eléctrica era vista como um dos principais obstáculos ao desenvolvimento do distrito. Presentemente, a situação parece prevalecer. Apesar de já contar com energia da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), a vila de Ribáuè continua a receber poucos investimentos e, em contrapartida, assiste à degradação das infra-estruturas. A iluminação pública ainda é deficiente.

Na maioria dos bairros a qualidade de energia ainda não é satisfatória. Mas, apesar de o município dispor de corrente eléctrica da HCB, a maioria da população recorre à lenha e ao carvão para a cozinha, além de usar velas e petróleo para a iluminação doméstica.

A questão da insegurança também preocupa os habitantes, apesar de a criminalidade ser quase inexistente na vila de Ribáuè. Porém, presentemente, os casos mais frequentes têm a ver com furtos de galinhas e violência doméstica motivada por ciúmes.

Transporte

Não existe transporte público em Ribáuè. A circulação de pessoas e bens é garantida por pequenos operadores, que cobrem o percurso de 12 quilómetros entre a vila e a localidade de Namigonha, e vice-versa. O custo da viagem é 20 meticais, o que é oneroso para grande parte da população. Em alternativa, os munícipes optam por motas. Exemplo disso é o professor de inglês Gaspar Paulino.

O docente percorre com a sua motorizada sensivelmente 24 quilómetros diários, de segunda a sexta- -feira, para leccionar em Namigonha. Auferindo um salário de 8.412 meticais, o jovem professor diz que gasta grande parte da sua remuneração em combustível para a mota. Um litro de diesel custa 55 meticais. “Não há transporte, somos obrigados a despender o pouco que ganhamos de modo a deslocarmo-nos ao trabalho”, afirma.

Urbanização: Os problemas persistem

Ribáuè ainda é um dos municípios moçambicanos cujo desenvolvimento económico continua eternamente adiado. A falta de investimentos de grande vulto reflecte-se no estado em que se encontra a pacata autarquia. Os sinais de abandono são deveras preocupantes, e estão estampados em todas as partes. A começar pela estrutura urbana. A vila ainda apresenta características rurais.

O desordenamento territorial é um dos problemas que salta à vista quando se circula pelos bairros periféricos do município. Muhiliale, Murrapania e Molipiha são considerados os mais problemáticos. Num passado não muito longínquo, a vila de Ribáuè apresentava graves problemas de intransitabilidade das suas vias de acesso, principalmente as que ligam a vila aos bairros. O facto devia-se à crescente construção desordenada de casas, dificultando a circulação normal de viaturas.

Actualmente, as estradas encontram-se em estado degradado, não têm asfalto, quase todas são de terra batida, esburacadas e não oferecem as mais elementares condições. Há alguns anos, as autoridades municipais locais necessitavam de cerca de 1.5 milhões de meticais para fazer face à reabilitação das duas vias de extrema importância da vila (que ligam a escola secundária local ao Instituto Agrário), assim como do distrito em geral. Até o momento nada foi feito.

A areia vermelha dá cor aos edifícios, na sua maioria degradados e não só, que formam a parte de cimento da município. A primeira impressão com que se fica de Ribáuè é a de que nada foi feito nos últimos anos para proporcionar bem-estar aos residentes. Quando se dá uma volta pela autarquia, constata-se esse sentimento. Nessas estradas poeirentas, outro problema sobressai aos olhos: o lixo, o que revela, logo à partida, um sistema deficitário de recolha de resíduos sólidos.

Um pouco por todo lado é possível ver a ineficiência do Conselho Municipal de uma pequena cidade com todas as características rurais. Apesar de ter passado a dispor de pequenas infra-estruturas modestas e de alguns edifícios do governo distrital ganharem um novo fôlego, Ribáuè continua com um aspecto abandonado e, consequentemente, os problemas crescem a uma velocidade estonteante.

 

Namigonha: o pulsar da economia

Devido à sua localização geográfica, a localidade de Namigonha é um lugar estratégico para a vila de Ribáuè, sob o ponto de vista económico. Trata- -se de um local de encontro e também um local onde centenas de pessoas procuram ganhar a vida das mais diversas maneiras, sobretudo ao longo da estação, onde o sector informal (a economia local) do posto administrativo de Ribáuè fervilha.

Namigonha é o principal mercado e o lugar onde o comércio ganha vida de forma impetuosa e, consequentemente, galvaniza a economia da vila. O desenvolvimento é impulsionado pela circulação do comboio, que faz a ligação ferroviária entre Nampula e Cuamba (na província de Niassa), e vice-versa.

Todos os dias, de terça a domingo, pelas as manhãs e ao meio-dia (período em que transitam os comboios vindos de Nampula e Cuamba, respectivamente), um grupo composto por mulheres e adolescentes deixa o seu lar para garantir o sustento diário do seu respectivo agregado familiar, vendendo produtos agrícolas como tomate, cebola, alho, couve, repolho, feijão, amendoim, entre outros. Alguns moram arredores de Namigonha e outros são oriundos da vila e têm de percorrer vários quilómetros para exercer a sua actividade de sobrevivência.

É na estação de Namigonha onde a vida económica do posto administrativo de Ribáuè ganha fôlego, local onde se podem encontrar as pequenas lojas, as barracas, o mercado, entre outros. Vende-se um pouco de tudo, mas é o negócio da venda de produtos agrícolas, com destaque para a mandioca, que chama a atenção dos visitantes. “Ribáuè está a desenvolver. Já temos energia de Cahora Bassa desde 2000. Mas ainda há muito por ser feito”, diz Ferreira Amade, proprietário de uma barraca em Namigonha.

A título de exemplo, a nível do distrito de Ribáuè, do município em particular, não existe sequer uma única instituição bancária. A população e os agentes económicos têm de percorrer longas distâncias para depositarem o seu dinheiro. Porém, os mais afectados por essa realidade são na sua maioria os funcionários públicos, principalmente os professores, os profissionais de saúde e os polícias que são obrigados a efectuar uma viagem de comboio de pelo menos quatro horas até a cidade da Nampula para levantarem o salário.

Todos os meses, os funcionários públicos abandonam os seus respectivos postos de trabalho para ir consultar o saldo da sua conta bancária ou levantar os seus ordenados. Na maioria dos casos deixam- se ficar em Nampula em detrimento das suas obrigações laborais, alegando falta de sistema no banco. As situações mais frequente estão relacionadas com os professores que chegam a ausentar-se duas semanas por mês, contribuindo negativamente para o aproveitamento pedagógico dos alunos.

 

A moda é produzir mandioca

Não há emprego em Ribáuè. Dedicar-se ao comércio informal, à agricultura ou emigrar são as únicas alternativas para os jovens. Na sua maioria, optam por tentar a sorte na cidade Nampula.

A agricultura é a actividade predominante, envolvendo quase todos os agregados familiares, mas com o início da fabricação de cerveja feita à base de mandioca, começa-se a assistir a uma nova realidade em Ribáuè. Há cada vez mais camponeses a abandonarem a produção de mapira, feijão nhemba, mapira, mexoeira, entre outros, para se dedicarem exclusivamente à cultura de mandioca.

Estêvão Mocupi, de 55 anos de idade, é agricultor há mais 20 anos. Começou por produzir feijão nhemba, milho, amendoim e mandioca. Porém, com a crescente procura de mandioca por parte da fábrica de cerveja, Mocupi virou as suas atenções para aquela cultura. Dispondo de 25 hectares, ele diz que o negócio é lucrativo e o seu desejo é tornar-se o maior produtor.

 

Ribáuè em números

População: + 150 mil

Superfície: 4894km2

Represas: 23

Estradas classificadas: 30km

Furos mecânicos: 12

Poços: 3

Energia eléctrica: +500 consumidores

Escolas: 92

Unidades Sanitárias: 9

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