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João de Sousa: Uma vida dedicada à radiodifusão
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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Inocêncio Albino  em 02 Maio 2013 (Actualizado em 03 Maio 2013)
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Entre 1964 a 1975, o primeiro radialista moçambicano não branco impôs o profissionalismo contra o racismo glorificado pelo sistema colonial. Na sua casa, na cidade da Matola, possui um estúdio. Por isso, já não necessita de vir à cidade de Maputo onde se encontra a Rádio Moçambique. Escreveu O Fio da Memória, mas não se assume escriba. Aos 66 anos de idade - 50 dos quais dedicados à radiodifusão - João de Sousa anda com sentimentos de culpa, uma frustração profissional. Na semana passada, descobrimos as razões...

António Alves da Fonseca - personalidade por intermédio de quem João de Sousa entrou na radiodifusão - narra com orgulho o facto de lhe ter assediado em busca do seu espaço na Produções Golo, como locutor. As petições de trabalho naquela organização eram comuns, mas os admitidos eram poucos. De Sousa foi um dos poucos cidadãos - se não o único não branco - admitidos naquela altura.

Mais do que nunca, em 1950/60 ouvir Rádio era uma tradição para muitas famílias. Na época, ela constituía - a exemplo do que ainda acontece - o órgão de comunicação social com maior abrangência e, por isso, prioritário.

“E a minha família escutava muito a Rádio. Tínhamos um velho rádio de válvulas que, hoje, já não existe”, explica João de Sousa que acrescenta que nessa altura “nós ouvíamos a Rádio Clube de Moçambique (RCM) e o serviço português da BBC. De vez em quando, porque também apreciava o desporto, escutava os relatos da emissora nacional. Entrou-me, assim, o bichinho da radiodifusão, de tal sorte que me questionei sobre a possibilidade de um dia eu também fazer Rádio”.

Nessa época, João de Sousa fica órfão de pai. E ainda que estudante, as dificuldades sociais por que a sua família passa levam-no a procurar emprego a fim de apoiar a sustentabilidade da família. Tanto é que, em fases sempre experimentais, o potencial radialista na época passa por diversos postos de trabalho. O porto de Maputo e a Clínica de Lourenço Marques - uma propriedade da doutora Ana Machado - são alguns exemplos.

João de Sousa recorda-se, nos seguintes termos: “Em 1964, escrevi uma carta para a Produções Golo. Uma semana depois, recebi outra do senhor António Alves da Fonseca a solicitar que me apresentasse nos escritórios da instituição. Havia a necessidade de se fazer um teste de voz a fim de se apurar as minhas potencialidades”. Na altura, “a Golo não tinha estúdios. Tudo era feito na RCM - para onde nos deslocámos. Deram-me um texto para ler em português, outro em inglês e o terceiro em francês, e eu li. Pediram-me para recitar alguns anúncios publicitários, e eu recitei. Mandaram-me fazer um improviso, e eu fiz. E mandaram-me embora”.

Um mês depois, João de Sousa é chamado a apresentar-se nas Produções Golo. Tinha sido admitido como um escriturário. No entanto, não podia realizar a locução uma vez que tal dependia dos resultados do teste de voz a ser feito na RCM. Enquanto a resposta sobre a prova - que levou dois anos a ser divulgada - não surgia, “porque eu só comecei a falar na Rádio no dia 13 de Maio de 1966, fui-me familiarizando com os trabalhos da Golo”.

De acordo com de Sousa, “como escriturário fiz todo o trabalho do ramo e mantive contacto com os produtores de programas. Paulatinamente, aprendi a fazer Rádio a ver como os outros escreviam, sonorizavam, até que chegou uma fase em que pessoalmente ia à discoteca com os textos para seleccionar os discos necessários para um programa, colocando-os em ordem”. “Os dois anos que passaram permitiram-me - sem ter começado a falar no microfone - perceber o que era fazer Rádio e até que ponto era complicado e difícil”.

Muitas artimanhas - relacionadas com a discriminação racial - foram feitas para protelar a inserção de Sousa como locutor na RCM. É que, naquela altura, “era impensável que uma pessoa que não fosse de raça branca, exceptuando os negros que trabalham na Voz de Moçambique, pudesse falar aos microfones da RCM, porque os programas da Golo eram transmitidos pela Rádio Clube de Moçambique”.

Por essa razão, “foi uma luta muito grande travada por António Alves da Fonseca para que tal acontecesse. Quem ouviu a prova que fiz não teve em conta a minha qualidade profissional. Avaliou-me em função da cor da minha pele”, refere. Na conversa que segue, João de Sousa fala sobre o seu percurso profissional. Acompanhe.

(@Verdade) Como foi a sua primeira experiência na locução?

(João de Sousa) Comecei a participar nas transmissões desportivas a ler anúncios publicitários. O António Alves da Fonseca entendeu que não devia acelerar o processo. Para si, eu devia conhecer tudo - desde a base, para poder integrar-me nas diferentes equipas que faziam a transmissão desportiva. No dia 13 de Maio de 1966, foi-me dada a oportunidade de fazer a primeira transmissão de uma parte do relato. Falei 15 minutos em cada parte da partida. Na semana seguinte evoluí para 20 minutos e gradualmente - como António Alves da Fonseca preconizava - ganhei o conhecimento necessário para falar durante 90 minutos. De 1967 a 1974, todos os dias, às seis e meia, em parceria com o Eugénio Corte Real (infelizmente já falecido), com os sonorizadores José Manuel Gouveia e Virgílio Rodrigues, fiz o programa “Bondiazinho”.

(@V) Que dificuldades enfrentou no início da sua carreira?

(JS) Foram as comuns num processo de início de uma carreira - como acontece em todas as profissões. Havia necessidade de fazer o trabalho com cuidado. A partir daí surgiram os erros do percurso que me propunha a fazer. Felizmente, não cometi muitos atropelos porque tive grandes professores na Rádio do antigamente. O António Alves da Fonseca e a sua esposa sempre me orientaram. Acatei todo o processo de ensino e aprendizagem com a maior humildade - o que hoje já não existe.

(@V) Como era o seu dia-a-dia no trabalho, tendo em conta que o teste para a sua admissão na RCM foi feito em função da cor da sua pele?

(JS) Era muito complicado lidar com esse tipo de problema. De 1966 a 1970, senti que algumas pessoas não gostavam que uma pessoa que não fosse branca estivesse a falar na Rádio. Creio que isso foi-se diluindo à medida que o meu grau profissional se manifestou. Contrapus sempre esta questão do racismo. Como era possível que um caneco, como eu, falasse na Rádio?

Nunca antes tinha acontecido. Errar é humano e, como tal, eu também errava. Ao concentra-se nas minhas falhas, compreendi que eles queriam atingir um João de Sousa que não era o profissional. O António Alves da Fonseca orientou-me para que ignorasse a situação, e respondesse apenas com o meu grau de profissionalismo. Foi assim que agi.

(@V) A sua história mostra-nos que podia ter sido médico - o que não aconteceu. O que originou a sua afeição pela Rádio?

(JS) Nunca tive em vista ser médico, enfermeiro, piloto ou ter outra profissão a não ser um homem da comunicação social, da Rádio. É evidente que se as coisas não tivessem corrido como o previsto, e a minha voz não tivesse sido aprovada, eu teria de fazer outras opções na vida. Sou uma pessoa que fala correctamente as línguas portuguesa, francesa e inglesa.

Esse conhecimento, a par da minha vocação, ajudou bastante para que fosse seleccionado. Hoje, lamentavelmente, acompanho situações de atropelo à gramática que são de pôr os cabelos em pé. Há locutores que lêem notícias na Rádio e não percebem aquilo que tentam transmitir ao ouvinte.

(@V) Em 1964 começa a luta armada de libertação nacional. No contexto da radiodifusão, qual era a situação vivida na Rádio em Lourenço Marques?

(JS) Nós começámos a ter na Golo algumas referências do movimento de libertação nacional. Recordo-me de que em alguns momentos, nalguns programas da instituição - porque todos deviam passar pela censura - fizemos um conto sobre um Jesus Cristo negro. Isso causou uma enorme polémica na altura. Nem todos nós tínhamos a consciência do que era a luta de libertação.

Nunca fui revolucionário e não o serei agora - não confundamos a realidade. A verdade é que a censura só percebeu depois. A transmissão havia sido feita. A Golo sofreu um pouco com o episódio. Ora, eu já vinha de um problema complicado - a cor da pele. Qualquer coisa que dissesse que não agradasse os senhores do poder na altura era um problema para mim. Arriscava-me a atirar a minha carreira por água abaixo. Ganhei consciência de que eu só queria ser um bom profissional.

(@V) Em 1975 nasce a República Popular de Moçambique, com as suas ideologias. Esta época impôs uma rotura com o status quo anterior. Qual foi o papel da Rádio nessa transição?

(JS) Todos vivemos um momento de euforia. Na nossa profissão, mais do que nuca, essa alegria estava patente. Era o sonho de qualquer moçambicano libertar-se das garras do colonialismo - como se dizia e nalgum momento ainda se diz. Então, em 1974/5, todos os profissionais da informação viveram um momento de grande euforia. Nessa época, fui integrado em várias equipas de reportagem da RCM - porque a RM só nasceu a dois de Outubro - para produzir informes sobre esse ocasião memorável da nossa independência.

(@V) O advento do sistema digital na radiodifusão como na televisão - o que pressupõe mudanças - traz uma série de vantagens na comunicação social. Imagino que deve ter originado transtornos na vida de muitos profissionais da sua estirpe. Quer comentar?

(JS) Eu não fui resistente a essa mudança. Integrei-me nela. Estive na África do Sul durante seis anos. Como colaborador da Rádio Moçambique, tinha de fazer correspondências para vários programas noticiosos. Fazia-os sozinho, no local onde eu vivia. Imagine se eu não tivesse o domínio das tecnologias, como é que iria reportar sobre os acontecimentos para Moçambique? Há pessoas que são resistentes. Mas uma coisa é certa: ou avançamos e integramo-nos neste comboio das novas tecnologias, ou ficamos para trás eternamente.

(@V) Além de imortalizar uma época especifica da nossa história, O Fio da Memória coloca-lhe na categoria de escritor. Sente-se escritor?

(JS) Não! Quando o livro foi publicado, acompanhei notícias em que se dizia que João de Sousa escreveu um livro. Convenhamos que quem escreveu o livro foram os meus entrevistados. Afinal, foi a partir de uma conversa - como a que estamos a manter - que recolhi os elementos que compõem a obra. Se se verificar com atenção, constatar-se-á que não há nada naquele livro da minha lavra.

(@V) Na sua opinião, qual é a obra literária nacional que marcou os moçambicanos como um povo?

(JS) Sinto, por aquilo que leio, que o retrato deste país é feito por Mia Couto. Admiro a forma como ele - na sua maneira muito própria de escrever - aborda os problemas. Nos seus textos, acompanho os recados que devem ser enviados.

(@V) Como é que analisa o percurso das selecções nacionais, com enfoque para as de futebol, basquetebol e hóquei?

(JS) O panorama não é dos melhores. Em todas as modalidades - salvo as de menor expressão como, por exemplo, o judo e o karate - estamos com problemas. No futebol, por exemplo, trazemos treinadores que ninguém sabe quem são. Sinto que o futebol está a regredir porque já deixámos de ter referências.

Não sei se nos dias actuais, os treinadores de futebol - alguns dos quais são estrangeiros - têm referências sobre o Nuro Americano, o Chababe, o Calton, o Joaquim João, o José Luís, o Rui Marcos e tantos outros que me encheram de glória e orgulho.

Acredito que há pessoas que jogam futebol hoje e que não sabem quem é o Tico-Tico, uma das referências recentes. Então, quando o país começa a entrar em degradação, o futebol - que não é uma ilha - não escapa. Em alguns momentos, o basquetebol ainda nos dá glórias.

(@V) Pode deixar um conselho para os actuais fazedores de Rádio e da comunicação social no geral?

(JS) É bom que, acima de tudo, haja muita humildade no exercício da profissão. Que ela seja rodeada de muito conhecimento, que deve ser aprofundando no percurso da vida. Não basta que se frequente a escola. É preciso percorrer a universidade da vida com brio, conhecimento e capacidade.

RADIODIFUSÃO EM MOMENTOS DE CRISE SOCIAL

(@V) Como é que analisa a cobertura radiofónica moçambicana nos tempos de crise social?

(JS) Quando aconteceram os problemas das manifestações, por causa da crise dos transportes, em que as pessoas saíram à rua, queimaram pneus - a Rádio Moçambique prontificou-se em reportar a situação, mas, instantaneamente, ela foi obrigada a parar. Quando isso aconteceu, eu estava na África do Sul.

Deve imaginar a preocupação de um cidadão que está fora do seu país e não pode saber o que se passa - porque o órgão público não reporta. A Rádio Moçambique teve a iniciativa de fazer a cobertura. Tentou alargar a emissão para perceber o que se estava a passar, a fim de que as pessoas - pela via da estação pública - tivessem a informação.

Não ficámos a saber de nada porque alguém deu uma ordem para que se interrompesse a transmissão. Tudo parou. Não sei se este exemplo é suficiente para definir o que se está a acontecer neste momento na Rádio Moçambique. Então, fiquei a saber a partir de alguns amigos que os jornais privados estavam a reportar sobre a convulsão social.

A STV estava na rua, a fazer a cobertura e a transmitir em directo. Onde estão/estavam os canais públicos? Muitas vezes, tenho ouvido um colega meu a dizer que nós, na Rádio Moçambique, temos um compromisso com o Governo. De facto, eu acredito nisso, mas o meu maior compromisso - como órgão de comunicação social, no caso da Rádio Moçambique - é com o ouvinte. É ele que paga a taxa de radiodifusão e, por isso, tem o direito à informação.

COMO É A RÁDIO DA ACTUALIDADE

A Rádio Moçambique deu um passo gigantesco em termos tecnológicos. Não se pode comparar ao que havia quando iniciei a carreira. Essa tecnologia permitiu que se cobrisse a totalidade do país, até o local mais recôndito de uma aldeia. Mas, infelizmente - para mim e é isso o que me dói - há uma baixa de qualidade na RM.

Hoje, na prática, não se exige. Há pessoas que entram na Rádio Moçambique, provavelmente, porque procuram um emprego. Não concebo a ideia de trabalhar num meio de comunicação social sem vocação para tal. Sinto que os estúdios da RM - e das outras rádios - foram tomados de assalto por pessoas que não entendem de nada, salvo raras excepções. Actualmente, perderam-se as grandes exigências. Por isso a Rádio de hoje traz o grande problema da ausência de qualidade.

A Rádio enveredou por um caminho seguido pelo país que - até é bom - é levar as pessoas formadas a chegar a um determinado patamar. O problema é que não basta ser universitário, ou carregar um “Dr.” nas costas, para se dizer que se sabe de tudo. Eu sei que na RM há muitos doutores, mas há poucos fazedores de Rádio. Chamar a atenção a alguém, hoje, equivale a candidatar-se a ser conotado como exibicionista e sabichão.

Mas não se pode, de forma alguma, nascer e ir para a universidade. As pessoas devem frequentar a creche, a escola pré- -primária, do nível primário, o ensino secundário e, por fim, fazerem o ensino superior. Mas, hoje, há muitos que entram no exército soldados rasos e, no dia seguinte, querem ser generais.

QUAIS SÃO AS FRUSTRAÇÕES DO RADIALISTA

No dia em que fiz o primeiro relato, estava atrás de uma baliza, de onde devia descrever o jogo. De repente, surge um golo cuja jogada não consegui relatar muito menos gritar “golo”. Fiquei frustrado. O relator principal teve de gritar por mim. Pensei que a minha carreira iria terminar ali. Em casa, os meus irmãos e a minha mãe referiram-se ao pormenor. Da minha mãe veio o conselho: “Não desanimes. Isso acontece aos melhores profissionais. Continua porque nada está perdido”. Felizmente, foi um acidente de percurso.

Em Pretória, onde exerci as funções de correspondente da Rádio Moçambique, a determinada altura dou conta de que tinham desaparecido do meu computador todas as entrevistas que fiz, com figuras públicas deste país, e que serviram de base para a publicação do livro O Fio da Memória.

Um vírus invadiu o computador. Perdi tudo. Fiquei frustrado porque há registo de vozes que nunca mais vou recuperar. Os depoimentos do Leite de Vasconcelos, do Albino Magaia, do Ricardo Rangel, do Artur Garrido, do Augusto Cabral, do Gonzana, do Ian Christie e do Raul Honwana são um exemplo. É o que dá não fazer com regularidade o “backup” do nosso trabalho.

A última frustração prende-se com o facto de a Rádio Moçambique ter alterado o horário da transmissão do programa Fio da Memória que realizo com o Carlos Silva há 24 anos. O mesmo era transmitido aos domingos às nove horas. Passaram-no para as 20 horas.

Alegaram que o programa não tem um conteúdo eminentemente moçambicano, quer na música, quer nos temas abordados. A decisão é uma desculpa de mau pagador. Totalmente absurda! Mas que fazer? Aprendi que “manda quem pode, obedece quem deve”. Não tive outro remédio senão aceitar a decisão. Mas a realidade é frustrante, sobretudo quando a justificação não convence.

MOMENTOS MARCANTES NA CARREIRA

O grande marco da minha vida profissional ocorreu em 1975, quando fui designado - pelo director geral da Rádio Moçambique, Rafael Maguni, já falecido - para cobrir a cerimónia da proclamação da independência de Angola. Trabalhei com Leite Vasconcelos. Esse foi o primeiro passo de muitos outros (grandes) que a RM deu mais adiante.

Também é inesquecível o facto de ter feito, a par de outros colegas, a cobertura da nossa independência. No desporto, em 1980, fui o único elemento da informação moçambicana indigitado para acompanhar a nossa delegação aos jogos Olímpicos do Moscovo.

De qualquer modo, ainda não me sinto realizado. Vivemos na era da globalização em que há grandes plataformas das tecnologias de informação que devemos dominar. E eu, por mim próprio, tenho tentado aprender. Por exemplo, hoje, com as condições que tenho, gravo os programas em casa. Não preciso de ir à Rádio Moçambique para fazer os meus trabalhos. Esse é um avanço tecnológico - mas eu tive de aprender. A tecnologia está constantemente a trazer-nos inovações. Não estou realizado porque todos os dias se aprende algo de novo.

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