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“Entrei na política de uma forma estranha”
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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Redação  em 04 Abril 2013 (Actualizado em 05 Abril 2013)
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Na história do país, muitas mulheres conseguiram “fintar” a pobreza e conquistar um lugar de destaque na sociedade moçambicana. Mas nem todas chegaram ao topo por mérito e sem dever favores a ninguém. Por isso mesmo, é de espantar a trajectória de Maria Angelina Enoque, chefe da bancada parlamentar da Renamo. Basta olhar para as suas conquistas para se aferir a dimensão da sua figura. Liderar a bancada parlamentar do maior partido da oposição, provavelmente o mais instável do panorama político nacional, é, sem dúvida, um grande desafio. Mas para a mulher que já realizou o sonho de ser professora, vergar diante de obstáculos, por maiores que eles sejam, é uma hipótese impensável. @Verdade conversou com a mulher que gostaria de mitigar o sofrimento das crianças órfãs e vulneráveis...

É natural do distrito de Manica, província com o mesmo nome, e veio ao mundo no dia 18 de Abril de 1953. Filha de pai enfermeiro e mãe doméstica, Maria Angelina é a mais velha dos quatro filhos que o casal teve, fora os que a sua progenitora teve no segundo casamento, após a morte do marido.

Cresceu, tal como ela diz, como qualquer criança moçambicana, embora afirme que nasceu num “berço de ouro” porque nada lhes faltava. “O nosso pai fazia questão de providenciar todas as condições que uma criança deve ter”, mas, com a sua morte, quando a nossa entrevistada tinha apenas cinco anos de idade, tudo mudou.

“Passei literalmente do berço de ouro para o de capim. Os anos seguintes foram muito difíceis. Com uma mãe estrangeira (de ascendência zimbabweana), analfabeta e doméstica. Não foram momentos fáceis. Mas crescemos, eu e os meus irmãos, de tal maneira que fiz o ensino primário e não consegui ir ao secundário porque ela (a mãe) não tinha dinheiro”, conta.

O facto de a progenitora não ter condições para matriculá-la no ensino secundário, fez com que ela fosse frequentar o curso de formação de professores em Dondo, Sofala, em 1966, quando tinha 13 anos de idade. Na altura, o ingresso era feito com 14 anos de idade, mas com ela foi diferente porque já tinha concluído a quarta classe.

Estudou até ao terceiro ano (o curso durava quatro anos). Aos 17 anos interrompeu os estudos e regressou à província de Manica porque “naquele tempo o ingresso no Aparelho do Estado era feito com 18 anos de idade. Se eu concluísse o curso teria de ficar um ano sem fazer nada. Fiz uma espécie de estágio e voltei a Dondo para terminar a formação”.

Começou a trabalhar com 18 anos de idade como professora e o seu primeiro salário foi de 250 escudos “e a minha mãe reclamou pelo facto de eu ter estudado tanto para depois receber um valor como aquele. Eu não fazia parte do Aparelho do Estado porque o ingresso era feito por meio de um concurso. Mas não bastava só concorrer. Dependia também da sua avaliação. Na altura, uma colega minha teve 17 valores e eu 16. Ela foi admitida e eu só consegui entrar no ano seguinte, em 1977”.

Quando passou a pertencer ao quadro dos funcionários do Estado, o seu salário passou de 250 escudos para três mil. A primeira coisa que ela fez foi, na qualidade de irmã mais velha, melhorar a situação da sua família. “O meu pai era enfermeiro e como tal era transferido constantemente, o que fez com que ele não construísse uma casa. Dizia que não podia fazê-lo porque um dia estávamos aqui, noutro ali. Acabou por perder a vida e deixou-nos pendurados porque o Estado retirou-nos a casa na qual morávamos”.

Casou-se aos 19 anos de idade na cidade Chimoio, capital da província de Manica, e teve quatro filhos, sendo que o mais velho completará 41 anos de idade em Maio próximo, enquanto o outro perdeu a vida aos 33 anos.

O ingresso na faculdade

Com o advento da independência nacional, em 1975, ela vem para a cidade de Maputo na companhia do esposo, que perdeu a vida há quatro anos. Mas porque o curso de professores que tinha feito equivalia à sétima classe, decide regressar aos bancos da escola para concluir o ensino secundário e posteriormente ingressar no Instituto Superior Pedagógico, actual Universidade Pedagógica, onde se formou em ensino de Língua Portuguesa.

“Hoje sou técnica pedagógica. Ensinar é a coisa que mais gosto de fazer. É fascinante”, confessa, mas no meio desta paixão pelo ensino ela aponta uma lacuna no actual sistema. “O professor primário deve ser mais valorizado. Hoje olho para os meus netos e vejo que a qualidade de ensino decaiu bastante. Vejo pais que preferem matricular os filhos em escolas privadas mas, mesmo assim, têm de contratar um explicador particular”.

Em Maputo, Maria Angelina Enoque leccionou na Escola Primária 3 de Fevereiro, instituição da qual viria a ser directora pedagógica. É funcionária do Instituto Nacional para o Desenvolvimento da Educação (INDE) desde 1994.

A (estranha) entrada na política

A sua estreia na política dá-se em 1994, nas primeiras eleições multipartidárias, mas em circunstâncias, no mínimo, estranhas. “Eu tenho um irmão que permaneceu nas mãos da Renamo durante 16 anos. Nem sabíamos onde ele estava. Com a assinatura do Acordo Geral de Paz, em 1994, ele preferiu permanecer no Exército. Integrou as Forças Armadas de Defesa de Moçambique como elemento da Renamo e até hoje continua lá como general. Mas porque o país se preparava para realizar as primeiras eleições, no mesmo ano, ele inscreveu-me como candidata a deputada pelo círculo eleitoral de Manica sem me consultar”.

“A mim só me disse que teria de usar o meu nome para uma certa coisa. Que se tratava de eleições não sabia. Quem me disse foi o meu filho que na altura se encontrava em Portugal a estudar. Ligou-me e disse que o meu nome constava da lista dos candidatos a deputados. Chegou a fase da campanha mas eu não fui porque não entendia nada de política e nem fazia ideia do que era”, acrescenta.

A estreia como deputada

Maria Angelina conta que no dia do anúncio dos resultados estava em casa e soube que tinha sido eleita deputada através da televisão. “Estava a ver o telejornal e quando ouvi o Professor Doutor Brazão Mazula (antigo presidente da Comissão Nacional de Eleições) fiquei emocionada, mas ao mesmo tempo preocupada porque ia fazer algo que jamais tinha passado pela minha cabeça: ser deputada”. E hoje está a cumprir o seu quarto mandato...

Falta qualidade ao Parlamento

Em relação ao funcionamento e desempenho do Parlamento, a chefe da bancada da Renamo afirma que o mesmo está a cumprir o seu papel, que é de fazer leis, fiscalizar a sua aplicação e o Poder Executivo, mas, apesar disso, falta qualidade.

Conforme diz, como órgão legislativo, a Assembleia da República devia ter mais leis aprovadas da sua iniciativa e dá como exemplo o facto de as leis de iniciativa da “Casa do Povo” serem poucas quando comparadas com as provenientes do Governo.

E explica: “A primeira razão é que os que estão no Governo sentem mais necessidade das leis, por isso propõem. E a segunda é que nós (os deputados) que vamos ao terreno não convertemos os problemas que lá encontramos em leis. Mas não o fazemos por vontade própria, mas sim devido à falta de assessores, condições materiais. Em qualquer Parlamento do mundo, o deputado tem assessores. Por exemplo, eu sou formada em ensino de língua portuguesa mas há casos em que aprovo leis que dizem respeito à economia. Eu apenas lido com a questão política, por isso preciso de alguém a quem eu possa consultar”.

Esta situação leva a que a sua bancada, muitas vezes, não aprove certas leis, optando por se abster ou reprová-las. “Não podemos fazer as coisas por cima do joelho. Há casos em que só temos um ou dois dias para apreciar uma lei na especialidade a nível das comissões”.

 

A inimiga da mulher é ela própria

Sobre o papel da mulher na sociedade, muito a propósito do Dia da Mulher Moçambicana, que se assinala no próximo dia 7 de Abril, a nossa entrevistada considera que a presença desta é imprescindível em todos os sectores da sociedade devido ao facto de ela ser mais sensível do que o homem.

“A mulher tem um poder nato, só que nós não o exercemos, e por vezes o homem atrofia-o. Mas com essa abertura (e coragem para disputar o poder com o homem) acho que ela está a desempenhar o seu papel. E é necessário que ela esteja nos órgãos de tomada de decisão porque é mais sensível que o homem, principalmente nos aspectos sociais. Portanto, tem de haver equilíbrio”, defende.

Porém, apesar desta sensibilidade, Maria Angelina Enoque aponta um aspecto negativo. Para ela, a mulher é inimiga dela própria, e justifica: “Muitas vezes nós (mulheres) não somos capazes de acreditar na força, no poder e na capacidade de uma outra mulher. Torcemos o nariz quando é uma mulher a ser eleita ou indicada, mas batemos palmas quando se trata de um homem e somos capazes de dar o nosso voto a um homem”.

E a razão deste (triste) cenário, na sua opinião, é a história de submissão e de atrofiamento do poder da mulher e “ultrapassar estas questões não é algo que acontece do dia para a noite. É um processo. Por isso, acredito que com o tempo a mulher vai tomar consciência de que a sua presença nos órgãos de tomada de decisão é de extrema importância”.

“...gosto de tomar conta dos meus filhos”

Maria Angelina Enoque considera-se uma mulher como qualquer outra, mas que gosta de ver as coisas no seu devido lugar. Nos seus tempos livres, embora diga que não os tem (está há quase 20 anos sem férias), gosta de arrumar a casa, cozinhar e fazer trabalhos domésticos. E tem um defeito: não consegue dormir ou descansar de dia, e “isso deve-se à educação que tive. Naquela altura não era admitido que uma mulher dormisse de dia”. Gosta também de ler e tem José Craveirinha, Ungulani Ba Ka Khossa e Paulina Chiziane como escritores favoritos. Ler poesia é também o seu hobby.

Como mãe, “gosto de tomar conta dos meus filhos. Se calhar acabei por ser uma mãe dura para eles porque tive que ser mãe e pai ao mesmo tempo. Fiz questão de lhes dar o que não pude ter. Não tive bonecas, por exemplo, pelo menos aquelas convencionais”. Em relação ao prato favorito, ela não dispensa a xima de farinha de milho pilada acompanhada de verdura, peixe seco ou quiabo.

É uma apreciadora da música tradicional mas diz que a mesma tem de ser calma e ter uma boa mensagem. “Não gosto de artistas bajuladores. Nós perdemos intelectuais que cantavam os problemas do povo, tal é o caso de Jeremias Nguenha, Eugénio Mucavele, entre outros. De resto, estes e outros artistas com o mesmo género musical constituem a nata de músicos que gosto de escutar. Apesar de não entender a língua, sou uma admiradora da Zaida Chongo”.

Sonhos

O seu sonho de sempre foi ser professora, que já concretizou. Hoje, alimenta um outro mas que não pode realizar por falta de fundos: ter um colégio interno onde pudesse receber crianças e educá-las de tal maneira que os pais ficassem despreocupados. “Gostaria também de ter um orfanato para colocar os petizes desfavorecidos que, devido à sua condição, não podem sonhar”.

Nome: Maria Angelina Dique Enoque

Data de nascimento: 18 de Abril de 1953

Ocupação: Deputada e chefe da bancada parlamentar da Renamo

Círculo Eleitoral: Manica

Signo: Carneiro

Filhos: 4 (sendo que um deles perdeu a vida)

Escritores favoritos: José Craveirinha, Ungulani Ba Ka Khossa e Paulina Chiziane

Hobbies: Arrumar a casa, cozinhar, fazer trabalhos domésticos e ler

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