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Alberto Mhula: “Eu existo, mas estou a passar fome!”
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Escrito por Redação  em 21 Fevereiro 2013 (Actualizado em 22 Fevereiro 2013)
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Contornar o seu nome, em qualquer discussão sobre a Marrabenta ou acerca do festival, seria um contra-senso. Como aconteceu, na primeira noite de Fevereiro, no concerto decorrido no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo, o músico agiu contra as limitações do próprio corpo – apresentou-se no palco – a fim de reiterar um facto: “Eu, Alberto Mhula, existo”.

O sentido que, de há uns tempos para cá, a Imprensa moçambicana tem criado, a par da cumplicidade de certos músicos, gerou um mal-estar entre os cantores de gerações diferentes: na música ligeira moçambicana, há velhas glórias e a nova geração.

Na verdade esta segmentação, em si, não representa nenhum imbróglio. Mas as repercussões, em termos de visibilidade artística, sobretudo na Imprensa audiovisual que daí resultam carregam consigo algumas fraquezas.

Acerca disso, em certa ocasião – em entrevista publicada no jornal Canal de Moçambique de 28 de Julho de 2010 – Alberto Mhula afirmou: “Estou muito admirado e revoltado quando dizem que não somos de nada. Os novos é que são artistas porque cantam em português. Porque é que não nos dão espaço e oportunidade para cantar as nossas músicas tradicionais, nas nossas línguas?”. (Sic).

Na época não faltaram argumentos ao artista que canta há mais de 60 anos. “Participámos em todo o processo que conduziu à emergência do Governo da Frelimo. Muita gente morreu. Sofremos muito”. No entanto, “A nossa vida está a correr mal”.

Ainda que adore a arte de cantar – o que, na verdade, fez durante a maior parte da sua vida – Mhula está debilitado. Que razões, então, podem fundamentar a sua insistência em realizar concertos de música, no estado doentio em que se encontra? Quando canta, como se viu no último show, a sua voz treme. O microfone torna-se um peso na sua mão.

No dia um de Fevereiro, Mhula deslocou-se do Bairro “Unidade 7”, no subúrbio da capital, para o centro da urbe. A sua saída do palco não foi fácil, como aconteceu com a sua actuação. Foram necessários dois homens (da produção) para apoiarem-no enquanto abandonava o palco: o Manjacaziano não consegue andar, devidamente, desde que sofreu um acidente de viação em 2011.

“Depois de pendurado, existo mas estou a passar fome”

Mais de dois anos depois de em Outubro de 2010 ter sofrido o acidente que lhe limita a circulação, Mhula participou no Festival Marrabenta de 2013, para enfatizar que “eu, Alberto Mhula, existo”. No entanto, conforme assinalara em Abril de 2011, altura que afirmara que estava pendurado, numa matéria publicada pelo jornal @Verdade, no dia 14, nada convence os seus admiradores e fãs de que, nos dias actuais, o artista se encontra em melhores condições.

Talvez, afirmar que “Estou pendurado e não sei se vou viver mais anos” – como o fez há dois anos – seja menos consolador. Por isso, ainda que a sua situação não seja melhor, Mhula reitera: “eu existo, mas estou a passar fome”.

Há mérito na insistência

Quando o assunto é Marrabenta, Mhula – o fundador do Conjunto Manjacaziano – é uma pedra angular. O seu nome não pode ser apartado do referido género musical, muito menos do Festival Marrabenta. Por meio da sua música, entre outros temas com impacto na construção social dos cidadãos, o cantor interpreta a moçambicanidade, entendido também como um conjunto de rituais e práticas tradicionais do povo.

Sabe-se, porém, que no primeiro dia do Festival Marrabenta, Alberto Fabião Mhula insistiu na ideia de actuar, mesmo consciente das suas limitações físicas. A verdade é que, em parte – há quem assim pensa – no contexto da discussão sobre a Marrabenta que se instala de forma contínua na sociedade moçambicana (com alguns cidadãos a defenderem que ela deve ser preservada, já que constitui um património, enquanto outros afirmam que se pode miscigenar com outros géneros musicais) a actuação de Neyma Alfredo, Dilon Djindji, Cheny Wa Gune, Sam Manguane, entre outros, incluindo o próprio Manjacaziano, criou condições para que o público distinguisse, em função da sua percepção e experiência, o que diferencia a Marrabenta de outros géneros musicais.

Não temos arquivo

No âmbito desta matéria, fez-se uma incursão pelas principais instituições culturais deste país – com destaque para o Ministério da Cultura, o Arquivo Histórico, a Associação dos Músicos Moçambicanos – em que se constatou que não há nenhum arquivo fotográfico que retrate o percurso artístico de Alberto Mhula.

É que, ao que tudo indica, o país não possui arquivo de um dos cantores mais representativos da Marrabenta, a música que é para os moçambicanos um património cultural. Alberto Mhula acompanhou e participou no processo da evolução do género. Por isso mesmo, ele pode afirmar que “nós criamos a Madjika e a Dzukuta, de onde emerge a Marrabenta”.

Uma carreira internacional

A par de personalidades como Dilon Djindji, Xidiminguana, Ernesto Chimanganine, António Marco e Alberto Mutcheka, com os quais fez o percurso produtivo da Marrabenta, Alberto Mhula congratula-se com a carreira que possui e não lhe faltam argumentos: “graças à música conheci países da Europa como a França, a Alemanha, Portugal, Suíça, entre outros. Foi um percurso em que aprendi muito. Não sou conhecido como malfeitor. Isso dá-me dignidade. Além do mais, apesar de ter trabalhado como pintor e cozinheiro ao longo dos anos, é com o dinheiro da música que construi a minha casa. Actualmente, vejo muita gente, principalmente os jovens, que passa mal devido aos problemas de habitação”.

As dificuldades que o acompanham, sobretudo as económico-financeiras, limitando as possibilidades de produzir novos trabalhos discográficos, são, para Alberto Mhula um mal presente. Diz ele que nos dias que correm, “os jovens têm padrinhos que lhes financiam para gravar as músicas, e nós não temos”. É em resultado disso que a sua vida se torna difícil já que – com uma saúde frágil – nem pode trabalhar como pintor.

Mhula não tem assistência social. O doente, na sua casa, disse-nos que, devido ao seu fraco poder económico-financeiro, passa fome.

Quem é Alberto Mhula?

Nascido a 01 de Dezembro de 1934, no distrito de Manjacaze, localidade de Chaguala, Alberto Mhula concluiu a 3ª classe na Escola da Imaculada Conceição de Mavengane. A par de outros companheiros da música, participou no processo da criação da União Moçambicana da Cultura Musical e Teatral, em 1950.

Alberto Fabião Mhula é fundador do Conjunto Manjacaziano, banda que toma esse nome em homenagem à sua terra natal, o distrito de Manjacaze. A sua relação com a música, com destaque para a sua afeição em relação à guitarra, começa em 1943, mas só em 1950 altura é que gravou as suas primeiras músicas, nas Produções 1001, na Rádio Moçambique.

Durante a sua carreira, registou vários temas músicas nas editoras Orion e J&B Recording – já desaparecidas – incluindo a Vidisco Moçambique. Em 2010 foi laureado na categoria de Prémio Carreira pelo programa Ngoma Moçambique produzido pela Rádio Moçambique.

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