Samora prosseguiria hoje o seu sonho, talvez com algumas correcções, segundo Carlos Serra

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Escrito por Redacção   
Quinta, 02 Fevereiro 2012 18:54

Para o sociólogo Carlos Serra, ainda que por hipótese, só há uma forma de olhar para Samora e no contexto histórico que foi o seu. Ou seja, “não é possível dizer coisas daltónicas do género Samora foi isto ou Samora foi aquilo. Existiram múltiplas maneiras samoreanas de ser, maneiras que hoje sofrem a reelaboração da memória, grata ou ferida, reverenciosa ou agressiva. Mais do que uma pessoa, Samora foi um processo colectivo; mais do que ele, foi a história conflitual de uma parte do país; mais do que fracasso ou vitória, o samorismo foi e continua a ser uma maneira de problematizar um futuro diferente”, diz.

No que diz respeito à sua governação, Serra defende que “o êmbolo da governação samoreana” desde a luta de libertação foi o de mudar as relações sociais de produção e distribuição no país. “Todos os níveis, todos os empenhos, todos os entusiasmos, todos os problemas, todas as resistências, todos os dramas, todas as tragédias enfim, devem, em meu entender, ser enquadradas e analisadas por esse prisma, o prisma de uma desejada nova forma de viver, o prisma da revolução”.

Carisma de Samora

As condições actuais, no entender de Serra, justificam esse “amor” pela figura de Samora, sobretudo nos lugares onde a pobreza é mais mordaz. “Há uns anos atrás, uma pesquisa por mim conduzida mostrou que, nos bairros periféricos da cidade de Maputo, Samora surgia como uma espécie de messias, de figura forte, de figura nobre, como uma espécie de justiceiro, de redentor que, se fosse vivo, acabaria com o roubo, com os assaltos, com a malandragem, com a intranquilidade, com as injustiças sociais. Em certos momentos da vida, consoante as percepções que dela temos, especialmente se más forem, fazemos intervir simbolicamente nos nossos desejos de reequilíbrio social figuras do tipo samoreano, tornadas mitos redentores, alternativas de vida”, exemplifica.

Governação

(@Verdade) – Enumere aspectos positivos e negativos da governação de Samora.

(Carlos Serra) - Embutida no milenarismo, na intransigência e na desconfiança herdadas da dureza da luta armada, a governação samoreana (e do seu grupo revolucionário) foi o projecto de mudar a vida urbana e rural dos moçambicanos com voluntarismos típicos das eras revolucionárias e em permanente choque com resistências nacionais e internacionais. Esse projecto punha em causa, por um lado, os interesses de certos grupos nacionais para quem a independência era apenas a mera substituição dos colonos mantendo-se o sistema social herdado e, por outro, os interesses capitalistas e racistas de potências regionais como a África do Sul e a então Rodésia do Sul. Esse duplo constrangimento está na origem de medidas estatais autoritárias, de programas de contra-revolução armada do tipo Renamo e de muitos fenómenos de inquietação social e penúria de bens de consumo corrente.

(@Verdade) - Como seria a vida dos moçambicanos se ele estivesse vivo (e no poder, claro)?

(Carlos Serra) - Permita- -me dizer uma coisa sob forma de paradoxo: é mais fácil predizer o passado do que o futuro. Muito provavelmente Samora prosseguiria hoje o seu sonho, talvez com algumas correcções. A terminar: há hoje quem, no seu papel de arúspice especializado, sustente que foi com Samora que surgiram as primeiras medidas liberais. Com mais algum trabalho, jogando no oportunismo, os arúspices dirão um dia que o neoliberalismo actual é obra de Samora, que ele era, afinal, um capitalista nato. Então, para recordar uma série de um blogue meu, “a cada um segundo as suas necessidades, a cada um segundo o seu Samora”.

Comentários (3)
  • livre pensador mocambicano  - Intelectuais do Governo...
    "...Não deixa portanto de ser irónico, o endeusamento de um homem simples e autêntico como Samora Machel nos últimos tempos, e por todos os azimutes mediáticos, com a bitola dos engajados "intelectuais do governo", muito deles na época, encostados num canto pelo defunto líder por causa da sua ambição desmedida e ganância pequeno-burguesa. Samora, o Desportista, Samora, o Pai, Samora, o Engenheiro, Samora, o Jurista, Samora, o Economista, Samora, o Historiador, Samora, o Humilde, Samora, o Sociólogo, Samora, o General, reivindica-se amiúde por aí. Só nos falta ouvir falar de um Samora, o Messias na Terra, capaz de curar os enfermos, dar vista aos cegos, ressuscitar os mortos num determinado dia “D”. O que não se faz para fortalecer a imagem de um partido hegemónico, mas hoje com os valores genuínos que ditaram a sua génese, diluídos e subvertidos pelo som da máquina calculadora... mas que ainda mantém todo um Moçambique atrelado a sí e sob seu compasso. Política à moçambicana, no ano Samora Machel. E da preparação de um Congresso em 2012 também! Distraídos andam também os muitos palestrantes-militantes "new wave" que até fazem fila para falar e serem bem vistos lá do alto. Certamente, por causa da sua juventude e prévia domesticação mental, não lhes é permitido discernir que não havendo mais teocratas do Marxismo hoje a moldar ideologicamente a nossa sociedade como nos anos 70 e 80, alguns pensadores "naive" lhes proponham como antídoto social alguma ideologia Machelista em seu lugar, a pretexto da recuperação de uma consciência patriótica que se foi esvaindo de 1986 para cá e assim fazermos de conta que nos continuamos a bater contra uma diabólica mão externa. Porque, logo no início do nosso socialismo existiram dificuldades de crescimento. Mas depois, sobreveio o crescimento dessas dificuldades que até hoje prevalece com números bem sólidos, mesmo com bolchevismo morto e enterrado há mais de 20 anos na ex-União Soviética..." in http://livrepensadormoz.blogspot.com/2011/09/ano-samora-machel.htmlA nossa insatisfacao enquanto jovens intelectuais ao lermos isto, e saber que a realidade dos intelectuais do governo e esta: http://www.canalmoz.co.mz/hoje/21262-professor-historiador-alemao-recusa-dar-entrevista-com-medo-da-frelimo.htmlCitando Hermes Trimegistus:"O que está em cima é como o que está embaixo. E o que está embaixo é como o que está em cima", ou pelo menos deveria ser no CEA da UEM...
  • Samora machel - II  - será que samora conseguiria?
    carrissimos sou apenas um jovem nascido no ano de 1986 que por insuficiência da nossa historia equi passei a conhecer quem realmente foi/é samora machel muito por força dos DVDs vendidos por ambulante, posso afirmar que agora sinto e todos dias que deambulo pela av. Samora machel e avisto aquela frondoza estátua, o vazio deixado em nós pelo desaparecimento físico de SM. Digo que sou descendente por sangue de Mondlane e seguidor incontornável dos ideiais de Machel, por isso a casa dia me revolto não aceito oque nos é submetido por aqueles que autrora combateram com machel, eram seus seguidores, prometeram bem estar ao povo e hoje são os exploradores do povo criaram uma burguesia no nosso país... acredito que samora dificilmente conseguiria pois agora ta provado que seus seguidores «actuais governantes» mostram isso, mas eu digo samora nunca morreu e jamais morrerá ele vive em cada um de nós então está na hora de nós os samoras de hoje nos unirmos e devolvermos a honra orgulho e trazer o bem estar para o povo vamos samoras vamos acabar com a burguesia e devolver o poder popular a moçambique...
  • Samora machel - II  - Sonho de samora
    Vamos parar de pensar no passado e vamos nós vestir o engajamento samora machel e vamos mudar o país vamos tirar essa burguesia que usa a imagem do nosso Machel para promover a frelimo/frelamo...
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