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Cuamba: Uma cidade que cresce no desamparo
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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Redação  em 23 Novembro 2011 (Actualizado em 25 Novembro 2011)
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Com os sinais de ruralidade estampados por quase todos os lados, a segunda principal urbe da província do Niassa – depois da capital, Lichinga – tem todas as características de um vilarejo abandonado do que de um município. Mas, por alguma razão, Cuamba é considerada uma cidade. Ver água jorrar nas suas torneiras e as ruas asfaltadas é o desejo da maioria dos munícipes que vem sendo adiado há mais de 20 anos.

Quando Ana Maria, de 17 anos de idade, sai de casa à procura de água todas as manhãs, ela percorrer pelo menos dois quilómetros até chegar ao fontenário mais próximo. Muitas vezes, quando a água deixa de jorrar nesse ponto, é obrigada a caminhar aproximadamente mais quatro quilómetros até junto da montanha. Nesse local, há sempre um furo, mas o problema é esperar a vez, pois a procura é maior. Mora no bairro de Maçaniqueira e, todos os dias, tem de atravessar a linha férrea em busca do precioso líquido do outro lado da cidade de Cuamba, província de Niassa. Faz o percurso com uma bicicleta.

O acesso ao bairro onde reside é quase impossível, pois não existe uma passagem de nível. Diga-se, os moradores daquela zona são uma espécie de famílias reféns dos trilhos. “Viver em Cuamba nunca foi fácil, pois há sérios problemas de água”, diz a rapariga ajeitando três galões de 20 litros na bicicleta.

Ana Maria vive com os seus pais e quatro irmãos. A falta de água para o consumo tem sido a principal dor de cabeça da sua família. Tem sido uma vida de sofrimento. Mas este não é um problema exclusivo desta família, é também de centenas de milhares de munícipes de Cuamba. Todos os dias, pelas manhãs, o cenário é sempre o mesmo: homens, mulheres e crianças circulam pelas artérias da urbe com diversos recipientes. Uns a pé e outros de bicicleta ou mota, mas todos são movidos pelo mesmo objectivo: obter água potável. Um sofrimento que começa nas primeiras horas do dia e prolonga-se até ao pôr-do-sol.

O drama por que passam os habitantes de Cuamba não é de hoje. Há anos que persiste. O problema, já com “barba branca”, é do conhecimento das autoridades locais, mas não há ainda uma solução à vista. O edil demissionário, Arnaldo Maloa, tinha a questão de acesso à água canalizada para a população como um das principais prioridades, porém, pouco ou quase nada foi feito. Até agora, a única solução encontrada para a situação pelos moradores mais desfavorecidos é o rio, para onde centenas de famílias recorrem para lavar a roupa e buscar água para o consumo.

Na maioria dos bairros, o acesso à água potável ainda é um problema sério que afecta directamente pouco mais de 43 mil agregados familiares que compõem o distrito de Cuamba. E, como se não bastasse, a esse situação, agrega-se o precário (ou quase inexistente) sistema de abastecimento. Os munícipes, grande parte não se lembra dos bons momentos em que água jorrava nas suas torneiras, vivem na promessa de que a situação há-de mudar. Quando? Ninguém é capaz de responder. Enquanto nada é resolvido, homens, mulheres e crianças desdobram-se à procura do precioso líquido todos os dias.

A nível de distrito de Cuamba, apenas 0.6 porcento dos agregados familiares – num total de 43, 290 – têm água canalizada dentro de casa, aproximadamente nove têm fora, quase 34 porcento recorrem aos poços (a céu aberto) e 31 socorrem- -se dos rios.

40 anos de abandono

Localizada no distrito com o mesmo nome, antes da independência nacional, Cuamba era conhecida por Nova Freixo. Hoje, administrativamente, é um município com uma população estimada em 56.801 habitantes. O distrito conta com mais de 184 mil pessoas, distribuídas em 43.290 agregados familiares, e tem uma superfície de 5.359 km2.

Elevada à categoria de cidade a 30 de Setembro de 1971, Cuamba ainda é uma das urbes moçambicanas cujo desenvolvimento social e económico continua eternamente adiado. Há anos não recebe investimentos de vulto e isso reflecte- se no estado em que se encontra a cidade. Os sinais de abandono são preocupante, e estão estampados em todas as partes. A começar as vias de acesso não têm asfalto – todas são de terra batida, esburacadas e sem condições mínimas.

A areia vermelha dá cor aos edifícios, na sua maioria degradados e não só, que formam a parte de cimento da urbe, desfigurando as suas linhas arquitectónicas de uma vila projectada no século passado para uma população não superior a 1o mil. Aliás, a primeira impressão com que se fica de Cuamba é que nada foi feito nos últimos 36 anos para proporcionar o bem- -estar aos munícipes. Mas, depois, constata-se esse sentimento quando se dá uma volta pelo paupérrimo município.

Nas estradas poeirentas de Cuamba, outro problema salta à vista: o lixo, fruto de um sistema deficitário de recolha de resíduos sólidos. Um pouco por todo lado é possível ver a ineficiência do Conselho Municipal de uma pequena cidade com todas as características rurais ou de um bairro suburbano.

Nos últimos 40 anos, a população cresceu drasticamente e cidade não seguiu o mesmo caminho. Pelo contrário, ela estagnou. Diga- se, a urbe vai minguando sob olhares indiferente das autoridades locais e não se vislumbra planos de renovação do município. Apesar de ter passado a dispor de pequenas infra-estruturas modestas e de alguns edifícios do Governo distrital ganharem um novo fôlego, Cuamba continua parada no tempo, mas os problemas continuam a crescer de forma impetuosa.

A visão dos munícipes

O estado de abandono em que se encontra a cidade de Cuamba não deixa os munícipes indiferentes. Revolta, tristeza, desconforto e um misto de vergonha em relação à degradação que grassa na urbe são alguns sentimentos estampados nos rostos e visíveis nos comentários quando estimulados a fazê-los. Nas ruas e principais pontos de encontro dos habitantes, as eleições intercalares no próximo dia 7 de Dezembro tornaram-se nos assuntos de conversa do dia, embora haja muito cepticismo no que respeita à mudança da situação.

Paulo Farrane, de 46 anos de idade, natural de Cuamba, é um dos munícipes que olha para a sua cidade com um misto de tristeza e revolta, desabafa: “Há 40 anos as ruas eram asfaltadas, hoje é só poeira por todo lado. Ninguém está preocupado em mudar a imagem dessa cidade que envergonha a todos os munícipes”. E acrescenta: “Tenho duvidas que o próximo edil mude o estado das coisas, mas seria importante que o município fosse dirigido por um outro partido, pois só assim poderemos avaliar se se trata de má gestão ou mesmo simples desleixo”.

Ver a cidade de Cuamba sob a gestão de outro partido que não seja a Frelimo é o desejo de alguns munícipes. A título de exemplo, Abibo Bacar, 41 anos de idade, residente há mais 20 anos, diz “esta é uma oportunidade para mudarmos a deplorável situação desta cidade e isso só é possível se apostarmos num outra partido”. Mas não acredita que isso possa vir a acontecer. “Os munícipes querem ver a urbe com uma nova gestão, mas isso parece impossível tendo em conta a máquina que é o partido no poder”, comenta.

Para os mais jovens, Cuamba é um lugar interdito à prosperidade e desenvolvimento social. A maioria não tem motivos de orgulho da urbe onde reside há anos. Na urgência da vida, as pessoas movem-se para a cidade de Nampula.

Alimo Bino, 26 anos de idade, é estudante e mostra-se agastado com o estado em que se encontra a cidade. Nasceu em Lichinga e cresceu entre Nampula e Cuamba, mas é neste município onde passa a maior parte da sua juventude e, como residente, conhece quase todos problemas da urbe, desde a degradação das vias públicas e deficitário sistema de saneamento do meio, passando pelo difícil acesso à água potável até as questões ligadas com diversão e lazer dos mais novos.

“Ser jovem aqui é bastante difícil, pois nada acontece”, diz Bino. Na cidade, diversão e lazer para os mais novos são quase inexistentes. Durante a noite, a única discoteca, denominada Águia de Ouro, é o principal ponto de encontro nos finais de semana.

“Não há oportunidade de emprego e, muito menos, apoio para as pessoas que pretendem enveredar pelo empreendedorismo. Os problemas são cada vez mais frequentes e parece que não há interesse em solucioná-los. Cuamba não parece uma cidade”, afirma e acrescenta: “É uma vergonha o estado em que se encontra”.

A mesma opinião tem Antunes da Fonseca, de 38 anos de idade, que trabalha entre Mecanhelas e a cidade de Cuamba. Ele é mais céptico em relação à cidade. Não acredita na mudança. Olha para o pleito eleitoral que se avizinha como uma perda de tempo. Segundo o munícipe, não há vontade política para “devolver a dignidade” à cidade. “Tenho vergonha de dizer que moro em Cuamba”, afirma.

Crescer à reboque de Nampula

Cuamba está crescer, mas fá-lo no desamparo e refém de um outro município, pelo menos é assim que os munícipes olham. Ou seja, o desenvolvimento económico e social da urbe e também do distrito andam à reboque de Nampula. E o crescimento é impulsionado pela linha férrea, o principal meio usado pela população, que liga as duas cidades. Quase não existe “chapas” a garantirem a circulação de pessoas e bens de um ponto para outro. A via de acesso é deficitária, não tem asfalto, e é considerada um verdadeiro calvário. Na sua maioria, são os camiões de carga que fazem o trajecto e têm sido a solução para quem não pode apanhar o comboio.

Em paralelo ao mercado formal, cresce actividade informal que emprega a maior parte dos residentes. Centenas de pessoas prosperam ao longo dos caminhos- de-ferro. De terça a domingo, quando o comboio chega por volta das 17h00 na estação do Corredor do Norte (CDN) em Cuamba, o local torna-se num centro de oportunidades de negócio, ainda que informalmente, para muitas famílias. Tomate, cebola, feijão, mandioca, entre outros, adquiridos ao longo da viagem são os produtos agrícolas mais vendidos.

Conhecidos por “flechistas”, dezenas de pessoas ganham a vida dedicando- -se à aquisição de produtos alimentares durante a viagem para posterior comercialização na estação. Albano Lourenço, 33 anos de idade, é exemplo disso. Há seis anos move-se de Cuamba para Nampula, vice-versa. Em cada viagem pelo menos investe cinco mil meticais, o retorno tem sido imediato e o lucro chega a ser de 100 porcento.

No interior de um vagão, Lourenço passa a recolher todo tipo de produtos agrícola a preço acessíveis e encontra na principal estação centenas de compradores. “Em apenas uma hora despacho todo”, diz e não nega que o negócio é bastante rentável. “Nunca tive prejuízo, aliás, isso não existe nesse negócio porque compradores não faltam”, afirma. É através dessa actividade que ele garante o sustento do seu agregado familiar constituído por seis pessoas. Ele não tem muitas expectativas em relação às eleições que se avizinham, mas comenta que os munícipes “precisam de um edil que resolva os problemas da cidade”.

Ao contrário de Lourenço, Justino Augusto desloca- -se a Nampula para adquirir bens de primeira necessidade, utensílios de cozinha e capulanas para revender em Cuamba. De 28 anos de idade, três dos quais dedicando- se a essa actividade, Justino é mais um exemplo de quem contribui para o crescimento da economia local, embora de forma informal.

Economicamente, diga-se de passagem, Cuamba é uma espécie de cidade-satélite de Nampula. É para a considerada capital do norte onde milhares de munícipes da então Nova Freixo se deslocam para fazer compras e ganhar a vida, animando a economia local.

Comentários   

 
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