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“Não se pode falar de ‘Cinco séculos de colonização’ portuguesa em África. Isso seria uma burla!”
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Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Redação  em 13 Agosto 2010 (Actualizado em 15 Agosto 2010)
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É um dos mais importantes especialistas estrangeiros sobre a colonização portuguesa. Estudou a conquista militar de Angola, Moçambique, Guiné e Timor. A viver perto de Paris, tem uma biblioteca de 12 mil volumes e gostaria de escrever uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado.

O seu livro “a solo” chama-se “Timor em Guerra”. A Conquista Portuguesa. 

René Pélissier (RP) – Os portugueses têm uma história romanceada da colonização de Timor. Teriam sido, no essencial, a Igreja e os missionários os únicos a contribuir para a implantação da colonização portuguesa.

O que não é verdade!

(RP) – Pois não. Foi uma conquista brutal, efectuada pela maior parte dos governadores e sobretudo pelo célebre José Celestino da Silva, que foi um homem excepcional.

Foi uma excepção em todo o império?

(RP) – Creio que sim. Foi o homem que esteve no poder em Díli mais tempo (14 anos). Tinha a protecção do rei D. Carlos, mas depois da sucessão foi afastado por D. Manuel. Tinha demasiados inimigos. Era um homem que tinha como principal objectivo entrar na História como o primeiro governador de Timor a ser dono de todo o território. Conseguiu-o por meios extraordinariamente brutais.

Sanguinários?

(RP) – Sim. Tinha poucos soldados moçambicanos mas reuniu em 24 campanhas 60 mil timorenses e mandou cortar muitas…

Cabeças?

(RP) – Exacto. Mas não foi mais sanguinário do que outros governadores, mas para conseguir a adesão dos “arraiais” – as tropas supletivas timorenses – tinha de lhes dar qualquer coisa. Como não tinha dinheiro, deu-lhe uma compensação material – o direito a se apoderarem dos cavalos, porcos, vacas, etc. –, mas também mística, digamos…Isto é: cabeças cortadas, que para os guerreiros eram uma espécie de defesa sobrenatural da sua própria aldeia. Eles cortavam as cabeças e encastravam-nas nas tranqueiras, o que constituía uma defesa mágica contra os maus espíritos e contra os inimigos, que, por sua vez, também queriam cortar as cabeças dos habitantes das aldeias.

Onde descobriu essas histórias?

(RP) – Não foi uma verdadeira descoberta. Os raros especialistas de Timor já a conheciam. Encontrei isso nos testemunhos publicados pelos próprios governadores. Em 1896, o primeiro relatório sobre uma campanha em Timor conta como mataram cerca de 700 pessoas em 1895 – cortando-lhes as cabeças. É um livro trágico, que não esconde a verdade, publicado para contrabalançar o prestígio mediático de Mouzinho de Albuquerque, que era o grande herói do Moçambique. A conquista continuou ainda em 1900, contra o maior regulado que era o de Manufai, onde estava a alma ou o coração da resistência à colonização. Foi uma guerra atroz. Oficialmente houve 3424 mortos. Não é verdade: calculo que tenham sido 15 a 25 mil timorenses mortos, seja em combate, seja à sede, seja sobretudo pela cólera. A conquista acabou em 1913, pelo esmagamento de todas as chefias. A colonização de Timor não tem nada a ver com a mitologia do Estado Novo nem com a de agora. É preciso olhar a História com os olhos bem abertos.

Timor foi a última colónia que estudou?

(RP) – Sim. Fui o primeiro investigador francês a estudar a colonização portuguesa moderna, posterior aos Descobrimentos, à Índia, ao Brasil…

Porque escolheu Portugal?

(RP) – Porque gosto das descobertas pessoais. Tenho uma alma de descobridor, de explorador. Cheguei um pouco tarde: tudo já fora descoberto geograficamente. Mas descobri um mundo que estava completamente fechado aos não-lusófonos pela propaganda que exaltava os cinco séculos de colonização portuguesa.

O que está longe de ser verdade.

(RP) – Justamente. Mas era preciso prová-lo. Eu tinha de encontrar uma chave para destruir o mito. E a única chave que estava em meu poder era fazer a história militar da conquista.

Veio a Lisboa?

(RP) – Sim. O Arquivo Histórico-Ultramarino não estava aberto aos que queriam estudar a época mais recente. Mas os militares deram-me acesso aos arquivos. Encontrei coisas que ninguém tinha encontrado antes de mim, como o fim da conquista dos Dembos.

Teve de aprender português?

(RP) – Nunca aprendi propriamente. Comecei por ler e conversar. E, conversando, apanhei um pouco a língua. Os militares da época da conquista do Terceiro Império escreviam e publicavam muito. Foi a minha salvação.

Literatura de memórias e das campanhas?

(RP) – Exactamente. Não apenas Mouzinho de Albuquerque, mas António Enes e muitos outros. A conquista não foi propriamente um caminho que levasse à santidade…Em 1904, até mesmo em 1907, a Angola realmente portuguesa representava no máximo um décimo do território actual. E isso não era confidencial. Estava escrito em “Angola – Dois Anos de Governo”, de Paiva Couceiro. João de Almeida, que foi seu braço direito, contou as suas próprias campanhas. Se ele empreendeu, a partir de 1845, 180 operações militares, isso significa que a colónia não estava pacificada. Esta foi a chave que demonstrou a falsidade do slogan “Cinco séculos de colonização portuguesa em Angola”.

Visitou Angola?

Não sou um historiador militante ou partidário de uma causa – de nenhuma. Nada disso. Não sou um adversário da colonização; sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é diferente. Obtive licença para visitar Angola em 1966. Vi a situação que era favorável a Portugal do ponto de vista económico. É incontestável: Angola nunca foi tão próspera e rica como na véspera da morte da colonização portuguesa.

Creio que é uma verdade indiscutível.

Indiscutível. Na minha opinião, a situação era instável mas provisoriamente favorável aos portugueses, fiz a minha tese de doutoramento em dois volumes sobre Angola. O primeiro é sobre a conquista e foi traduzido para português pela editora Estampa, “História das Campanhas de Angola”. O segundo volume ainda não foi traduzido, chama-se “La Colonie du Minotaure”. E o Minotauro é a colonização portuguesa, que devora as suas vítimas africanas. Como sou um homem que ama a descoberta, com alma de explorador, passei a Moçambique. A conquista de Moçambique são essencialmente 150 campanhas nos séculos XIX e XX – o que significa que não se pode falar de “Cinco séculos de colonização”. Seria uma burla!

A mesma tese de Angola…

É preciso ser verdadeiramente cego, ou não querer olhar a verdade de frente. Terminei Moçambique em 1983e continuei pela Guiné. Mais pequena mas um país relativamente difícil de conquistar, em razão da geografia, do clima e da resistência dos guineenses, gente que não estava disposta a submeter-se sem ser vencida.

O grande herói da colonização de Angola foi Paiva Couceiro?

Não há verdadeiramente um herói. O melhor organizador da conquista durante a monarquia foi Paiva Couceiro e o seu braço direito, João de Almeida.

E em Moçambique?

Não partilho do entusiasmo por Mouzinho. Em Angola, não havia a premência de Moçambique, a braços com as ambições de Cecil Rhodes, dos britânicos e até dos alemães, que olhavam para o que podiam apanhar dos portugueses.

Em Angola não havia esse tipo de problemas.

Havia o problema dos alemães e o seu domínio do Sudoeste africano. Mas a pressão alemã era inferior à de Cecil Rhodes, que queria conquistar a Rodésia e aceder ao mar através da Beira. Quem teve a visão mais clara foi António Enes. Enes era um civil, não tinha poder militar, mas encontrou entre os seus oficiais intermédios gente corajosa e soube ampliar exageradamente a ameaça do Gungunhana. O Gungunhana era um imperialista africano, não há que ter vergonha em dizê-lo. Agora é um herói em Moçambique – cada país encontra os heróis onde pode. Mouzinho conseguiu o feito apreciável de se apoderar da pessoa de Gungunhana, sem resistência, em Manjacaze. Isso deu confiança aos oficiais portugueses, que se batiam com poucos meios e homens e com pouco espírito de organização. Perceberam que, uma vez vencido o Gungunhana, podiam apoderar-se de Moçambique todo.

Seguiu-se o estudo da Guiné…

Exacto. Fiz assim, o conjunto das três colónias continentais que nunca tiveram cinco séculos de colonização, que existiu unicamente em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Goa e territórios adjacentes. Só me faltava a última colónia onde houve grandes combates: Timor, que acabei em 1996. Estabeleci, depois, em termos cronológicos, uma síntese de quatro histórias separadas. Demonstrei que, no princípio do século XX, Portugal esteve em guerra permanente e simultânea em vastos territórios. O que impressiona, uma vez que o país era pobre – o Portugal do fim da monarquia não se podia comparar à Bélgica do rei Leopoldo. Portugal é o país que mais se bateu, e mais tardiamente, para obter o seu Terceiro Império. O que foi trágico é que, à conquista, não se seguiu uma administração estável. Faltou dinheiro, homens e espírito de continuidade. E isso custou muito caro: era preciso reconstruir perpetuamente.

Quem financiou as suas pesquisas?

Em 1966, a Junta de Investigações do Ultramar, dirigida por um homem notável, Carlos Cruz Abecassis. Foi honesto comigo e eu com ele. Escrevi um livro que se chama “Explorar. Voyages en Angola et Autres Lieux Incertains”, em que descrevo a visita à prisão de S. Paulo, em Luanda, com São José Lopes, o director da PIDE em Angola.

Conheceu-o?

Fez-me visitar de noite a prisão, que estava vazia.

Vazia?

Não sou ingénuo. Se há historiador ingénuo, não sou eu. Estava quase vazia. Fui depois ao campo de concentração de Missongo; os portugueses tinham sido astutos e hábeis, tinham misturado os prisioneiros da FNLA com os do MPLA para terem ‘bufos’ dos dois lados…Não se deve desprezar a astúcia dos portugueses. Há autores estrangeiros que o fazem. Eu não. É preciso reconhecer qualidades aos portugueses. Ninguém consegue aguentar três guerras durante 14 anos, em dois milhões de quilómetros quadrados insalubres, sem ter uma resistência fora do comum. É preciso tirar-se-lhes o chapéu – e eu tiro-o. Mas eles estavam militarmente num beco sem saída.

Todos os seus livros estão traduzidos para português?

Não, o que é uma pena. Sou provavelmente o único historiador estrangeiro a ter cinco livros traduzidos em português. E escrevi, juntamente com Douglas Wheeler, “História de Angola”.

Quantos livros leu sobre as colónias portuguesas?

Sobre Moçambique, mais ou menos mil livros e artigos, uns 1100 sobre Angola, pelo menos 400 sobre a Guiné e mais 300 sobre Timor.

Fez recensões sobre todos esses livros?

Não, li-os e utilizei-os para compor os meus próprios livros. Além disso, publico recensões de livros recentes sobre a colonização portuguesa moderna (os cinco PALOP e Timor) e um pouco sobre Goa e Macau. Publiquei mais de três mil recensões desde 1964.

Colaborou na “Análise Social”. Porque acabou?

Não fui eu que interrompi a minha colaboração. Gostaria bem de a manter, tenho recensões sobre livros publicados em 52 países.

Ouvi-o falar sobre Angola. O que contou foi uma autêntica reportagem…

Sim. Vocês fazem o mesmo trabalho que eu, mas com uma faca na garganta: o tempo, e, por vezes, o chefe de redacção. Eu tenho mais tempo e menos constrangimentos.

Quantos livros tem na sua biblioteca?

Uns 12 mil. Incluindo sobre Índia e Macau e territórios espanhóis de África. Unicamente para o período de 1840-2010. Gostaria de fazer uma coisa útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado em livro sobre Angola e Moçambique, etc., a partir de 1840. Mas isso custa uma fortuna. Qual foi o melhor livro que leu sobre as colónias portuguesas? É uma escolha difícil. Talvez o do americano John Marcum, sobre Angola, e alguns do grande Charles Boxer até 1825. De autores portugueses? Há muitos. Enquanto historiador, destaco o livro de António Monteiro Cardoso, “Timor na Segunda Guerra Mundial – O Diário do Tenente Pires”. Gosto também de um precursor que escreveu a primeira História séria de Angola, chamado Ralph Delgado. O que é, para si, um bom livro? Se um livro me traz coisas novas, considero-o bom; se me traz muitas coisas novas, é excelente, qualquer que seja a tendência política do autor. Não tem nenhuma importância que seja de esquerda ou de direita.

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