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Atravessar a baía em permanente risco
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Destaques - Nacional
Escrito por Alexandre Chaúque  em 17 Abril 2014
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No dia 04 de Abril corrente, 15 pessoas caíram na água quando tentavam apanhar um barco de transporte que as levaria aos seus destinos. O incidente deuse por volta das 23h:00 na ponte-cais da Maxixe, altura em que muitos estudantes com residência na cidade de Inhambane e que frequentam a Universidade Pedagógica gerida pela “Sagrada Família”, no curso pós-laboral, regressavam à casa. Porém, tudo isso não foi para além de um enorme susto porque todos foram salvos. Mas este caso lembra-nos – uma vez mais – o risco permanente existente na travessia Inhambane-Maxixe e vice-versa, com alguma irresponsabilidade por parte dos marinheiros.

Em 1986, o que se passou foi uma tragédia que aconteceu mais ou menos nas mesmas circunstâncias. Dezenas de pessoas morreram na ponte-cais de Inhambane quando o barco “Moçambique”, com passageiros que ultrapassavam a sua capacidade de encaixe afundou, e tantos outros indivíduos pretendiam ir a bordo mesmo assim. Era um tempo de muitas crises, incluindo a de transporte e a Administração Marítima de Inhambane nunca conseguiu colocar ordem no sector porque a demanda era uma autêntica tempestade mas os meios eram escassos.

E, hoje, o acidente sem vítimas recordou-nos esse dia fatídico. O barco escalado para fazer a última viagem Maxixe-Inhambane tem capacidade para transportar 96 passageiros e pertence àquela instituição do Governo. É um monstro que, não poucas vezes, chega a levar mais do que isso. Como no caso recente, em que a morte esteve muito perto.

No dia em que as referidas pessoas caíram na baía, chovia intermitentemente e, contrariamente às normas estabelecidas, os bilhetes foram vendidos a bordo, retirando qualquer possibilidade de controlo da lotação por parte de quem devia fazê-lo. Entre a chuva e a necessidade inadiável de regressar à casa, os utentes da embarcação foram entrando aos empurrões para evitar que alguém ficasse em terra. Todos queriam viajar. E todos pretendiam entrar no barco ao mesmo tempo pela portinhola.

Os membros da tripulação não tiveram a capacidade de prever que tudo aquilo podia terminar em desgraça. Despertaram tarde quando, dentro da embarcação, já não era possível exercer qualquer controlo. Os apelos feitos para a ordem chegavam inúteis por demais. A tentativa de impedir que mais pessoas entrassem também foi debalde. E é a partir daí que se instala o dilema que terminou com a decisão do arrais de tirar as amarras do barco, uma atitude deveras irresponsável.

Enquanto o barco se afastava da ponte, houve aqueles indivíduos que ensaiaram movimentos acrobáticos. Saltaram e, no lugar de caírem nas bordas, mergulharam na água, em número de 15. Foram momentos de verdadeiro pânico em que, entretanto, por milagre, ninguém se feriu nem morreu. Quase todos eles foram recuperados instantaneamente, com execpção de um, que foi arrastado pela corrente para uma distância considerável, mas valeram os dotes de natação de um jovem que se fez à água para salvar o cidadão que estava prestes a afogar-se.

Inquérito

Depois do susto, o barco prosseguiu a viagem, levando a bordo passageiros a mais e a tripulação a ignorar tudo aquilo que pode acontecer num percurso imprevisível, sabido que os ventos podem chegar sem avisar. E o desrespeito pelos limites de lotação acontece sempre.

Vimos, mesmo assim, na televisão, um responsável da Administração Marítima a afirmar que foi instaurado um inquérito para se apurarem as responsabilidades. É um inquérito que, quanto à opinião pública, não se deve cingir apenas a este incidente porque na baía de Inhambane há muitos desmandos. Arlindo Mateus, mais conhecido por Vukani, representante da Associação dos Transportadores Marítimos de Inhambane, reconhece esse facto.

“É verdade que temos tido colegas que não respeitam as normas estabelecidas nesta actividade, particularmente no que diz respeito à observação dos limites de lotação”. A Reportagem do @Verdade já testemunhou casos de desrespeito aos limites de lotação não só nos barcos privados, como nas próprias embarcações da Administração Marítima. Todas elas são obrigadas, entre outras cláusulas, a observarem os horários estabelecidos, o que nem sempre acontece.

Trinta e três privados

Na travessia Inhambane-Maxixe e vice-versa existem 33 embarcações pertencentes a privados. São barcaças na sua maioria inicialmente projectadas para ser movidas a vela, mas este aspecto foi ultrapassado pela história. As coisas evoluiram. Os proprietários dessas embarcações removeram os panos que precisavam dos ventos para enfuná-las e dos remos. Na falta destas condições, no seu lugar, colocaram motores fora de bordo, tornando a viagem mais rápida.

Destes 33 barcos, há aqueles que têm capacidade para 78 passageiros, ou seja, que se aproximam aos monstros da Administração Marítima. E nós, estupefactos, perguntámos a Vukani se não havia riscos em ter uma embarcação tão grande com motor fora de bordo. “Não há problema nenhum. Os calafates locais que fizeram aqueles barcos são competentes. E ainda há outro que está a ser construido em Chicuque, que levará pouco mais de 80 pessoas”. É uma obra.

São barcos que não oferecem conforto. Há passageiros que chegam a ser transportados sobre os pneus colocados nas laterais dos barcos para auxiliarem na navegação, sentados quase como guarda-redes de hóquei em patins. Quando chove, muitas das pessoas que estão a bordo vão molhar, de certeza. Quando há ondas fortes, idem em aspas. Mas as pessoas têm de viajar, contra todas estas adversidades.

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