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Entre dejectos de bois e fezes humanas
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Destaques - Nacional
Escrito por Alexandre Chaúque  em 06 Março 2014
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O bairro de Chalambe, na cidade de Inhambane, é paradigmático pela sua importância histórica de subúrbio número um. Numa zona geográfica onde a tranquilidade impera em todo o lado, aqui as faúlhas nunca faltaram, mesmo que isso seja em proporções quase imperceptíveis, que não chegam a estremecer os fundamentos do sossego. Mas Chalambe é Chalambe. É diferente, em termos de dinâmica social, dos outros conglomerados. Ou seja, neste local, as pequenas rixas estão sempre latentes. Os larápios de minúsculos recursos também encontram facilmente terreno poroso para penetrarem.

E é ali onde se concentra a maioria da comunidade muçulumana da “Terra da Boa Gente”. Mas Chalambe é ainda famigerado pela defecação a céu aberto - uma prática que se arrasta até aos dias de hoje – sem que ninguém se envergonhe por esse atentado pluridimensional. E será nesta repugnância, com certeza, onde vai residir o centro do meu texto. Desloquei-me, no último sábado, para constatar aquilo que já sabia, e para isso preferi começar pela zona do “Matadouro”, onde várias famílias ergueram as suas precárias casas, tendo como limite as águas do mar.

O movimento das pessoas é feito por entre becos, que não podem comportar normalmente duas pessoas em paralelo. E o primeiro sinal que vamos receber é de um ar pesado, e mal cheiroso e, apesar de se estar à beira-mar, quem se encontra no interior do pequeno aglomerado não recebe a brisa marítima, porque as casas constituem uma espécie de feixe. Não respiram.

Cruzei-me – enquanto vagueava à toa por ali – com um grupo de raparigas que regressava da escola. Está uniformizado. Conversa animadamente, e uma delas sorve um “gelinho” sem se importar com o ambiente inóspito que as cerca. Parecem alegres, provavelmente conformadas com a situação que as acolhe desde que nasceram. Perguntei-lhes onde é que satisfaziam as suas necessidades biológicas, e a resposta veio de pronto: na praia.

Elas respondiam-me e riam-se. Da sua própria desgraça. Sem saberem que elas merecem uma vida com a maior dignidade. Não que a pobreza envergonhe, porém, pode-se viver com decência na privação, tendo pelo menos uma latrinta melhorada, no lugar de defecar à sombra dos mangais como o faziam os primitivos. Ou ainda, pior do que isso, exibindo as partes íntimas do corpo, completamente ao relento, num acto no mínimo repugnante. E isso está acontecer, ou seja, continua a ter lugar “paredes meias” com a cidade do cimento.

Continuei a andar por ali, deixando-me levar pelos becos, até dar à praia propriamente dita. Lancei o olhar para as casas de caniço que acolhem compatriotas nossos aparentemente resignados com o seu infortúnio. Ali moram homens e mulheres e crianças e velhos, que tremem em tempos de marés enquinociais (maguluti em bitonga), e nesta semana as águas enfureceram-se. Desprezaram os seus limites e galgaram os quintais construídos para dar o mínimo de privacidade. E o que se vê é a própria desgraça. As águas entram nas casas, e os precários diques construídos pelas próprias mãos dos moradores não conseguem sustê-las.

O que dói é perceber que depois de passarem as marés enquinociais, as pessoas regressam para o mesmo lugar, para as mesmas casas, esperando que, no seu ciclo irreversível, voltem a ser fustigados outra vez pelas águas. Isso é que dói, ver pessoas vivendo um dilema desnecessário e cíclico, em condições inaceitáveis numa terra onde o que existe demais é a terra. As autoridades municipais têm conhecimento desta situação deplorável. O edil reconhece a necessidade urgente de mudar as coisas. Mas não basta reconhecer, e não basta dizerem-nos que existe um plano. O importante para nós é vermos esse plano ser executado, e acabar de uma vez por todas com este problema da urbe.

Matadouro insano

A defecação a céu aberto vai para além do perímetro das residências. Alarga-se até junto ao matadouro propriamente dito. Desci pessoalmente para ver em concreto o que está a acontecer. Por detrás das instalações onde onde são abatidos os animais, cresce livremente um mangal que alberga facilmente os necessitados. O testemunho de que o lugar é usado para a satisfação das necessidades biológicas são as próprias fezes humanas, cujo cheiro se mistura com os excrementos dos animais e o quimo que é retirado dos estômagos dos bovinos. Quer dizer, enquanto lá dentro se matam os bichos e se esfolam, cá fora há a gente a defecar na maior das naturalidades. É uma situação imunda, que o município não pode continuar a tolerar. Porque é indigno.

O matadouro, na sua concepção, tinha um sistema de drenagem que dava vazão ao quimo (produto retirado do estômago dos animais depois de ter sido ruminado pelo herbívoro) e o quilo (produto retirado do intestino delgado), directamente para o mar, onde era aproveitado como alimento pelos peixes. Não havia qualquer problema ambiental. Mas hoje tudo isso foi subvertido. A drenagem está entupida. O quimo e o quilo são acumulados num sítio impróprio e quem o recolhe são pessoas que depois o vão usar como estrume.

Entretanto, isso não resolve o problema do cheiro que se exala por ali. Há sempre resquícios que incomodam o sistema nasal. O forno de incineração não funciona. E ninguém se lembra quando é que foi ligado pela última vez. E, como resultado dessa falha, os chifres dos animais são atirados para um lugar que se transformam numa absoluta lixeira nojenta. As peles desnecessárias são lançadas igualmente para o mesmo sítio. É uma imundície, o que se pode constatar no matadouro de Inhambane.

No seu interior, as condições de higiene não são das melhores. Usa-se lenha para ferver a água que será usada na raspagem das cabeças, e o fumo vai destriuindo, paulatinamente, a cobertura. Perguntei ao chefe do matadouro, que se encontrava no seu local de trabalho, sobre o futuro daquelas instalações. E a resposta que ele nos deu foi: “Existe já um plano para o melhoramento das condições de trabalho”. E nós replicámos: “Se existe esse plano, é mais do que muito urgente a sua implementação”. O que se passa naquele matadouro é literalmente condenável, com os trabalhadores a exercerem a sua actividade sem equipamento adequado.

“Óleo Vida” foi à vida

Na minha caminhada em direcção ao matadouro, vou ter de passar, obrigatoriamente, pela Fábrica “Óleo Vida”, agora encerrada, para desgraça dos antigos trabalhadores, que agora terão dificuldades em levar – todos os meses – pão para casa. O motivo do encerramento prende- -se com incumprimentos laborais por parte do patronato que, no lugar de resolver os litígios, optou por fechar as portas.

Os trabalhadores reclamavam melhores condições de trabalho e aumentos salariais, para além de outros direitos a que se achavam merecedores de usufruir, mas o patrão (um sul-africano), ignorou- -os e optou por despedi-los. Contrariados, sublevaram-se e manifestaram-se diante das instalações exigindo o que é de Lei.

Segundo eles, “se o patrão nos quer despedir por termos exigido os nossos direitos, no mínimo terá que nos indemnizar. Entretanto, o sul-africano não parecia predisposto a ceder. Recusou-se a prestar declarações à Imprensa, tendo sido necessária a intervenção da Direcção Provincial do Trabalho.

Segundo informações em nosso poder, estão já a ser feitos os devidos procedimentos para ressarcir os trabalhadores. Porém, os sinais que se vislumbram após o pagamento não são animadores. “O patrão encerrou as portas, está a retirar os equipamentos e diz-se que se foi juntar a uma outra fábrica de óleo na Maxixe”. É um desfecho triste para dezenas de famílias.

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