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Um cantinho de amor
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Destaques - Nacional
Escrito por Redação  em 11 Novembro 2010
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São mulheres que não abrem mão de ser quem são. E de amar às claras. Sem máscaras. Dão tudo pelos órfãos da Missão de São Roque, com ou sem o apoio do Estado. São as irmãs da Santa Imaculada. O dia ainda não se decidiu a nascer, o vento desliza pelas ruas, aquieta-se nas bermas das paredes da Missão São de Roque, assobia nos charcos de água suja. São seis e picos da manhã quando uma porta, desengonçada pelo uso e pelo tempo, se abre. Do outro lado estão as irmãs da Santa Imaculada. Estas cinco mulheres desconhecem aconchegos, o sol abrasador é a mais doce de suas penas.

Tem feijão, carne de vaca e arroz entre os braços. Agora é hora de preparar a refeição para 47 crianças e pouco mais de 80 visitantes, provenientes da cidade de Maputo. O trabalho destas quatro mulheres garante o sustento de 47 órfãos, entre os 5 e os 12 anos. “A maior frustração é a falta de apoio do Governo. ”

Irmã Vitória, hoje na pele de porta-voz, é mulher de fibra, não alinha nos queixumes corriqueiros e nem exige muito das autoridades, mas pedir-lhe para falar do seu trabalho abala-lhe a estrutura. Os olhos molham-se um pouco. “Não está nada fácil”, repete.

Aquela congregação religiosa conta com 127 anos em Moçambique, mas só funciona como orfanato há 13. As Irmãs da Santa Imaculada tomaram as rédeas da instituição em 2005. Quando chegaram a comunidade já tinha erguido residências na área da Missão.

Ou seja, se há duas décadas a área total era de 9 quilómetros, hoje o espaço reduziu-se a metade: 4,5. Essa invasão e permanente redução do espaço, no entender da irmã, impede a produção de produtos agrícolas. Uma solução que poderia tornar a Missão auto-sustentável.

Refira-se que o sonho de verem o espaço demarcado vem de longe: o padre que as irmãs vieram substituir, em 2005, deu início ao processo, mas, até hoje, o mesmo não se efectivou. Foram anos a tratar papéis e depois nada.

As crianças trazem alegria

Nos dias vazios, é a alegria no rosto das crianças como que a dizer-lhes animemse que dá forças. “Olhe, sabe o que fazemos? Lutamos sem parar, para tentar dar o melhor de nós a estas crianças.” Apesar das más condições das infraestruturas, da pobreza, dos morcegos que encontraram uma casa no tecto dos dormitórios, Catarina, 5 anos, é um exemplo dessa alegria contagiante.

Transporta no olhar a alegria própria das crianças. Não sabe onde se encontram os pais, partiram para junto de Deus é o que lhe dizem. Desde então, nunca mais voltaram, mas Catarina acredita que eles “hão-de vir”. A orfandade cola-se-lhe à pele, mas nunca ao sorriso. A sua fortuna cabe inteirinha numa mão fechada, onde esconde o rebuçado que lhe deram com uma senhora que chegou da cidade.

A alegria que veio de fora

São daquelas gestos que julgávamos já não existirem. Brisas no meio do calor intenso, quando o termómetro atinge os 38 º. São a prova de que há gente que não consegue ser indiferente. À miséria dos outros, à dor alheia. Mesmo com sacrifício do próprio bem-estar. Mesmo que isso implique perder um dia de descanso.

A história de generosidade de cerca de 50 pessoas começou com a iniciativa do Millenium Bim “Mais Moçambique para mim”, a qual visa possibilitar aos fornecedores e colaboradores do Banco, assim como à comunidade local, participar em acções de interesse social e comunitário, contribuindo, com o seu tempo e mão-de-obra, para a melhoria da qualidade de vida e bem-estar de crianças que vivem em situação precárias.

Aquela instituição travou conhecimento da realidade das crianças na Missão de São Roque, um lugar onde se vive sem as mínimas condições, a quem não conseguiu virar costas. Uma visita de Maria João Barbosa foi suficiente. A responsável do programa de responsabilidade social do banco não resistiu ao apelo.

No sábado, 6 de Novembro, os funcionários juntaram-se e foram pintar as instalações da Missão. As paredes não tinham cor, o parque de diversão era o chão, mas, depois, tudo ganhou cor – paredes, baloiços, centro cultural – e ficou impecavelmente arrumado e organizado.

“Elas (as crianças), apesar de estarem num situação critica e isolados do mundo, receberam- nos com um sorriso do tamanho do mundo, e percebia-se que viviam para aqueles momentos...” diz Maria João Barbosa.

Na próxima uma empresa irá se debruçar sobre o problema dos morcegos no dormitório. “Estas crianças são uma responsabilidade para a sociedade em geral. Começámos por pintar as paredes e reconstruir o parque de diversões. Mas isso, não é tudo”.

A refeição

A panela de feijão polvilha a paz no orfanato. No seu encalço, vêm e vão crianças. Vêm ver se a refeição já está pronta. Dentro em breve o refeitório estará repleto de pessoas. Mas hoje, as irmãs têm mais bocas para alimentar. Às 47 crianças do orfanato vieram mais 40 da comunidade.

Por volta das 16 horas, já o sol se esgueira em Matutuine, e lá vem Catarina, a mão sempre fechada, a caminho da cozinha. “Julinha, Maria”, grita o nome das amigas. Segue feliz da vida, apesar da pobreza. Sonhar é um verbo que conjuga todos os dias. Mas nada pede, nada exige da vida, demora a urdir um querer: “Ah, já sei! Ver os meus pais voltarem”, enquanto debaixo dos dedos, carrega a sua maior fortuna: um rebuçado.

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