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Contra uma Filosofia sem filósofos
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CAMPUS - Espaço aberto
Escrito por Redação  em 28 Outubro 2010 (Actualizado em 01 Novembro 2010)
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Após a leitura da obra Os Tempos da Filosofia (2004) de Severino Ngoenha apercebi-me de que a tradição filosófica ocidental permitiu que cada época fosse marcada distintamente pelo seu modo de interpretar a realidade e conceber o mundo. Ao contrário, em África, foram as formas de lutar para conceber uma melhor sociedade que determinaram a caracterização das mesmas. Por isso, é mais fácil para uma criança entender o significado do poder da violência, ao invés de perceber a importância e o valor do silêncio.

Pois, o acontecimento e não o motivo é que está por detrás da sua percepção da realidade. O acontecimento está para o moçambicano como o pensamento está para os ocidentais. Pelo simples facto de a realidade para nós ser determinada pelo pensamento e ideias de outros, partindo de uma maquete preconcebida para posterioremente determinarmos o modo de vida da nossa sociedade. Por outro lado, quando houve uma aproximação ao modo ocidental, o despertar do pensamento bloqueou a veia de acção.

A tradição literária moçambicana pelo seu centralismo no passado, no tradicional e não na utopia reduziu a importância do pensamento e dos pensadores por se considerar que talvez fosse melhor usar parábolas e outras formas de ocultar verdades para explicar à sociedade. Perpetuou-se assim a ideia segundo a qual, “o povo” percebe melhor o mundo ao seu por por meio de anedotas, músicas e não por meio de textos argumentativos (talvez seja por isso que não tenhamos uma cultura de ensaios). O pensamento tornou-se uma mera palavra, usada para explicar algo essencial existente no consciente do homem que lhe permite ter acesso a ideias e perpetuar o modo de luta e explicar os seus anseios. O pensamento não é uma arma, e muito menos uma força. O pensamento equivale a meras palavras fanatasiosas para expressar ansiedades. É uma arma para a burla.

Neste sentido, a emergência de um pensamento filosófico na sociedade moçambicana suscita diversas questões, entre as quais a mais importante: Qual é a necessidade da Filosofia na sociedade moçambicana? Esta questão poderá ser respondida de várias formas, contudo, na maior parte das vezes a resposta mais óbvia é de que a sociedade moçambicana, não necessita de Filosofia.

Ora, essa posição anti-filosofia é válida no sentido de o percurso intelectual da nação ter sido caracterizado por posições opostas quanto ao significado do que seria “filosofia”: 1) ciência dos padres e aqueles que estudavam em seminários; 2) a ideologia marxista; 3) os princípios da vida em geral; 4) filosofia era para loucos (posição popular); Contudo, contrariamente a essas quatro posições, por volta dos anos 1990 no alvorecer da democracia em Mooçambique, a filosofia foi introduzida nas escolas com o intuito de ser um instrumento argumentativo passível de introduzir o cidadão na sociedade e fazer as suas escolhas com base em argumentos lógicos (enquanto por outro lado preparava o aluno para o ensino superior).

Todas as posições são válidas à sua maneira, cada uma depende do contexto em que estiver enquadrada, por mais que a filosofia seja para loucos. Um filosófo alemão (Friedrich Nietzsche) disse que a filosofia numa sociedade ou cura as pessoas ou torna-as mais doentes.

Na minha opinião, é o conceito de pensamento que as pessoas têm que determina a forma como elas entendem Filosofia. Se o pensamento for algo complexo, só serve para enlouquecer. E se o pensamento for simples de mais, é inútil. Portanto, a filosofia de nada servirá porque os pensamentos não são palpáveis. Por isso, da inutilidade da filosofia poucas são as pessoas que aderem a ela com o intuito de usar as ferramentas numa perspectiva puramente académica. Muitos dos que aderem aos cursos de filosofia aderem por uma questão meramente económica e prestigiosa, no sentido de possuirem um grau universitário e um estatuto social. E muitos deles depois esquecem o valor prático da própria filosofia.

Por outro lado, temos um outro grupo de filósofos na nossa sociedade, para os quais sendo a Filosofia um mero instrumento filosófico, levará muito tempo para que ela possa ser entendida na sociedade. Devendo a filosofia ser confinada nas universidades e de vez em quando sair para debates, colóquios e simpósios. A filosofia é igualada à coruja da Minerva, que levanta ao anoitecer (como defendem Hegel e Ngoenha).

Mas se a Filosofia vem tarde, ninguém necessita dela! Quem irá necessitar de um médico depois de ter morrido? Que sociedade precisa de uma ciência silenciosa? A Filosofia parece estar a separar-se dos reais problemas da sociedade, e o filósofo parece tornar-se um covarde amedrontado não sei de quê.

Da contemplação filosófica para a acção-interacção social

A covardia filosófica reside no facto de muitos filósofos defenderem que o papel do filósofo é ser o de reflectir sobre o mundo. O filósofo é por natureza um pensador, por essa razão não irá demonstrar nenhuma acção visível como a do pedreiro, a do arquicteto, a de um médico, etc. Realmente não, mas como Marx disse, não é tempo de contemplar/reflectir sobre o mundo apenas, o mais importante é “transformar” a sociedade.

Acredito que o foco na Filosofia tem desnorteado a sua verdadeira função na sociedade moçambicana, pois, as pessoas aprendem a pensar mas não aprendem a agir, não se empreendem para “transformar”, uma vez que todos os seus ídolos, Platão, Aristóteles, Hegel e Voltaire, não os ensinaram a agir, mas a sonhar. E o seu sonho não pode ser partilhado antes do anoitecer. O ideal seria estar assentado sobre uma pedra com a mão sob o queixo, como a estátua “o pensador” de Auguste Rodin.

A Filosofia em Moçambique parece reflectir sobre uma sociedade ilusória, um mundo de pensamentos a que nenhum cidadão real tem acesso, pois os problemas reais e imediatos não são reflectidos, ao menos. Porque parece ser uma espécie de pecado reflectir sobre o “agora”, por ser mais cómodo relectir sobre o “ontem”. Acredito ser necessário deixar-se de esconder por detrás da coruja e enfrentar o mundo de hoje. Imaginemos então se essa coruja moçambicana de tão jovem que é perder a visão? Qual será o seu fim? Será que morrerá à fome e cega, apesar de ainda poder voar?

A real presença da Filosofia na sociedade moçambicana carece de uma mudança de perspectiva em relação àqueles que a fazem. Pois a filosofia não pode existir sem filósofos. Acredito que este é que tem sido o grande problema, a centralização sobre a Filosofia e não aqueles que fazem sentir a sua presença. Ainda não entendemos que a sociedade necessita de uma melhor percepção sobre qual é a responsabilidade do filósofo na sociedade.

Da covardia à ousadia filosófica

Enquanto o filósofo se mantiver calado ele estará a ignorar os problemas do seu país, e “estes esforços fúteis para filosofar o seu caminho em direcção à relevância política são um sintoma do que acontece quando retirasse do activismo e adopta uma abordagem espectatorial dos problemas do seu país”, como defendeu o filósofo americano Richard Rorty, em “Para Realizar a América” (1999). Pois a posição de um espectador à espera de um golo favorável para a sua equipa, em nada permite ao filósofo influenciar a sua sociedade. Acredito com isso, o deixarmos de centralizar o debate na Filosofia, mas responsabilizarmos o filosófo sobre o papel de restaurar o papel da Filosofia na sociedade ou denegri-la mais.

O pensador americano considerava que a centralização do filósofo na “teoria” o afastava da realidade, dos “reais problemas dos homens”. A grande acção filosófia seria uma focalização da actividade filisófica (seja metafísica, antropologia, política, etc.) que deixe de focalizar os problemas dos livros e enfatize os problemas da sociedade. O orgulho filosófico não deve impedir de verificar os problemas sociais, senão de outra forma vai-se plantar um árvore no meio no mar. O problema é o de se pensar que o “povo” sabe o que irá fazer e que os costumes permanecerão os mesmos. Mas o problema reside no facto de ensinar o “povo” a saber fazer as suas escolhas.

Quando Sócrates, Russel, Rousseau ou Chomsky denunciaram as suas sociedades ou quando Ngoenha tenta denunciar, não cruzaram os braços à espera das consequências das escolhas do seu “povo”, mas tentaram ajudar o “povo”a compreender melhor como é que poderia aprender a melhorar a sua sociedade. Eles pretendiam trazer mudanças significativas ao estado da sua sociedade, não meramente através do pensamento mas por meio de acção.

A sociedade moçambicana não precisa de Filosofia. Entendam Filosofia enquanto um corpo teórico de conhecimentos confinados à universidade. Ou seja, o pensamento confinado à mera contemplação e auto-satisfação, aquele aspecto complexo do saber de que apenas poucos tem acesso. Como também aquele enigma de conhecimentos de que somente os “escolhidos” têm acesso. É necessário responsabilizar o filósofo como o agente de mudança. Senão, no vão do pensamento o filósofo irá esquecer-se da questão pertinente feita por Kant: “O que posso fazer?” E não apenas “o que é posso saber?”.

Essa mudança da posição centrada na filosofia para a posição centrada no filósofo permite abandonar-se o argumento segundo o qual a Filosofia é desncessária para a sociedade. Pois, se culpamos a Filosofia é o mesmo que se acusássemos um fantasma. Mas se culpamos o filósofo, seja ele Ronguane, Ngoenha, Castiano, Muianga ou Gingir apontamos o dedo para um sujeito pensamente capaz de responder pelos seus actos. E é responsabilidade deste mesmo sujeito responder às inquietações da sua sociedade. É importante que o filósofo deixe de pensar mas comece a agir na arena social (por mais que seja por meio de pensamentos).

Ora, a minha opinião é a mesma que a do filósofo beninense Paulin Hontoundji, segundo a qual a escrita é um meio importantíssimo para a identificação do filósofo. Se não for pela escrita que seja por meio de uma acção visível para a sociedade. Que não esteja confinada a uma plateia privada específica mas que a participação seja feita de uma forma mais pública, na qual as palestras possam incluir a sociedade civil, e as ideias do filósofo partilhadas com todos.

Por outro lado, é importante ressaltar a importância da utopia porque é isso que faz com que o filósofo possa contribuir de uma forma significativa para a sua sociedade. Se o filósofo não sonha o seu mundo fica inacessível, intocável e impossível porque ninguém irá saber o que é que ele faz. Mas se ele partilhar formas viáveis de melhorar a sua sociedade ou uma das esferas, poderemos compreender o valor da sua tarefa na sociedade actual.

A ousadia filósofica reside na possibilidade de o filósofo expressar a sua liberdade, por mais que a sociedade não permita, ele terá de inventar novas maneiras de expressar o seu pensamento contra a violência, a hipocrisia e a desumanidade. É importante perceber-se que o filósofo sem ousadia é como um saco vazio. E é necessário que se perceba que a tarefa de restaurar a imagem negativizada da Filosofia está ao seu encargo.

Em resumo, a sociedade necessita de filósofos ou interessados em Filosofia que abandonem o espírito de autocontemplação e o espectatorismo distanciado para se virarem para o campo de maior intervenção na sociedade. A violência do mundo requer uma outra visão, um outro agir, uma contribuição que só o filósofo pode fazer e não a Filosofia.

Comentários   

 
+1 #1 aderito 15-05-2011 13:50
A FILOSOFIA MOÇAMBICANA
A questão da filosofia moçambicana está intrisicamente ligada a filosofia Africana, e consequentement e o pensamento moçambicano no campo filosófico subjaz no pensamento generalista do continente.
Para se fazer uma abordagem integral do papel e da percepção filosófica moçambicanos somos obrigatoriament e enviados imperativamente a definição do termo pensamento, embora não etimologicamente.
Logo no incio percebe-se que o pensamento é algo constituído por um conjunto de partes ou elementos que são coordenados entre si, que funcionam como estrutura organizada e se influenciam mutuamente.
Particularmente , o pensamento filosófico, poderia se considerar o já apresentado, com efeitos visíveis através de acções, produções, governação, capacidade de negociação económica, empreendedorism o, etc.
Considero-me bastante imaturo para abordar profunda e categoricamente o papel real da filosofia em Moçambique no entanto que tal, porém dados os aspectos que já foram levantados por vários filósofos sobre esta matéria, pese embora num contexto mais abrangente atinente a filosofia Africana.
As questões do real papel da filosofia, da existência ou não dela ou dos filósofos em Moçambiuque, julgo que os Grandes filósofos como Ngoenha, Dubois, Nkrumah. Padmore, entre outros já abordaram duma forma suficientemente aceitável, embora crítica pela natureza da própria FIlosofia.

Adérito Manhique
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+1 #2 aderito 15-05-2011 13:52
A FILOSOFIA MOÇAMBICANA
A questão da filosofia moçambicana está intrisicamente ligada a filosofia Africana, e consequentement e o pensamento moçambicano no campo filosófico subjaz no pensamento generalista do continente.
Para se fazer uma abordagem integral do papel e da percepção filosófica moçambicanos somos obrigatoriament e enviados imperativamente a definição do termo pensamento, embora não etimologicamente.
Logo no incio percebe-se que o pensamento é algo constituído por um conjunto de partes ou elementos que são coordenados entre si, que funcionam como estrutura organizada e se influenciam mutuamente.
Particularmente , o pensamento filosófico, poderia se considerar o já apresentado, com efeitos visíveis através de acções, produções, governação, capacidade de negociação económica, empreendedorism o, etc.
Considero-me bastante imaturo para abordar profunda e categoricamente o papel real da filosofia em Moçambique no entanto que tal, porém dados os aspectos que já foram levantados por vários filósofos sobre esta matéria, pese embora num contexto mais abrangente atinente a filosofia Africana.
As questões do real papel da filosofia, da existência ou não dela ou dos filósofos em Moçambiuque, julgo que os Grandes filósofos como Ngoenha, Dubois, Nkrumah. Padmore, entre outros já abordaram duma forma suficientemente aceitável, embora crítica pela natureza da própria FIlosofia.

Adérito Manhique
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+1 #3 joaquim 23-09-2011 08:37
trabalho de investigacao
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