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Xitique: uma prática que resiste ao tempo
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Destaques - Economia
Escrito por Hermínio José  em 01 Março 2012 (Actualizado em 02 Março 2012)
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Não obstante os apelos que têm sido lançados pelos vários sectores da sociedade no sentido de as pessoas fazerem as suas poupanças nos bancos, ainda existe uma esmagadora maioria de moçambicanos que (continua a) aposta(r) na poupança rotativa ou banca tradicional, vulgo xitique.

Quando se fala deste tipo de poupança, sobressai à superfície o xitique entre familiares, vizinhos ou amigos, bem como entre vendedores dos mercados, este último também bastante praticado na província de Maputo e um pouco por todo o país.

A nossa reportagem dirigiu-se ao mercado do Xipamanine, famoso pela sua extensão, azáfama de vendedores e clientes, onde a maior parte dos vendedores (grossistas, retalhistas, formais e informais) tem no xitique o seu banco. Digamos que se trata de um banco ao domicílio pois ao cair da tarde passa uma pessoa para recolher o dinheiro.

Daniel Tovela, de 49 anos de idade e vendedor no mercado Xipamanine há 20, foi a pessoa indicada para cuidar do dinheiro colectado mercê da confiança que os colegas têm nele. “Somos 15 pessoas, cada um de nós tem de tirar semanalmente 500 meticais e o valor é entregue a um membro todas as sextas-feiras. Feitas a contas, cada pessoa recebe sete mil e quinhentos por semana”.

A segurança

Se semanalmente Daniel Tovela, como tesoureiro, tem estado na posse de avultadas somas de dinheiro, questionámo-lo sobre se tem tomado algumas precauções para não “cair nas malhas dos amigos do alheio” e a resposta foi rápida e surpreendente: “Infelizmente não temos nenhuma segurança mesmo sabendo que movimentamos muito dinheiro, não temos condições para pagar a um agente da segurança”, comenta.

Desde o ano de 2008 que este senhor tem a responsabilidade de cuidar do valor colectado dos vendedores envolvidos no xitique. Devido à falta de segurança, em 2009 malfeitores tentaram, sem sucesso, apoderar-se dos cerca de dez mil meticais que levava na bolsa. O facto deu-se por volta das 18 horas quando regressava à casa.

“Três jovens mandaram-me parar, mas eu não obedeci à suposta ordem, continuei a andar e um deles golpeou- -me pelo pescoço e deu-me uma rasteira. Pedi socorro e apareceram algumas pessoas, foi assim que escapei. Os meliantes fugiram, felizmente, sem o meu dinheiro”, conta.

Foi nestas circunstâncias que os dez mil meticais que Tovela transportava escaparam, um valor que, se lhe tivesse sido roubado, poderia causar problemas inimagináveis no seio dos colegas. “Eu não teria como justificar o roubo e nem como repor o valor. Acho que o assalto foi orquestrado por pessoas conhecidas. Eles conheciam a minha rotina e sabiam que naquela altura estaria na posse de dinheiro”.

Os benefícios do xitique

Se este é um modelo para poupar dinheiro, o qual remonta já há muitos anos, é importante saber quais são os seus benefícios e como se justifica que até os dias de hoje muitos moçambicanos estejam a optar por este tipo de poupança ao invés de recorrer ao banco?

Dos 15 praticantes do xitique no mercado Xipamanine sob a responsabilidade de Tovela, a nossa reportagem abordou um deles, de nome Fabião Damas, vendedor de produtos alimentares, o qual disse que aderiu à ideia em 2010. Fê-lo porque os amigos, também vendedores, aconselharam-no a optar por esta via para fazer o seu negócio crescer.

“No princípio, pensei que não pudesse conseguir tirar 500 meticais por semana, mas vi que isso não passava de um desafio e tinha que seguir em frente. O xitique parece doer quando são muitos mas quando chega a vez de receber tudo se transforma em emoção. É uma forma de materializarmos os nossos projectos sem recorrer aos empréstimos bancários, cujos juros são insustentáveis”, revela Fabião Damas, que diz que a sua vida e actividade mudaram significativamente graças ao xitique.

Damas, que é natural da Maganja da Costa, província da Zambézia, diz que por sentir e ver que a sua vida estava a mudar (para o melhor), decidiu entrar noutro xitique, desta feita de âmbito familiar. “Neste, temos de tirar mil meticais por mês e ao todo somos seis. Quando junto o dinheiro colectado nos dois xitiques, consigo fazer algo. Já comprei um terreno e o meu negócio vai de vento em popa”.

“Deve haver seriedade e compreensão”

No Mercado Municipal T.3, alguns vendedores também praticam o xitique entre si. São vários grupos de negociantes que gerem os seus esquemas de poupança rotativa, um dos quais tem como responsável a dona Mónica Simbine, que conta com 42 anos de idade, 12 dos quais como vendedora.

“O nosso grupo é composto por oito membros, o dinheiro é colectado de segunda a sexta, são cem meticais por cada pessoa e o xitique sai aos sábados. Se alguém do grupo não tiver tirado o dinheiro durante a semana, pode fazê-lo de uma só vez, neste caso pagando os 500 meticais”, explica.

Mónica garante que o segredo do xitique está na seriedade e responsabilidade por parte dos praticantes, o que passa pelo depósito do valor nos dias marcados, isso para não confundir a pessoa responsável pelo controlo.

“Fruto da mútua compreensão que há entre nós, se a pessoa tiver um problema ou um caso de força maior pode pedir para receber o valor de forma antecipada. Para tal, a mesma tem de falar com quem em condições normais devia receber o valor” ajunta.

Um caso de sucesso

Rita Muchanga não esconde a sua satisfação por fazer parte de um grupo sério, onde todos os envolvidos respeitam as regras estabelecidas. Casada e mãe de quatro filhos, Rita diz ter iniciado a actividade comercial num dos mercados informais da cidade da Matola e abraçado o xitique há nove anos.

“Naquela altura, cada pessoa tinha de tirar 50 meticais por dia. Éramos seis no total. Na verdade, o valor parecia pouco mas quando chegasse a vez de receber, a alegria era enorme. Primeiro porque com o dinheiro acumulado dava para reforçar o meu negócio e, segundo, porque consigo fazer o rancho para a minha casa”, lembra.

Actualmente, Rita é proprietária de uma barraca (relativamente maior se comparada com as anteriores que já teve) algures no mercado municipal do T.3. “Não pensei que fosse ter o que tenho hoje. Graças ao xitique os meus filhos têm o que vestir, vão à escola, para além de conseguir manter o meu negócio firme”.

O xitique como pretexto para o convívio familiar

Para além do xitique que envolve essencialmente valores monetarios, existe também o intrafamiliar. Um das formas consiste em as famílias juntarem dinheiro e, no fim de cada mês, comprarem bens (utensílios domésticos, mobiliário, electrodomésticos, …) e ofertarem-nos a um dos contribuintes.

A compra dos bens é feita em função das necessidades da pessoa que irá receber. No dia da entrega, é organizado um convívio como forma de apimentar o momento.

Cidadãos interpelados pela nossa reportagem foram unânimes em afirmar que o xitique é uma prática que não deve ser abandonada pois ajuda muitas famílias. Para eles, não obstante o facto de existirem bancos comerciais para se fazer poupança, não se pode descurar do valor social que a prática representa.

“Nenhuma prática deve substituir a outra. Trata-se de duas coisas diferentes: uma (o xitique) é tradicional e a outra (poupança bancária) é moderna. Há famílias que optam pelas duas formas e outras que não”, concluem.

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