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O dia de reflexão no Gurúè
Escrito por Rui Lamarques  em 08 Fevereiro 2014
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Depois de três dias intensos de campanha eleitoral, esta sexta-feira (07) foi reservada à reflexão dos munícipes de Gurúè, que no sábado (08) votarão nas eleições repetidas para a escolha do presidente do município e dos membros da Assembleia Municipal. Pelas artérias da cidade, a vida voltou à normalidade. O ambiente é calmo, pois a população mantém-se tranquila, apesar de receios levantados por alguns cidadãos face a uma provável tensão no dia da votação.

Nesta sexta-feira, Gurúè acordou com uma temperatura amena e, ao longo do dia, o clima foi ficando quente e o céu limpo. @Verdade circulou pela paupérrima circunscrição e constatou que a vida voltou pouco a pouco a normalidade. As actividades comerciais, formal e informal, decorrem sem grandes sobressaltos. O ambiente de euforia caracterizado por cânticos, danças e o barulho de viaturas e motociclos zunindo pelas ruas do município, que se viveu nos últimos três dias de campanha eleitoral foi substituído por um cenário de total tranquilidade.

Nas ruas e nos principais pontos de encontro dos habitantes, as eleições autárquicas que serão repetidas amanhã, dia 08 de Fevereiro, tornaram-se nos assuntos de conversa do dia, embora haja muito cepticismo no que respeita à mudança da situação. Por outro lado, os munícipes não disfarçam a sua ansiedade de exercer o seu direito cívico. Os eleitores vão votar para o melhoramento das vias de acesso, e o abastecimento de água, dois principais problemas que apoquentam os residentes desta urbe abandonada à sua própria sorte.

As chuvas que caíram no final do dia de ontem (06) não só colocaram a nu os inúmeros problemas da cidade relacionados com a falta de saneamento do meio e vias de acesso. Mas também acalmaram os ânimos dos membros e simpatizantes dos dois partidos políticos que disputam as eleições autárquicas em Gurúè, província da Zambézia. Durante o último dia da campanha eleitoral, a Frelimo e o Movimento Democrático de Moçambique (MDM) estiveram com o espírito em ebulição, apostando em caravanas e paralisando literalmente a autarquia. A quase infindável fila de viaturas e motociclos, acompanhada por uma moldura humana, percorreu as principais artérias e alguns bairros periféricos da pacata Gurúè, que se mostrou pequena para milhares de pessoas e dezenas de veículos que se fizeram à rua em apoio a Jahanguir Jussub, candidato a edil pela Frelimo, e Orlando Janeiro pelo MDM.

Refira-se que ambos os candidatos vão exercer o seu direito de voto no mesmo posto de votação, instalada na Escola Secundária de Gurúè.

Os panfletos de propaganda eleitoral permanecem afixados até em instituições públicas. O hospital distrital é disso um exemplo flagrante. As pessoas caminham apressadas e preocupadas em levar a vida adiante. Nos bairros que comprimem a cidade de cimento os vendedores informais pavimentam as estradas que um dia foram de terra batida. Vendem um pouco de tudo. Quiabo, batata-doce, maçaroca, farinha de milho, cebola e alho produzidos lá nas cinturas das montanhas que isolam Gurúè de outros pontos da extensa e populosa Zambézia.

As bombas de combustível, concorridas pelas viaturas que precisam de se abastecer para acompanhar as caravanas dos candidatos nos três dias intensos de caça ao voto conhecem agora momentos de letargia. As casas de pasto engalanam-se para uma grande sexta-feira. A discoteca no cine-Gurúè, propriedade do candidato da Frelimo, é o local do qual a juventude fala. Na pensão Gurúè, espaço do qual se afirma ter a melhor cozinha da pacata cidade, há música ao vivo.

As barracas também vendem bebidas alcoólicas e alguns citadinos já embriagados com as mais baratas falam em voto consciente. Outros igualmente ébrios do mesmo falam de mudança.

A oferta, em termos de diversidade, é utopia. Há apenas três marcas de cerveja e nunca estão frescas para as gargantas exigentes de outros pontos do país. No mercado os vendedores voltaram a gritar alto e a promover os seus produtos de segunda mão.

Só a televisão pública emite. Há, em termos de informação, muito pouca oferta. Os jornalistas que circulam pela fila com máquinas de filmar e microfones são tidos como funcionários da TVM pelas pessoas menos avisadas e que não têm acesso aos luxos da televisão por satélite. Dos jornais nem se fala. O pouco que se conhece deriva das redes sociais. "Eu sou fã da página do Jornal @Verdade no facebook", disse uma jovem quando soube que estava na sua terra natal uma equipa de jornalistas daquele órgão.

"É lá onde leio as notícias, mas só consigo ver o que postam na página porque o meu telefone não tem capacidade para entrar no site. Fico sem crédito", disse Anastácia Vitorino, estudante da escola secundária de Gurúè.

Assim foi o dia de reflexão numa cidade que não sabe o que é pluralidade de informação e que amanhã saberá quem saiu vitorioso do processo eleitoral pela TVM ou pelas redes sociais. A prova de que, na verdade, os órgãos de informação partilham o atraso das autarquias. Ou seja, aquilo de que se fala neste texto e que é sobre Gurúè dificilmente chegar aos seus residentes. Vai morrer nos grandes centros urbanos.

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