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Autárquicas 2013: “Não considero que seja responsabilidade social” Carlos Colarinho, edil de Moatize
Escrito por Rui Lamarques  em 25 Julho 2013
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O presidente da vila municipal de Moatize, Carlos Colarinho Navaia, afirma que as receitas próprias da edilidade são insuficientes para custear as despesas daquela autarquia. Em entrevista ao @ Verdade Navaia afirma que os mega-projectos deviam fazer mais pela circunscrição. Até porque “o que é feito resultante da exigência de quem foi deslocado de um determinado espaço para outro” não é “responsabilidade social”. Na hora de prestar contas o edil faz um balanço positivo da sua governação, mas reconhece que possa haver outro tipo de opinião em relação ao seu desempenho...

(@Verdade) – Faltam menos de seis meses para terminar o actual mandato. Se olhar para o espírito do seu manifesto e as realizações ao longo destes quase cinco anos que balanço faz do seu desempenho como edil?

(Carlos Colarinho Navaia) - Realmente estou no fim do mandato. Portanto, naquilo que constitui o balanço da minha governação julgo que o mesmo é positivo sem, contudo, negar que possa haver outro tipo de opinião e que diga que determinadas coisas não estão a andar. Digo positivo porque grande parte daquilo que representa o corpo do meu compromisso com os munícipes foi cumprido e outra está em processo de implementação. O que me leva a crer que até ao final deste ano poderemos ter tudo feito, com excepção do edifício do município que, pelo que se nota e por aquilo que esperávamos em termos de parcerias, não será materializável.

(@V) – O município não pode construir a sua sede com fundos próprios?

(CCN) – Para um município bastante complexo como o nosso e com as receitas locais não será possível começar a erguer o edifício. Temos, no entanto, algum valor por receber de certas empresas e se estas honrassem este compromisso poderíamos deixar a construção a meio neste mandato. Mas, pelo que se nota, a coisa está parada. Se nos tivessem dado o que corresponde ao município pelo espaço que a Vale ocupa já teríamos arrancado com as obras.

(@V) – Mas o que realmente torna o balanço da sua governação positivo?

(CCN) - Neste preciso momento estamos a dar os últimos passos no que diz respeito à construção das pontes e ao alinhamento de algumas estradas. Isso com base no fundo do Banco Mundial com o qual o Ministério da Administração Estatal possibilitou uma parceria.

Se terminarmos a construção destas pequenas obras poderei falar de cumprimento de 95 porcento daquilo que é o meu manifesto eleitoral. Nós iniciámos o cumprimento do nosso manifesto a partir do transporte público urbano. Essa foi uma promessa feita aos munícipes e mal tomámos posse conseguimos colocar o transporte público para os residentes de Moatize. Portanto, a nossa promessa de minimizar a dificuldade de transitabilidade das pessoas de terceira idade foi cumprida.

Também prometemos aos munícipes, particularmente aos jovens, a construção de uma escola secundária em Moatize. Era difícil encontrar vagas na cidade de Tete. Conseguimos no segundo ano do mandato colocar o ensino secundário do segundo ciclo na vila. Hoje ninguém precisa de sair para Tete para dar continuidade aos estudos.

(@V) – ... É tudo?

(CCN) – Um dos grandes nós de estrangulamento em Moatize era a morgue do hospital. Os nossos munícipes, quando tivessem infelicidade, tinham de realizar os enterros no mesmo dia. Fizemos um esforço muito grande junto à Vale para nos ajudar no apetrechamento da morgue. Isso foi feito. Porém, agora estamos a trabalhar para adquirir um gerador para manter o sistema de frio quando a corrente oscilar.

(@V) – Como foi que o município olhou para os anseios da juventude neste mandato?

(CNN) – No que concerne ao apoio a juventude reabilitámos o campo da CARBOMOC. Melhorámos o campo conhecido por Xinkombo. Tínhamos um clube que se chamava Clube Recreativo Desportivo de Moatize para negros. Depois do Acordo Geral de Paz as instalações do clube passaram a servir de sede do partido Renamo. Nós vimos que aquela situação significa escamotear os anseios da juventude. Fizemos um estudo com a massa associativa do clube e adjudicámos o espaço a um empresário.

Estabelecemos o compromisso de que uma parte serviria para as suas actividades comerciais e a outra parte teria de ser reabilitada com infra-estruturas desportivas. Nesse contexto, foi reabilitado o campo de salão com bancadas, algo que antes não existia. Adicionou-se uma piscina, mas o uso é selectivo. Inaugurámos o estádio municipal. Essa foi uma das promessas feitas aos munícipes.

Quando foi feita a promessa muita gente, incluindo pessoas ligadas à minha governação, não acreditava ser possível. Mas eu disse-lhes que seria possível por causa do desenvolvimento de Moatize e pelo perfil das empresas que vinham surgindo ao longo do município. Hoje o campo é uma realidade. A Vale respondeu positivamente ao nosso apelo e, nesse contexto, temos um complexo desportivo moderno.

(@V) – Quanto ao abastecimento de água e iluminação o que se pode dizer?

(CNN) – Posso afirmar que quanto à iluminação só agora estamos a lograr algum sucesso. Antes vivíamos numa situação de desespero constante. A nossa vila sofria de cortes sistemáticos e a intensidade da corrente não era das melhores. Nos escritórios os meios electrónicos não arrancavam, mas hoje a situação melhorou bastante. A Electricidade de Moçambique (EDM) continua a envidar esforços de modo a levar iluminação aos bairros. Portanto, até ao fim do ano toda a vila terá iluminação.

Algumas ruas já beneficiam de iluminação pública. Falámos com a EDM para construir uma subestação por causa do surgimento de muitas empresas na vila. No que diz respeito à água era um bicho de sete cabeças, mas estamos em vias de ultrapassar o problema. Actualmente uma empresa chinesa está a fazer escavações para podermos ter água em todos os bairros.

O bairro que sofria muito com a crise de água é o Bagamoyo, um zona que no tempo colonial era abastecido pelos Caminhos- de-Ferro de Moçambique, mas por causa da guerra o bairro deixou de beneficiar desse serviço. Quando o FIPAG retomou as ligações de água usou os mesmos canais, mas estes não aguentavam devido à idade avançada. Contudo, até ao final do ano alguma coisa vai mudar em relação ao abastecimento de água. Existe a ideia de construir dois tanques para igual número de bairros.

(@V) – O que se pode dizer sobre a questão do tratamento de resíduos sólidos?

(CNN) – Quando chegámos ao município encontrámos dois tractores e uma camioneta de recolha de lixo. Adquirimos dois camiões, dos quais um é cisterna e serve também para diminuir a incidência de poeiras em algumas estradas e distribuir água nos bairros em caso de crise.

Os tractores ajudaram-nos bastante na questão de recolha de lixo. Contudo, reconheço que continuamos aquém daquilo que são as expectativas. Isto porque mais do que trabalhar nos meios é preciso mexer com a cabeça das pessoas. É que as pessoas não sabem manusear o lixo e, quando assim é, a recolha pode tornar-se ineficaz.

Em alguns bairros, como por exemplo o 25 de Setembro, os meios de recolha passam todos os dias, mas logo depois surge mais lixo nas ruas. As pessoas levam areia do seu próprio quintal e vão amontoar nos locais de recolha de lixo. Algo que pode ajudar a combater qualquer situação de erosão que possa ocorrer nos seus próprios quintais. Mas isso será trabalho para os próximos que vierem.

(@V) – E o comércio?

(CNN) – Quando cheguei ao município encontrei duas unidades, sendo um armazém e uma loja. Mas hoje ninguém precisa de ir à cidade de Tete para comprar produtos. Hoje é possível encontrar desde roupa a produtos frescos sem sair de Moatize. Isto é uma grande alegria. Com o regresso da circulação do comboio até nos tornámos desorganizados. Temos de criar uma feira para todos aqueles que vêm de vários locais vender os seus produtos em Moatize.

(@V) – Qual é a percentagem actual de cobertura de abastecimento de água?

(CNN) – Nós estávamos em 94 porcento.

(@V) – Está a dizer que 94 porcento da população de Moatize tem acesso a água?

(CNN) – Sim.

(@V) – 98 porcento da população de Moatize tem água no próprio seu quintal?

(CNN) – Numa primeira fase foi por via de fontenários, mas por causa das construções e do aumento do nível de vida cada um quer puxar água para a sua casa. Esse nível de cobertura tem subido muito nos últimos tempos.

(@V) – Mas esse nível não chega aos 98 porcento da população.

(CNN) – Esse não. Os que puxam para as suas casas deve chegar aos 70 porcento. Até os idosos que têm familiares bem posicionados também têm água canalizada.

(@V) – Que benefício Moatize retira do facto de ter um megaprojecto no espaço autárquico?

(CNN) – Este é um ponto bastante forte. Os megaprojectos, se tivermos de olhar realmente para aquilo que constitui responsabilidade social, trazem um benefício, mas não aquele que se desejava. Porque não aquele que se desejava? A primeira questão que os megaprojectos tinham de atender é a questão de reassentamento. Isso não é responsabilidade social como se pensa. O reassentamento é uma compensação pela terra que se tirou das populações.

No entanto, podemos dizer que retirámos proveito do facto de esses grandes empreendimentos terem reduzido substancialmente o número de jovens desempregados do município. Nesse contexto não temos dúvidas. Há emprego para todos os gostos e estilos. Recentemente, saíram 50 jovens para uma formação no Brasil. Porém, na questão específica de responsabilidade social ainda estamos longe do desejável. As ruas de Moatize não estão em ordem.

Nós entendemos que a comercialização do produto começou recentemente. É provável que não tenham ainda o valor necessário para se dedicaram à responsabilidade social. Mas uma vila mineira como esta devia ser bonita. Nesse ponto muitos munícipes culpam a edilidade, mas não é nossa culpa. Onde é que vamos buscar dinheiro para empreendimentos desse nível? Quando chegámos ao município o valor máximo de receita era de seis milhões, mas hoje falamos de 28 milhões anuais.

A aplicação desse valor nas despesas mostra que se trata de muito pouco para as necessidades da vila. O Fundo Nacional de Estradas dá-nos uma valor anual de quatro milhões. O que é muito pouco. Quantos metros de estrada podem ser feitos com quatro milhões? O que é feito resultante da exigência de quem foi deslocado de um determinado espaço para outro eu não considero como responsabilidade social.


(@V) – E qual devia ser a comparticipação do município?

(CNN) – Nós faríamos um plano de reabilitação de estradas e as empresas diziam o que podem fazer em termos de contribuição. Nós dávamos os nossos quatro milhões e elas completavam o valor.

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