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Hóquei: a modalidade de topo que chora por um pavilhão
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Destaques - Desporto
Escrito por David Nhassengo  em 25 Outubro 2012 (Actualizado em 29 Outubro 2012)
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Em Setembro de 2011, o país fez história e espantou tudo e todos ao chegar pela primeira vez às meias-finais de um campeonato mundial de hóquei em patins do grupo A. Embora não tenha logrado estar na final, ao país coube a honra de ser consagrada como a quarta melhor selecção do planeta nesta modalidade.

Apesar desse feito, no regresso de San Juan, na Argentina, local onde decorreu o evento, o hóquei debateu-se com a falta de infra-estruturas para a sua prática, o que, de certa forma, cobriu o país de vergonha. Os problemas de falta de infra-estruturas estendem-se até ao presente, para além de que esta é uma modalidade que é praticada somente na cidade de Maputo.

Nesta edição, o nosso entrevistado é Nicolau Manjate, presidente da Federação Moçambicana de Hóquei em Patins, que nos fala da saúde do hóquei no país e da federação.

Aquele dirigente afirma que o organismo que comanda foi reestruturado. Por via disso, colocou o país no topo do hóquei a nível mundial, estando em curso projectos ambiciosos que visam tornar sustentável a modalidade.

@Verdade – Como é que está o edifício da federação?

Nicolau Manjate – Está bem e goza de boa saúde. Digo isso porque há articulação e coordenação entre os seus membros.

@V – São estes dois itens que o levam a essa conclusão?

NM – São estes elementos que nos colocam num bom caminho. Com esses dois pontos conseguimos levar a cabo o nosso plano estratégico, que é o fundamental.

@V – E o que preconiza o tal plano estratégico?

NM – Desenvolver a modalidade, sobretudo na componente da formação e massificação do hóquei.

@V – Significa que tem havido cumprimento dos objectivos?

NM – Claramente, de acordo com o plano traçado.

@V – Quando fala de cumprimento, há uma percepção de que na federação de hóquei não se há falta de meios financeiros, tal como nas outras?

NM – Não se pode dizer que a federação tem dinheiro. Até porque temos recebido apoio, sobretudo do Governo, através do Fundo de Promoção Desportiva, para a execução dos nossos planos.

@V – E é suficiente?

NM – Não.

@V – Se não é suficiente, como é que se explica que a federação esteja bem?

NM – A federação traça um plano, porém, dependendo dos fundos disponíveis, é obrigada a reajustá-lo. É o que acontece com a nossa agremiação.

@V – Quanto recebe do fundo?

NM – O valor tem variado de ano para ano. Este ano recebemos um milhão e meio de meticais.

@V – Cobre as actividades desenhadas pela federação?

NM – Não posso responder taxativamente a essa questão porque, mediante a disponibilização desses fundos, reajustamos o nosso plano. O que posso dizer é que para a materialização de algumas actividades temos recorrido a patrocinadores.

@V – E o que deu para fazer até agora com o fundo?

NM – Ainda estamos a trabalhar. Temos investido na aquisição do equipamento, na preparação física dos atletas que compõem a selecção e na organização dos eventos internos. Participámos na Taça Internacional Zedú, que decorreu recentemente em Angola.

@V – Então reconhece que há um défice de fundos na federação?

NM – Défice sempre houve. Por exemplo, quando se trata de um campeonato mundial em que temos de lá estar, somos obrigados a recorrer aos nossos parceiros internos.

@V – A federação tem patrocinadores?

NM – Tem, e tenho de sublinhar isso. Eles têm-nos apoiado muito, principalmente quando se trata de uma participação internacional.

@V – E quem são?

NM – São maioritariamente empresas públicas. Só para citar alguns nomes, temos a Mcel, a Electricidade de Moçambique e a Hidroeléctrica de Cabora Bassa. Com estes não temos razões de queixa.

@V – No que toca às competições internas, qual é o ponto de situação do hóquei?

NM – Até à nossa ida ao campeonato do mundo que decorreu no ano passado na Argentina, nós nunca tínhamos tido problemas nas competições internas. Porém, quando regressámos, encontrámos um obstáculo: o da falta de pavilhões para acolherem os nossos eventos, ou seja, interrompemos as competições internas porque o pavilhão do Estrela Vermelha não estava em condições. Aliado a isto, está o facto de outros pavilhões estarem indisponíveis.

@V – Significa que neste momento não há nenhuma competição interna?

NM – Não necessariamente. Apenas debatemo-nos com a falta de campo, mas em termos de competições internas penso que estamos num bom caminho.

@V – Desde quando o problema da falta de pavilhões existe?

NM – Desde Agosto do ano passado.

@V – Não existem alternativas?

NM – É Lógico que existem. Neste momento está a decorrer um torneio denominado Taça da Paz no pavilhão da Escola Portuguesa.

@V – Por ano quantas competições têm organizado?

NM – Cerca de cinco, mais o campeonato.

@V – Ainda nesta componente de competições internas, há quem diga que só decorrem na cidade de Maputo. Há alguma razão?

NM – O hóquei federado só existe na cidade de Maputo. Ainda que tenhamos núcleos em Nampula e na Zambézia, é preciso haver clubes e tudo depende da extensão desses mesmos organismos.

@V – E porque é que o hóquei não é extensivo?

NM – É necessário organizar e planificar o hóquei. Neste momento estamos a envidar esforços no sentido de levar a modalidade a todas as províncias do país.

@V – Como é que se explica que a modalidade não seja praticada nos restantes pontos do país se existe uma federação?

NM – Historicamente, o hóquei sempre existiu em Maputo, embora existam núcleos noutros pontos.

@V – E o que falta para que exista noutras províncias?

NM – Estamos a subir gradualmente. A iniciativa para que se pratique o hóquei noutras regiões do país tem de partir localmente. Os núcleos e os patrocinadores locais é que devem promover a modalidade.

@V – E qual é ou será o papel da federação?

NM – Dar o suporte. Neste momento estamos a estudar uma melhor plataforma para os mecanismos de apoio.

@V – Concretamente...

NM – Condições objectivas. Estender o hóquei para o resto do país implica meios e fundos.

@V – E não existem?

NM – Esta direcção só tem apenas um ano a trabalhar. Insisto: noutros pontos do país é preciso que haja vontade, que haja um núcleo para que nós possamos ir trabalhar.

@V – E no que diz respeito às competições internacionais?

NM – A nossa participação tem sido triunfante. Aqui não temos razões de queixa. Recentemente, estivemos em Angola na Taça Zedú onde conquistámos a segunda posição porque perdemos com a própria Angola. Participámos, no ano passado, no campeonato do mundo e ficámos na quarta posição.

@V – Apenas?

NM – É preciso entender que o calendário das competições internacionais é limitado. Temos apenas a Taça Montreux, o Campeonato do Mundo, a Taça Zedú e o Campeonato Africano de Clubes.

@V - Para quando a Taça Montreux e o Campeonato Africano de Clubes?

NM – Estava previsto que ele decorresse em Moçambique, mas a falta de infra-estruturas embaraçou-nos. A Taça Montreux vai decorrer em Abril do próximo ano em Paris, França, e faremos parte do evento porque somos os quartos melhores do mundo, por mérito.

@V – E o campeonato do mundo?

NM – Vai ter lugar em Setembro de 2013 em Angola.

@V – Em que pé estamos a nível de formação?

NM – Nós estaríamos muito avançados. Tivemos o problema dos campos, tais como os pavilhões do Desportivo e do Maxaquene, que ficaram indisponíveis aquando das obras para acolher os X Jogos Africanos, como também o do Estrela Vermelha que ficou sem condições recentemente. Mas estamos a trabalhar. É só ver agora que as partidas das equipas seniores são sempre precedidas dos do escalão dos iniciados, que é uma forma também de garantir a sustentabilidade da modalidade.

@V – Essa formação é feita a que nível?

NM – Dos clubes.

@V – Ainda na questão das infra-estruturas. A quantas anda a federação?

NM – Neste momento não temos nenhuma infra-estrutura pertença da federação. Temos os pavilhões do Desportivo, do Maxaquene e do Estrela Vermelha que são dos clubes e que estão indisponíveis. Nós não nos podemos meter porque é preciso perceber que os clubes são autónomos. Neste momento todas as nossas competições são organizadas no pavilhão da Escola Portuguesa.

@V – Ao que tudo indica, estamos perante uma federação sem infra-estruturas e dependente dos clubes. Como é que tem sido a relação entre as instituições?

NM – Os clubes são donos dos campos e estes clubes estão sob tutela da Associação de Hóquei da Cidade de Maputo que, por sua vez, é tutelada pela federação. É preciso entender esta pirâmide e saber-se que a federação está apenas para o diálogo e levar avante a modalidade.

@V – Quais são os projectos da federação?

NM – Neste momento estamos preocupados em levar avante a criação de uma escola de formação de modo a garantir a sustentabilidade do hóquei no país. Este é para já o nosso grande projecto.

@V – Pode falar um pouco desse projecto?

NM – Temos uma parceria com a Escola Superior dos Desportos da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) para a criação da escola. Numa primeira fase, vamos fazer a inscrição dos interessados e vamos dividi-los em grupos em função da idade. De seguida, vamos ensinar-lhes a patinar para que sejam as estrelas do amanhã.

@V – Falou de idades...

NM – Será em grupos dos 4 aos 16 anos.

@V – E quem vai leccionar a patinagem?

NM – Na verdade, o que vai acontecer é que, com ajuda de parceiros internacionais, teremos no país técnicos de patinagem que, por sua vez, vão capacitar os nossos monitores em matérias de formação.

@V – Os monitores serão nacionais?

NM – Obviamente.

@V – E quem serão esses monitores?

NM – Antigos atletas, treinadores nacionais...

@V – Para quando esta escola e onde estará localizada?

NM – Ainda neste ano no pavilhão da Académica como ficou acordado na parceria com a UEM. Mas por enquanto vamos convidar a Imprensa para divulgar e criar incentivos no sentido de persuadir os novos talentos a aderirem ao evento.

@V – Há quanto tempo está no comando da federação?

NM – Este é o segundo ano do nosso mandato.

@V – Reclama algum ganho?

NM – Nós reorganizámos a selecção nacional de hóquei em patins, estruturámos a federação, melhorámos a nossa prestação nos campeonatos mundiais e melhorámos as competições internas.

@V – E o que está ainda por ser feito?

NM – Até 2015 teremos materializado o nosso projecto de massificação e desenvolvimento do hóquei. Mas neste momento estamos a trabalhar no nosso programa de acção que passa necessariamente por ter uma escola e melhorarmos a nossa prestação nos “Mundiais”, ou seja, conquistar o pódio.

@V – Qual é o segredo para conquistar o pódio, tendo como exemplo a nossa prestação no campeonato do mundo da Argentina e recentemente na Taça Zedú?

NM – Atitude e muita responsabilidade. Cada um, desde o atleta à própria direcção da federação, deve dar de si e, acima de tudo, reinar o espírito de equipa. É importante que cada um saiba o que fazer, sobretudo na componente da coordenação das acções para alcançar os nossos objectivos.

@V – Em termos concretos?

NM – Um treinador competente e formar uma equipa comprometida com a causa.

@V – Podemos dizer que o hóquei como modalidade está em bom estado?

NM – Como modalidade é preciso enquadrá-lo como uma componente do desporto no geral, onde se exige maior trabalho e compromisso. O hóquei no país está a notabilizar-se pela sua própria dedicação mas também devido ao apoio do Governo e dos seus parceiros. É necessário saber usar os poucos recursos que existem para fazer algo visível.

@V – É sabido que a nossa selecção é mista, ou seja, composta por jogadores internos e outros que militam no estrangeiro. Fala-se neste contexto da existência de tratamento diferenciado. O que tem a dizer?

NM – Não constitui verdade. Todos na selecção têm tratamento igual e não olhamos para essa vertente. Todos estão unidos e abraçados por uma causa, que é elevar o nome do país e é esse o espírito que reina do grupo.

@V – Temos uma selecção adulta em que a maior parte dos jogadores está no fim de carreira. Qual é o projecto da federação para que estes atletas transmitam a sua experiência aos mais novos?

NM – Há jogadores jovens na selecção que a pouco e pouco vão ganhando experiência. Nós temos olhado para essa vertente e estamos certos do caminho que estamos a seguir.

Comentários   

 
0 #1 Ricardo Henriques 27-10-2012 01:40
Uma grande entrevista para uma modalidade que merece muito mais em Moçambique! É tempo de o hóquei ser tratado como merece
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