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De Ystad a Maputo, uma ponte de arte e de amor *
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Vida e Lazer - Cultura
Escrito por Redação  em 14 Outubro 2015 (Actualizado em 15 Dezembro 2015)
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Foto arquivo do Mutumbela GogoHenning veio a Moçambique em 1986, tendo já estado em África anteriormente. Como dramaturgo, escritor, teve a oportunidade de ver um grupo de teatro a apresentar uma peça e viu que o grupo ainda não dominava a técnica de representar. Este grupo era o nosso. Mas sentiu uma espécie de energia no grupo que o deixou surpreendido e esse foi um dos motivos que o fez ir ficando em Moçambique. A única coisa que precisava era de um quarto e de uma sala para poder escrever. E nessa vontade de permanecer em Moçambique houve um pequeno detalhe de datas: o dia do seu aniversário e do aniversário da morte de Eduardo Mondlane, 3 de Fevereiro. Esta data inspirou-o para escrever a primeira peça de teatro sobre o nosso herói nacional, que pela sua trajectória política e de justiça se havia tornado no seu ídolo.

Começou a ficar interessado em conhecer mais profundamente Eduardo Mondlane, o que nos surpreendeu. Mas quando ele montou a peça, algo interessante aconteceu. Nós ficamos a conhecer melhor a nossa história através de um sueco que era professor de teatro na Noruega.

Quando ele manifestou a sua vontade de trabalhar com o grupo, a minha reacção foi imediata. O de aceitá-lo, pois acreditei nele mesmo sem estar muita informada sobre Henning Mankell. Foi uma espécie de empatia. Constatei que era uma pessoa sem arrogância e que sempre escutava as outras opiniões. Muitas vezes dizia: eu sou europeu mas vocês é que têm a alma africana, por isso, se vocês aprendem de mim, eu também aprendo de vocês e todos nós devemos dar o nosso contributo para o teatro.

Esta reciprocidade tornou o grupo mais forte. Os actores não eram profissionais, embora já tivessem a intenção de se assumir como o primeiro grupo profissional em Moçambique. Com esta nova estatura e com a direcção de Henning Mankell nasceu o grupo Mutumbela Gogo. No entanto, Henning nunca se assumiu como líder do grupo, afirmando sempre que a liderança estava ao cargo de Manuela Soeiro.

Henning chegou até nós sem saber uma palavra em português e nós sem saber nada de sueco. A comunicação era feita em francês, fazendo eu a tradução para os actores. Isto fez com que Henning prometesse que dentro de um ano falaria português. Promessa feita, promessa cumprida.

No seu posto, Henning nunca deixou de trabalhar, mesmo que tivesse outras ocupações. Ele programava tudo de tal forma que nunca deixou de comparecer no teatro, pautando sempre pela pontualidade. O que mais o inquietava era o atraso de um ou de outro actor, tendo algumas vezes de adiar as suas viagens por o trabalho não estar concluído conforme planeado.

Era uma pessoa solidária. Acompanhando sempre o Mutumbela Gogo, manteve a continuidade do grupo, ajudou a melhorar a sua qualidade e promoveu a sua participação além-fronteiras. Hoje, sem falsa modéstia, o Mutumbela Gogo tem brilhado dentro e fora do país e é já uma referência. O trabalho que apresenta é de qualidade. O actor é o centro, é nele que se deve investir e o trabalho de actor foi o ponto crucial para o sucesso do grupo.

Foto arquivo do Mutumbela GogoA sua contribuição para o teatro fez do Mutumbela Gogo uma escola de artes cénicas para o desenvolvimento do teatro em Moçambique.

Henning, amigo de causas justas, procurou sempre abordar as pessoas que se cruzavam no seu caminho. Em frente do café do Teatro Avenida, passavam as meninas que vendiam amendoim ou castanhas de caju, os jovens e outros transeuntes e ele sempre encetava uma conversa para saber da vida quotidiana deles. Este conhecimento inspirou-o a criar a peça “As teias de Maputo”, cuja canção de fundo era assim: “um dia vou conseguir…”

Era um defensor dos direitos humanos e da justiça, abominava a corrupção. Uma tragédia que o marcou sobremaneira foi o assassinato de Carlos Cardoso, um homem que lutou contra toda a forma de injustiça.

Quando instalou a aldeia SOS no Chimoio, as suas palavras eram de inclusão. Não só estariam ali albergadas crianças órfãs de guerra como também outras mais desfavorecidas. E que aquele centro poderia produzir futuros presidentes, bons atletas, engenheiros, operários tudo em prol do desenvolvimento do país.

Henning era isto e muito mais. Um homem com um refinado sentido de humor, alegre, interessante e que não perdia a oportunidade para acrescentar mais um ponto em qualquer história que lhe contavam. Assim, ele até se tornava “perigoso”. Com a sua fértil inspiração, ao escrever alguma experiência que escutava dos amigos, já tinha material para mais uma peça e acrescentar mais um ponto…

Henning é um manancial de surpresas. Sofia, esta menina que hoje é já uma mulher e mãe de 3 filhos, foi uma vítima de guerra que ficou sem as duas pernas. Henning sempre acompanhou de perto a Sofia, pagando os seus estudos até se tornar numa professora, construindo uma casa e umas pequenas lojas de costura, cabeleireiro e mercearia para seu auto-sustento.

A sua obra está patente num museu especial: o museu da vida.

Falar de Henning é uma coisa, conhecer Henning é uma dádiva.

Tive o privilégio de estar com Henning antes de morrer e ele disse que ia viver com a doença o resto da sua vida. Não vou morrer. Mas diga a todos que estão no meu coração para sempre.

 

* Carta escrita por Manuela Soeiro

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