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Venâncio Mbande, o “leão” da timbila
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Vida e Lazer - Cultura
Escrito por Reinaldo Luís Nhalivilo  em 15 Junho 2015
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Não há dúvidas de que ele nasceu para “brilhar”. Actualmente tem 83 anos de idade, mas toca e canta desde os sete. Conhece o mundo graças à sua arte encantadora de tocar timbila. Nasceu na província de Inhambane, no célebre distrito cultural de Zavala. Já orgulhou o país e hoje, como inúmeros artistas da nossa praça, é desgraçado. Porque nasceu em “Mbandene”, o seu apelido é Mbande e tem o nome de Venâncio.

A timbila é, desde 2005, obra-prima do património oral e imaterial da humanidade, mas para Venâncio o instrumento significa a sua infância, adolescência, juventude... É, na verdade, a sua vida. Mbande é um homem de poucas palavras, mas com o recurso à sua língua materna (chope) conseguimos impressioná-lo e, posteriormente, manter, por um período de tempo considerável, a nossa cavaqueira.

Há uns dias, em conversa, ele dizia-nos que não tinha uma visão funcional do destino da música tradicional e dos seus respectivos instrumentos. Ou seja, ainda falta a devida valorização da arte principalmente a considerada ultrapassada. O assustador, nessa afirmação, é que não é único da sua geração que tem este ponto de vista. Conheça a sua história.

@Verdade: Actualmente é um venerado mestre da timbila. Ao longo do seu percurso artístico não só honrou o nome de Moçambique, como também estimulou a valorização de um dos instrumentos tradicionais da nossa pátria. Quando e como começa a tocar?

Venâncio: É difícil falar do início da minha paixão pela timbila, pois já não me lembro de outras coisas. Mas vou fazer algum esforço: primeiro, aos sete anos de idade, comecei a cantar e a dançar Ngalanga. Todavia, a minha relação com a timbila começou na vizinha África do Sul, em 1948.

Incrivelmente, quando comecei a tocar, fazia-o com pessoas mais velhas. Era o únicopivetedo grupo. Aliás, um pouco antes, toquei durante muito tempo com um dos bons instrumentistas da província de Inhambane. O seu nome é Paúnde e nasceu na localidade de Phembe, em Homoíne.

@Verdade: Depois de ter descoberto a sua inquestionável capacidade de tocar timbila, certamente, recebeu vários convites para ensinar a arte e para tocar no estrangeiro. Conte-nos sobre essas experiências.

Venâncio: Realmente, a minha vida foi feita no estrangeiro. Depois de ter trabalhado com Paúnde fui admitido na empresa sul-africana de Merveille. Quando cheguei lá trabalhei como escrivão nas minas, mas, às vezes, senão sempre, tocava timbila às escondidas. Todavia, quando me descobriram, deram-me um espaço para aperfeiçoar e fabricar os instrumentos.

Volvido algum tempo, ainda na África do Sul, tornei-me “ídolo” de alguns brancos que, devido ao meu talento, me levaram para onde todos os moçambicanos viviam sempre que se deslocavam para Portugal. O local chama-se Coimbra.

Depois de ter actuado nas cidades portuguesas, passados alguns anos, foi levado pelos alemães para ir tocar timbila naquele país da Europa central. Então, depois da Alemanha, fui a Holanda fabricar nove instrumentos pedidos por um grupo de canto e dança local. Para além desses países, viajei também para Inglaterra.

@Verdade: Quem lhe ensinou a tocar timbila?

Venâncio: Incrivelmente, não tive alguém que me ensinasse a tocar timbila. Como já narrei no princípio da nossa conversa, a minha relação com a arte começa com a Ngalanga – uma dança típica da província de Inhambane, particularmente do povo chope. Então, devido às constantes actuações dos mais velhos nas vilas e domado pelo espírito de curiosidade, com o tempo aprendi a técnica. Tudo começou pelo simples prazer competitivo. Não queria ficar atrás.

@Verdade: Hoje é tido como um dos melhores timbileiros do nosso país. O que isso significa para si?

Venâncio: Por estranho que pareça, isso não significa nada para mim. É triste, mas é a verdade: Moçambique não me valoriza. Olha, quando deixei de trabalhar nas minas da África do Sul disseram-me que não devia voltar para lá porque eles iam tratar de todos os trâmites para que eu tivesse o dinheiro da indeminização aqui no país. De facto isso aconteceu, mas não me deram todo o dinheiro.

Agora, como artista, já nem falo. Continuo a tocar porque gosto do ofício. Em todo o mês de Agosto actuo no festival de M´saho, na vila de Zavala. Portanto, gostaria, não talvez por mim, mas por todos os que elevam o nome deste país, que se valorizasse mais a área artística. Não faz sentido que só tenhamos reconhecimento sempre que nos deslocamos ao estrangeiro, e o nosso país não nos respeita.

@Verdade: O que a timbila significa para si?

Venâncio: Seria mais fácil se te dissesse o meu estado de espírito quando não toco. Quando fico muito tempo longe da timbila o meu coração não se alegra. Quase que não palpita. Nunca fiquei e nunca pensei em ficar longe deste instrumento.

Comentários   

 
0 #1 carlos angelo 26-07-2015 15:59
olha não e objecto de admiração o que sempre tem acontecido no nosso belo moçambique, pois o mestre Venâncio tinha toda razão responder desta forma "não há valorização a nível interno", e k sempre esperamos do vizinho primeiro para dps cantarmos nos nossos órgãos de comunicação. Ate quando vamos parar com estas praticas.Entreg uemos ao dono aquilo k merece ainda vivo pq feliz morrera.
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