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“Sem legislação, o cinema moçambicano continuará inexpressivo”
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Vida e Lazer - Cultura
Escrito por Reinaldo Luís Nhalivilo  em 09 Outubro 2014
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Se por um lado, no que diz respeito à sétima arte, o público aponta para a falta de casas de cinema, a fraca produção e divulgação de obras cinematográficas como factores principais para que não haja o hábito de se assistir a filmes nacionais, por outro, os cineastas defendem que constituem a classe mais sofredora, pois, diariamente, têm enfrentado dificuldades relacionadas com a ausência de legislação relativa ao cinema em Moçambique, e com a falta de patrocínio e de liberdade de rodar as suas obras em qualquer artéria da cidade sem impedimentos.

Numa cavaqueira concedida pelo realizador moçambicano Diovargildo Chaúque, ao Jornal @Verdade, o cineasta fala dos obstáculos e das vitórias alcançadas para a afirmação do seu nome e do seu trabalho no seio artístico e na sociedade moçambicana. Com quatro anos de experiência e dois filmes no mercado – “Traços da Violência” e “O Provedor”, este último recentemente lançado em Maputo ?, o cineasta coloca-se como um mediador social. Aliás, o seu desafio é, através do cinema, consciencializar a sociedade, no geral, e a juventude, em particular. Acompanhe a conversa.

@Verdade: Ficou rapidamente conhecido pela sua ousadia e pelo inconformismo que carrega ao ponto de trazer para o cinema duas realidades moçambicanas com as obras “Traços da Violência” e “O Provedor”. Fale-nos da sua paixão pelo cinema...

Diovargildo Chaúque: A minha paixão pelo cinema surge na infância, quando na altura gostava de fotografias e de imagens em vídeos. Entretanto, volvido algum tempo, já crescido, decido dedicar-me a esta arte. Na verdade, a minha entrada no mundo cinematográfico não foi nada fácil, porque seguir a sétima arte em Moçambique é muito complicado. Mas, como já vinha apreciando esse ofício, tive de enfrentar o desafio. Queria mostrar que, mesmo no meio de tantas dificuldades, é possível fazer cinema em Moçambique.

Uma das razões que fizeram com que escolhesse as imagens para trabalhar, é o facto de querer apresentar uma produção virada para a consciencialização da sociedade. A escolha da sétima arte para me identificar aconteceu devido à facilidade que este instrumento tem de levar a informação à sociedade. Aliás, no cinema encontrei o instrumento essencial para a educação, pois as pessoas acreditam nos desenhos do realizador, de tal forma que, ao acompanharem uma determinada história, ficam conotadas. Embora não tenha tido uma formação técnica nessa área, nunca me senti incapaz de seguir os meus sonhos.

Ao longo da minha experiência, fiz várias capacitações de curta duração dirigidas pela Associação Moçambicana dos Cineastas (AMOCINE) e pelo Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema (INAC), na perspectiva de ter uma visão ampla em relação à realização cinematográfica, sem, no entanto, excluir as investigações e leituras sobre o cinema mundial.

@Verdade: Como é que tem avaliado o seu trabalho, no que concerne à aceitação do público, uma vez que versa sobre assuntos menos discutidas na sociedade?

Diovargildo Chaúque: Os meus filmes são de natureza didáctica. E, mesmo ainda com sobressaltos, acredito que as pessoas recebem as mensagens e reflectem em torno dos respectivos problemas, que lhes apresento através do cinema.

@Verdade: Alertou-nos sobre os possíveis constrangimentos que dificultam a afirmação de muitos jovens no cinema. Que obstáculos existem nesta área?

Diovargildo Chaúque: Quando um jovem da minha faixa etária decide entrar no cinema é logo desacreditado, devido à complexidade da área. E pior ainda numa sociedade em que o artista é marginalizado. Diferentemente das obras literárias que podem ser impressas a 100 mil meticais ou menos, um filme precisa de muito mais. E, para além do exorbitante custo para a produção, também temos a questão da confiança, que muitas vezes confundimos com a exclusão. Mas, a verdade é que ninguém nos dá fundos antes de saber o que valemos. O outro problema relaciona-se com o acesso à via pública para rodar o trabalho. Reservar e ter um espaço para o feito é muito difícil, senão impossível.

@Verdade: Diversos amantes da sétima arte têm reclamado a falta de salas de cinema no país, a fraca produção e a divulgação dos trabalhos cinematográficos feitos em Moçambique, razão pela qual, poucos tem acesso a estes produtos. Como realizador, que estratégias usa para atingir o seu público-alvo?

Diovargildo Chaúque: É injusto para nós como realizadores, como também para qualquer um, obrigar os moçambicanos a consumirem os filmes nacionais. Aliás, para que isso aconteça é necessário que as nossas televisões, com obrigação para as públicas, exibam esses trabalhos, no sentido de publicitarem as obras. Outro aspecto tem a ver com a falta de editoras no país, que possam reproduzi-los legalmente. É, de facto, lamentável que todo o Moçambique dependa de uma única organização que se chama “Olá África”. E, por isso, ainda não estamos em altura de escolher a qualidade dos nossos trabalhos. Conformámo-nos com os serviços que eles nos prestam sem possibilidades de escolha. Neste caso, devido a esses problemas, ainda é difícil que os moçambicanos consumam produtos feitos pelos filhos da casa.

@Verdade: Como é que foi a sua afirmação nas artes face a estas dificuldades?

Diovargildo Chaúque: Eu sou da opinião de que quando nós traçamos os nossos planos, fazemos de tudo para concretizá-los. Escolhi as artes porque confiava e ainda confio nelas, concretamente no cinema, talvez por ser um dos instrumentos que pode transformar uma sociedade.

@Verdade: Em algum momento, os cineastas têm denunciado uma certa apatia de quem de direito, quando pretendem ocupar uma rua para rodarem os seus filmes. Conta-nos como é que foi a experiência nos seus dois trabalhos.

Diovargildo Chaúque: Sem legislação, Moçambique continuará inexpressivo no cinema. Digo isso porque, para além das condições miseráveis que nós, os cineastas, somos obrigados a aceitar, falta-nos uma lei que nos proteja. Um outro problema, se calhar menos discutido, tem a ver com a proibição do uso de objectos pirotécnicos.

Mas como é que a cinematografia moçambicana se vai desenvolver se existem essas barreiras que, de uma ou de outra forma, limitam a criatividade? Para mim, isso é mau e constrangedor, tal como acontece quando se pede para se bloquear a rua para se dar espaço a uma filmagem.

É-nos sempre exigido dinheiro que chega aos mil meticais por hora. Mas, o mais ridículo é que quando há casamentos nos quarteirões dos bairros suburbanos fecham as ruas sem nenhum problema. Por essa razão, às vezes, os cineastas são obrigados a contrariarem as leis para realizarem as suas actividades sem a permissão do pessoal do município.

@Verdade: Que género cinematográfico está patente nos seus filmes?

Diovargildo Chaúque: É engraçado, mas não sei que género adopto nas minhas obras. Por acaso, mesmo os estudantes de cinema do Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC), já tentaram avaliar os filmes. Não se sabe se é ficção, documentário ou mesmo um novo estilo desconhecido. Mas o primeiro trabalho é uma ficção, e versa sobre a violência doméstica e os problemas derivados da mesma na educação das crianças.

Como é sabido, a componente da violência familiar contribui para que o ensino dos petizes não seja o desejado. Isto é, se a criança vive num ambiente de conflitos familiares, gerados pelos seus progenitores, irmãos, tios, automaticamente, esse clima influenciará negativamente o seu comportamento. Então é preciso que construamos um meio familiar calmo. O filme é uma longa-metragem e chama-se “Traços da Violência”.

Fi-lo com o propósito de mostrar até que ponto as cicatrizes do passado podem afectar a vida de alguém no futuro. No entanto, o outro filme, recentemente lançado, é uma curta-metragem e chama-se “O Provedor”. Este trabalho apresenta dois géneros cinematográficos – a ficção e o documentário. A obra retrata questões relacionadas com o consumo excessivo de bebidas alcoólicas por parte da juventude. Com o trabalho mostramos que algumas das doenças que “minam” a classe juvenil provêm da ingestão exagerada de estupefacientes.

E o cómico no “O Provedor” é que surge como uma predestinação na vida dos actores que fizeram parte do filme. O lamentável é que, após a rodagem do filme, um dos artistas que exerciam a função de provedor veio a perder a vida. Segundo contaram, os médicos diagnosticaram excesso de álcool no organismo. E isso demostra que essa substância é um veneno subtil que corrói fibra por fibra.

@Verdade: Actualmente, que planos tem por concretizar?

Diovargildo Chaúque: Estou neste momento a trabalhar num novo filme de longa-metragem intitulado “Estudante”. Com essa obra descrevo os problemas que os estudantes passam nas academias: Os confrontos com os docentes e as injustiças a que essa classe estudantil é sujeita. Numa outra abordagem, procuro mostrar o quotidiano dos estudantes nas residências universitárias.

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