Faixa publicitária
Nildo Issá: o cineasta em ascensão
PDF
Versão para impressão
Enviar por E-mail
Vida e Lazer - Cultura
Escrito por Reinaldo Luís Nhalivilo  em 26 Junho 2014
Share/Save/Bookmark

O cineasta e arquitecto moçambicano, Nildo Issá, foi nomeado, recentemente, ao concorrer com o filme de animação “Os pestinhas e o ladrão de brinquedos”, produzido pela FX, Lda., para o prémio Melhor Animação Africana de 2014, entre os cinco finalistas do Africa Movie Academy Awards (AMAA), realizado na África do Sul. Com menos de cinco anos na área, Nildo Issá considera-se um realizador solitário que se encontra numa fase de ascensão, pois a obra é a sua primeira e única (até agora) no sector da sétima arte. Acompanhe a conversa que foi mantida com o criador.

@Verdade: Quando surge a sua paixão pela sétima arte?

 

Nildo Issá: Desde sempre, a sétima arte é a minha grande paixão. Possivelmente, ela tenha surgido na minha infância, pois, na época, prezava os desenhos animados. Depois de concluir o ensino secundário geral, quis seguir uma área relacionada com a produção audiovisual, o que não foi possível porque, na altura, não havia em Moçambique.

Acabei por optar pela arquitectura. Recorrendo a programas específicos, aprendi a trabalhar com o design gráfico, introduzindo-me, assim, na animação visual. Em 1996, comecei a estudar arquitectura, curso a partir do qual passei a dedicar-me, nos tempos livres, à modelação prestando serviços a empresas que operam em Moçambique. Com o tempo passei a usar os mesmos programas para animar desenhos.

Confesso que foi um processo longo e difícil. Porém, 14 anos depois, em nome da FX, comecei a produzir alguns spots publicitários para a Save The Children e o Arroz Ngonhama. No decurso do tempo sempre tive a Internet como uma espécie de professor. A dada altura, começámos a pensar em desenvolver projectos de longa-metragem, mas a falta de dinheiro obstava a iniciativa.

@Verdade: Além da falta de dinheiro, que dificuldades enfrentou para se afirmar na área da animação audiovisual?

Nildo Issá: Aqui tudo é válido, mas o dinheiro é que conta mais porque determina a compra ou não de um determinado equipamento para se trabalhar. Porém, além deste factor, a maior dificuldade é a falta de pessoas, no país, que se dedicam à animação. Não vejo ninguém com quem possa trabalhar e trocar experiências. O pior é que, no sector do cinema moçambicano, não conheço ninguém. Muitas vezes, tenho-me debatido com a inexistência de especialistas a fim de conversar sobre aspectos técnicos ligados à área.

@Verdade: Disse que se ressente da falta intercâmbio de experiências. Que mais-valias tem tido nos encontros realizados na AMOCINE?

Nildo Issá: Por várias vezes, já tentámos unir-nos a outros cineastas moçambicanos, mas foi em vão. Acho que eles não estão organizados. Então, à partida, essa aliança não seria saudável.

@Verdade: A preferência pela animação aconteceu devido à sua paixão ou à falta de concorrência nessa área?

Nildo Issá: Eu acho que é por paixão. A animação dá mais abertura. Há certas coisas que, com a câmara, é quase impossível fazer mas na área de animação é fácil. Em tudo há vantagens e desvantagens. A primazia para a criação da animação é movida pela independência em vários factores: não dependo da luz do dia, da temperatura e da disponibilidade da equipa. A minha concentração e a vontade de trabalhar são suficientes.

A nomeação e as insatisfações

@Verdade: Quando é que foi realizado o filme “Os pestinhas e o ladrão de brinquedos”?

Nildo Issá: O filme foi concluído em Maio de 2013, tendo sido apresentado, em estreia, no Fórum do Cinema de Curta-Metragem de Moçambique – KUGOMA. A partir daí, recebemos a orientação de que poderíamos mandar o filme para ser exibido em vários países. Enviámos a obra a festivais realizados em Veneza, Portugal, Roma, Espanha entre outros lugares onde foi exibido. Sob a mesma orientação, enviámos o filme para a África do Sul a fim de colocá-lo a disputar a nomeação na categoria de Animação da Africa Move Academy Awards (AMAA).

Dois meses depois, recebemos a informação de que o trabalho havia sido seleccionado para a Melhor Animação Africana. Nessa designação e na de Melhor Filme participava Moçambique, em meu nome, Burkina Faso, Nigéria e África do Sul. Moçambique, através desse filme, foi nomeado na categoria de Melhor Animação Africana, mas acho que não foi justo porque a obra que conquistou o prémio de Melhor Filme foi sul-africano.

Há várias razões para discordar dessa nomeação: o referido filme é uma longa-metragem; foi uma grande produção em que se gastou cerca de 20 milhões de dólares; por isso, não faz sentido uma produção destas competir com filmes que nem gastaram a terça parte do seu orçamento. Sem contar que o referido filme teve um elenco de luxo. Devia haver mais categorias para se avaliarem os filmes com essas características. Mas, mesmo com esse descontentamento, a experiência foi agradável, sobretudo, porque, com a nossa obra, já se sabe que Moçambique tem algo para dar ao mundo.

@Verdade: Depois dessa nomeação quais sãos os seus planos para o futuro?

Nildo Issá: Dá-nos alguma vontade de continuar a realizar mais animação. Já pensámos em fazer uma longa-metragem. Conhecemos os desafios, mas achamos que vale a pena trabalhar. A avaliar pela experiência que tivemos na produção de “Os pestinhas”, já temos em mente as necessidades e os esforços que teremos no novo projecto – o tempo e os custos. O filme “Os pestinhas e o ladrão de brinquedos” ajudou-nos a perceber a produção de animação como um processo.

@Verdade: Como foi fazer a animação em “Os pestinhas e o ladrão de brinquedos” num país que consome mais produtos estrangeiros?

Nildo Issá: Quando fizemos o nosso projecto não tínhamos a intenção de competir com produtos europeus, americanos, ou de outros continentes. O nosso trabalho é completamente diferente. Possui mensagens e formas criativas distintas. Se tivéssemos a mesma orientação a nível de patrocínio, “Os pestinhas” seriam o melhor filme do mundo.

@Verdade: Que mensagens pretende transmitir com “Os pestinhas e o ladrão de brinquedos”?

Nildo Issá: Escolhemos três personagens – Lili, Minhocas e Zé Gordo – por uma única razão: no início, criámos um personagem que era uma menina, a Lili, mas ela não podia estar sozinha, então, geramos mais dois que deviam representar classes sociais distintas. A Lili representa a classe alta. O Minhocas representa a classe social média e o Zé Gordo é originário da classe social baixa.

Então, com essa divisão, queríamos mostrar que as diferenças sociais não interferem nas amizades. O que acontece é que os empregados domésticos da casa da rapariga são os pais do Zé Gordo. O Minhocas é seu vizinho. Então o Minhocas tem pais universitários e ele, influenciado pelo ambiente de estudiosos, tenta desenvolver as suas capacidades fazendo inovações. Nas passagens do filme protagonizadas por Minhocas, a partir das suas acções, embora sempre erradas, queremos incentivar as pessoas para que nunca desistam dos seus planos e sonhos. A outra parte do filme ilustra factos relacionados com o rapto de menores.

Quando um dos “filhos” – em formato de boneco – de “Os pestinhas” é sequestrado pelo ladrão da zona, cabe a estes recuperá-lo até que, a certo ponto, se apercebem de que afinal este ladrão tem outros brinquedos com planos de os revender. Então, tentamos trazer, de uma forma menos pesada, usando brincadeiras de crianças, assuntos sérios que nos divertem mas também nos convidam a reflectir sobre os problemas sociais.

@Verdade: Como foi recebida a nomeação no país, uma vez que não só exaltou o seu nome, mas também o substantivo da pátria?

Nildo Issá: Tivemos várias pessoas mais próximas que nos apoiaram bastante. Tivemos congratulações no Facebook e em vários outros meios.

@Verdade: Para além das felicitações particulares o que o país, em nome da AMOCINE, do INAC e do Ministério da Cultura fizeram perante a nomeação?

Nildo Issá: Sinceramente não sei se o Ministério da Cultura sabe de alguma coisa sobre FX e acerca do nosso trabalho. Muitas pessoas não entendem que a animação é um processo longo. Para falar a verdade, nenhum Ministério nos recebeu. Talvez, agora, as pessoas possam ver o quanto o nosso trabalho significa para Moçambique. Fora das felicitações, que nunca esperei, há uma coisa marcante que me aconteceu: Certa vez, fui ao Cinema Lusomundo e levei comigo “Os pestinhas”.

Chegado lá, pedi para que exibissem o filme antes da série programada para o dia, pois só tem 12 minutos de duração. Para a minha tristeza, a pessoa que me recebeu, depois de me felicitar pela obra, dispensou-a, supostamente, porque as pessoas não iam gostar. Fiquei muito desapontado. Era a única sala de cinema que tinha exibições e nunca esperei por uma resposta daquelas. Essa foi uma das maiores dificuldades que tive.

@Verdade: Que perspectivas tem com o projecto “Os pestinhas”?

Nildo Issá: Estamos a fazer uma longa-metragem cujo texto ainda está na fase de elaboração. Então queríamos também que “Os pestinhas” criassem o mesmo impacto na sociedade como os bonecos “Tom and Jerry”. Queremos que as pessoas, em particular as crianças, aprendam algo com estes desenhos animados.

Comentar


Código de segurança
Atualizar

 
Avaliação: / 1
FracoBom