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Capoeira: dança ou luta?
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Vida e Lazer - Cultura
Escrito por Redação  em 10 Outubro 2013 (Actualizado em 16 Outubro 2013)

No passado, a falta de paz e de tranquilidade moveu algumas comunidades a criar formas de entretenimento que contribuíssem para a sua autodefesa. Na verdade, elas camuflavam a luta em certas danças. A capoeira é uma delas. Qual é, então, a sua origem?

A maior parte dos praticantes da capoeira é originária de Angola e do Brasil, locais onde esta arte-dança é um instrumento de luta pela autodefesa, segurança e liberdade. Nos dias actuais, a capoeira é praticada em vários países de todo o mundo. Ela foi espalhada pela terra com o propósito especial de preservar a tradição de uma acção secular que, em grande parte, contribuiu para liberdade do povo brasileiro da opressão e da escravatura do sistema colonial.

Nesse bailado, ninguém fica de fora. Todos – crianças, homens e mulheres – praticam a capoeira. Ou seja, porque acreditam que esta manifestações desportiva e artístico-cultural é também terapêutica, beneficiando quem a pratica. Na verdade, a capoeira é originária de África, mas ganhou grande popularidade no Brasil em resultado das condições em que os escravos viviam no contexto colonial que – muitas vezes – concorriam para que perdessem a vida.

Nessa vertente, a cultura africana sofreu mutações perante a actual realidade. E daí surge a capoeira, uma luta em forma de dança que tornou realidade a utopia da liberdade. Nesse sentido os povos oriundos dos Quilombos do Brasil, que eram obrigados a trabalhar na agricultura – com destaque para os canaviais e a mineração – equiparam-se, disfarçando as tácticas guerreiras na dança a fim de aperfeiçoarem o estilo e, consequentemente, criando as bases para lutarem contra a opressão colonial. A abolição da escravatura, em Maio de 1888, muitas vezes, associa-se aos êxitos da capoeira.

A luta

A capoeira é uma luta de defesa e ataque mortífero. Os seus praticantes usam como – ferramentas de ataque – os pés e a cabeça, tornando os golpes mais rápidos, calculados e fatais. As mãos também são usadas para o ataque e a defesa. Durante as actuações, os capoeiristas apresentam-se descalços e vestidos de branco, sendo que, segundo Melquisedeque Sacramento Santos, contramestre de capoeira, os pés descalços retratam a realidade antiga e a vestimenta branca a paz e a liberdade.

Por outro lado, Melquisedeque afirma que alguns capoeiristas usam o verde – que na simbologia moçambicana significa esperança – incluindo o branco, a cor predominante, desde os primórdios desta dança-arte, para explicar que é desse branco que os escravos que viviam nos quilombos precisavam. O contramestre Santos explica que, em tempos idos, a capoeira era praticada em espaços abertos visando um melhor espaço de manobra. A experiência favoreceu muito as vitórias do oprimidos contra os seus opressos, sobretudo porque a luta, em si, era desconhecida pelo inimigo.

Santos explica que o termo capoeira associa-se ao facto de que os escravos que o praticavam se deslocavam das zonas rurais, onde se encontravam as grandes plantações, para o centro da cidade trazendo galinhas dentro de gaiolas para vender. Nesse sentido, sempre que se divertissem, os citadinos apreciavam aquela manifestação artística e chamavam-na “a brincadeira dos capoeiristas”.

Com o passar dos anos, a prática foi transmitida através de gerações que passaram a chamá-la capoeira e capoeirista quem a realiza. Desde então, os senhores das terras proibiram a prática dessa luta entre os escravos, instalando a pressão da polícia imperial e milícia para controlar e sancionar os seus fazedores. A partir daí, na tentativa de ganhar a liberdade a qualquer custo, os negros dissimularam a capoeira colocando mímicas e bailados acompanhados de músicas, em ritmos de danças tradicionais.

Quando os senhores das terras passavam pelos acampamentos dos negros, a “brincar capoeira”, batiam palmas apreciando a suposta dança, não se apercebendo, no entanto, que se estava a praticar a proibida capoeira. Foi assim que a capoeira emocionou, libertou e conquistou praticantes sobrevivendo até os dias actuais.

O que mais se sabe sobre a capoeira?

Na verdade, a capoeira é uma junção de danças tipicamente africanas como, por exemplo, o Xigubo e a Ngalanga, que foram modificados em gestos e golpes violentos. Por isso, ela é também uma forma de luta muito violenta. Contudo, Santos prefere dizer que a capoeira é um diálogo de corpos em que – enquanto se disputa – só se vence quando o parceiro já não tem respostas para as perguntas do seu dialogante. Ou seja, cada gesto feito dentro do círculo é uma fala corporal, e, à medida que um projecta os pontapés, é obrigatório que o outro retribua.

O jogo da capoeira, na forma cordial – ou dentro da roda – é verdadeiramente um diálogo de corpos. Os dois capoeiristas partem do “pé” do berimbau e iniciam um lento balé de perguntas e respostas corporais, até que um terceiro corte o jogo para que sucessivamente se desenvolva até que todos entrem na roda.

O ritmo

A capoeira é a única modalidade de luta marcial que se faz acompanhada por instrumentos musicais. A prática deve-se, basicamente, às suas origens africanas, com maior influência para as danças tradicionais que dessa forma disfarçavam a peleja numa espécie de manifestação cultural, enganando os senhores de terras e os capitães-do-mato.

No início, esse acompanhamento era feito apenas com palmas e toques de tambores. Depois foi introduzido o berimbau, instrumento composto por uma haste cruzada por um arame, tendo por baixo uma caixa de ressonância feita de uma ‘cabaça’ cortada. O som é obtido percutindo-se uma haste no arame. Este instrumento era usado, inicialmente, por vendedores ambulantes para atraírem fregueses e mais tarde tornou-se uma ferramenta simbólica da capoeira, conduzindo o jogo no seu próprio timbre. Os ritmos são em compasso duplo e os movimentos são rápidos e moderados no mesmo tom do berimbau.

Para uma boa performance, o conjunto rítmico é composto por três berimbaus – um grave chamado Gunga, um médio e um agudo chamado Viola, dois Pandeiros, um Reco-reco, um Agogó e um Atabaque. A música tem ritmos que são cantados e repetidos em coro por todos os artistas na roda. Um bom capoeirista tem a obrigação de conhecer todos os instrumentos utilizados na dança.

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