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Como será o amor no futuro?
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Vida e Lazer - Cultura
Escrito por Inocêncio Albino  em 04 Julho 2013
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Em La Luna Blanca, a obra teatral do Grupo Gumula, Flávio Mabote e Elso Xirinda, que representam um casal, travam um debate em torno de uma relação conjugal que experimenta uma crise ao longo do tempo. Partindo da migração das relações humanas para a Internet – como resultado do desenvolvimento tecnológico – os actores formulam uma questão séria. Como será amar no futuro? No entanto, ainda que se desenvolvam, as nossas sociedades mantêm-se tradicionais e machistas. Como o novo olha para o velho? Na intriga, este é um ponto de partida.

A questão sobre como os jovens encaram os idosos, mesmo quando se trata dos seus pais, na nossa sociedade é premente. Aqueles são entidades que, dada a sua idade, muitas vezes são ignorados e acusados de práticas que lhes valem o abandono dos seus próximos, o que, em nenhum momento, lhes retira valor como pessoas.

“Já dizia o meu velho pai – ‘o que o homem trança, o rio destrança’. Na verdade, eu nunca percebi o significado daquela frase. A única coisa que sei é que ele sempre insistia que ‘meus filhos, o que vocês fazem hoje irá reflectir-se na vossa vida amanhã”.

Como a peça mostra, há incompreensões na comunicação entre pessoas de gerações diferentes. Porque é que os idosos não são compreendidos pelos jovens? Quais são os impactos disso? “Ele era um velho de merda e inconsequente. Metido a conselheiro. Vivia a bisbilhotar a vida alheia. Tinha cinco esposas. A nossa casa mais parecia uma aldeia. As crianças geometrizavam o pátio da residência em diversões infantis”.

Tradicionalista, machista ou polígamo – se é que existem outros adjectivos que se podem atribuir ao idoso de que se fala – a verdade é que ele era rigoroso. É como diz Flávio Mabote, que interpreta a personagem Chiconela, se recorda do pai. “Dizia ele que as regras - sejam elas quais forem – foram feitas para serem cumpridas”. É importante notar, aqui, que os conceitos da vida sexual do seu pai acabam por ser, como Chiconela refere, uma das suas inspirações.

“O homem que se quer macho não pode dar nem receber carinhos em público. Os namoros são assuntos privados. Por isso, jamais dediquei flores a alguém. (...) Meu filho, faz amor sempre, mas nunca deves dormir com mulheres. Isso é uma intimidade maior e não é fazer amor. (...) É por isso que, à noite, eu puxo a minha esteira e deito-me na sala. Eu nunca dormi com mulheres, mas sim dormia em mulheres”.

Tal pai, tal filho

Em cena, Chiconela, que segue o exemplo do pai, explica que “não quero morrer antes de possuir a centésima mulher. É por isso que, com todas as minhas amantes, faço amor na mesma cama e sobre o mesmo lençol para não perder o número”.

De qualquer modo, apesar da morte do seu pai, em certo sentido, Chiconela acaba por ser um instrumento de manutenção da poligamia, num outro espaço social e em moldes sofisticados. Ou seja, como “o tempo e a vida não param, cá estou eu a seguir os caminhos do meu pai, descobrindo as mulheres com todo o seu carisma”.

Entretanto, se o modo como os namorados – por um lado, em sociedades tradicionais, se conheciam através de fotografias enviadas por intermédio dos familiares e, por outro, por meio de contactos presenciais, ou de conversas em plataformas online, por exemplo – instauravam as relações diferem de época para época e de tempos para tempos, que dizer do conceito de amor? O tópico alimenta a intriga entre ambos, um dizendo que se trata de sexo enquanto outro afirma o contrário.

Amor em (mutações e) crises

Num mundo materialista e materializante, como o nosso, até que ponto o amor continuará a sustentar as relações humanas?

Ou seja, “olhando para as transformações tecnológicas – que o mundo experimenta – o que será do amor daqui a 10 mil anos?

Como será amar no futuro?” Eles pensam que no tempo vindouro, “o amor será uma experiência de interacção audiovisual na Internet, em que as pessoas vão enviar beijos e carinhos uns aos outros virtualmente”.

Num diálogo similar ao que se segue – em jeito de profecia – os actores esculpem a miniatura das relações humanas, nesse futuro.

- Sabes, durante as minhas visualizações, tu foste a melhor conexão.

- Eu também, na primeira vez que te vi, percebi que tu eras um homem 3D. Por isso, não precisei de óculos. E quando não te encontro, sinto muitas saudades, por isso, imediatamente, faço um ‘search’ de ti para juntos interagirmos na minha sala de bate-papo.

Um aspecto a ter em conta é que, em resultado dessa dinâmica, os actores concordam com o facto de que, constantemente, “nesse tempo, as pessoas vão andar com cabos ‘USB’ para se conectarem aos seus amados sempre que os encontrarem”.

No entanto, ainda que, na explicação da peça, isso seja o desejado pelas pessoas, elas sentem-se sufocadas nessas relações.

- Olha, se estamos aqui, é porque tu quiseste. Eu, apenas, tentei satisfazer as tuas vontades.

- Sabe, esse é o teu problema. Tu sempre fazes o que eu peço. É isso o que eu não quero. Estou farta. Até parece que eu sou a única pessoa que está a lutar para manter este casamento.

- Como assim? Eu também faço o mesmo para manter os nossos laços matrimoniais, submetendo-me às tuas loucuras.

- Que loucuras?

- Então, tu achas normal fazer sexo no cemitério, nas campas e nos bancos de socorro do hospital? Mas eu fiz tudo isso em nome do amor e da magnífica família.

É assim que, em certo sentido, os actores criticam a constante perda de valores morais – associada ao desenvolvimento da tecnologia, bem como a sua má utilização – na sociedade.

Entretanto, se por um lado, provavelmente, por insuficiência de tempo, em certas passagens da peça, percebeu-se que os actores estavam a ler o texto – o que retirou a fluidez e a naturalidade da situação narrada –, dada a relevância da obra, o Grupo Teatral Gumula devia rodar a sua La Luna Blanca, a fim de maturarem a sua experiência teatral.

Refira-se que esta obra foi encenada pelo dramaturgo moçambicano Adriano Cossa. O grupo, que existe há 16 anos, é constituído por Fabíola Maposse, Nacy Dausse, Elso Xirinda e Flávio Mabote.

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