Faixa publicitária
Oi Titio Ecologista
PDF
Versão para impressão
Enviar por E-mail
Vida e Lazer - Cultura
Escrito por Hélder Xavier  em 24 Junho 2011 (Actualizado em 25 Junho 2011)
Share/Save/Bookmark

É redactor e poeta, mas o seu lado mais visível cá entre nós é o de desenhista e escritor de banda desenhada – uma paixão que alimenta desde pequeno. Nas suas histórias em quadrinhos estão sempre presentes os assuntos ecológicos, históricos e culturais mesclados de humor e poesia. Recentemente, lançou a sua primeira revista em quadrinhos colorida “Oi! O Tucano Ecologista - Aquecimento Global”. Assim é, em palavras sucintas, Fernando Rebouças, autor das personagens da turma “Oi! O Tucano Ecologista” cujas tiras são publicadas semanalmente no Jornal @Verdade.

O desenhista e escritor de banda desenhada Fernando Rebouças nasceu na cidade de Niterói, estado do Rio de Janeiro, Brasil, e desde pequeno nutre uma paixão pelas histórias em quadrinhos. Recebeu muitos “não” das editoras, mas nem por isso desistiu dos seus sonhos, até porque, acredita, “na vida tudo tem uma raiz, todos os caminhos um dia nos levarão aos frutos que batalhamos para colher”.

Formado em Propaganda e Marketing – actualmente a concluir a pós-graduação em Produção Editorial –, a arte tornou-se profissão ao lado de outras suas actividades. Aliás, o autor do personagem “Oi! O Tucano Ecologista” é também redactor, media social e poeta.

Além de banda desenhada, Rebouças gosta de literatura brasileira e tem como poetas brasileiros preferidos Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Vinícius de Moraes (um dos autores de Garota de Ipanema), e não só. Também leu bastantes clássicos em prosa brasileira como Machado de Assis, Arthur Azevedo, Jorge Amado; e actuais como Luís Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura. Na portuguesa, o desenhista e escritor admira Fernando Pessoa e Eça de Queirós.

Os escritores não lusófonos, Rebouças aprecia o autor checo de clássicos surrealistas Franz Kafka. Mas, de maneira geral, lê um pouco de tudo: de quadrinhos a poesia, prosa a livros de publicidade. “Sempre que tenho tempo leio textos de Mia Couto na Internet, o autor moçambicano mais conhecido no Brasil”, afirma.

As variações linguísticas entre os países lusófonos surpreendem o desenhista. No Brasil, a banda desenhada ou história em quadrinhos (HQ) é denominada histórias em quadrinhos ou nona arte. “Mais engraçado é saber que em Portugal eles chamam de banda desenhada. A primeira vez que ouvi esse termo imaginei uma banda de rock tocando quadradinhos”, comenta.

@V - Como e quando surge o interesse em escrever histórias em quadrinhos? Este era o seu sonho de criança? Fernando Rebouças

(FR) - Desenho desde criança. Até aos 17 anos de idade, eu desenhava de tudo: Fórmula 1, carros, futebol, bichos, quadrinhos, rostos, mas, aos poucos, os meus quadrinhos autorais e os cartoons tornaram-se a minha criação principal.

Criei as minhas personagens ainda na minha infância, a turma do “Oi! O Tucano Ecologista” cresceu comigo. Sempre gostei de escrever e desenhar ao mesmo tempo, e o quadrinho é a única arte que me permite essa possibilidade. Desde pequeno já gostava de ler quadrinhos brasileiros e norte-americanos, assistia ao desenho animado o dia todo, mas sem atrapalhar os estudos.

@V - As personagens da turma do “Oi! O Tucano Ecologista” foram por si criadas? Como surge a ideia de formar essa turma e qual era o objectivo?

FR - Sim, todas as personagens foram criadas por mim na minha infância e no decorrer dos anos, sou o autor das imagens e dos textos. Ainda na adolescência fui responsável pelo meu próprio registo autoral e, aos 19 anos de idade, já estava a assinar contrato com a primeira editora que publicou o meu primeiro álbum “Oi! O Tucano Ecologista e sua turma”.

O objectivo natural da minha obra é oferecer ao leitor histórias ecológicas e culturais, com humor e poesia, a ecologia é uma ciência muito importante, mas ainda chata para os jovens e para o mundo consumista que ainda degrada o nosso planeta, é importante que temas ecológicos sejam escritos e desenhados de maneira criativa e atraente.

Quando comecei a desenhar, poucos falavam sobre ecologia, actualmente, perante as urgências ecológicas, até o Super-Homem quer ser ecologista. Além de uma necessidade, a ecologia virou moda. Precisamos de nos protegermos dos modismos “verdes”, por isso busco a verdade nas minhas criações.

@V - Já lançou vários livros em quadrinhos. Qual deles marcou a sua carreira?

FR - Em 2000, consegui publicar o meu primeiro álbum com 88 páginas, “Oi! O Tucano Ecologista e sua turma”, numa editora virtual que imprime e vende sob demanda via Internet, porém, apesar de vários livros prontos guardados na gaveta e diversas editoras dizendo-me “Não”, esperei por dez anos para publicar mais dois livros, em 2010, noutra editora virtual que lançou “Oi! O Tucano Ecologista - Mico na Mata Atlântica” (desenhado em 2000); e “Oi! O Tucano Ecologista - No Mundo da Biodiversão” (desenhado em 2004), todos com conteúdo impresso em preto e branco.

Antes de 2000, eu já preparava as minhas histórias e personagens profissionalmente e, entre 2000 e 2010, passei todo o tempo fazendo o que continuo a fazer: publicando tiras em revistas, jornais e no meu site (www.oiarte.com). Não existe um livro marcante, cada obra possui a sua especialidade, marcante é o suor na minha mesa de trabalho.

@V – Recentemente, lançou a sua primeira revista em quadrinhos colorida “Oi! O Tucano Ecologista - Aquecimento Global”. O surgimento desta publicação foi algo simbólico, maduramente pensado ou resultou de um outro factor?

FR - Na minha infância, quando ainda iniciava e aprimorava as minhas personagens, a cada ano eu fazia gibis (pequenas revistas) artesanais do “Oi!” com exemplar único feito totalmente à mão, num sonho de um dia publicar o meu próprio gibi.

Já como profissional, em paralelo com os livros, desenvolvi os meus projectos de gibis coloridos com desenhos e textos actuais. Recebi o “não” de muitas editoras grandes aqui do Brasil, editoras que preferem publicar os autores tradicionais ou os estrangeiros norte-americanos. As editoras e parceiros que me aceitavam não tinham capital para executar o projecto.

A partir deste ano de 2011, com muito esforço realizei um outro sonho de infância: organizar um selo editorial independente. Desenvolvi as histórias, decidi a linha de temas, pesquisei as condições gráficas e consegui lançar o meu primeiro gibi colorido da turma do “Oi! O Tucano Ecologista” que estou a vender no meu próprio site e em livrarias especializadas das cidades do Rio de Janeiro e Niterói. Para compras feitas fora do Brasil, é necessário escrever para oia[email protected] .

@V - O que pretende com esta nova obra?

FR - O meu objectivo com a “revistinha” n°01 é iniciar e manter uma série de revistas independentes com a estratégia de se posicionar na Internet e em pontos de vendas diferenciados como livrarias especializadas que apoiam os independentes. Ser um veículo de publicação própria, sem depender somente das grandes editoras. Uma revista colorida que ofereça boas histórias com bom humor e boa arte.

@V – Além desta revista, está a preparar outros projectos?

FR - Inicialmente, a revista pretende ter a periodicidade quadrimestral ou semestral. O número dois já está a ser preparado, porém o projecto é feito sem patrocínios. Não sou rico, mas tenho batalhado pelas condições. Ainda pretendo lançar novos livros no formato álbum e manter o meu site que recebe visitantes de vários países do mundo, incluindo a China.

@V - A preocupação com o ecossistema tem sido o tema central nas suas tiras semanais publicadas no Jornal @Verdade. É por alguma razão específica?

FR - Numa visão geral, assuntos ecológicos, históricos e culturais estão presentes nas histórias do “Oi! O Tucano Ecologista”, diferente do que ocorre nos livros, nas tiras que publico na imprensa, o espaço é menor e a mensagem tende para o conteúdo de humor e de consciência rápida.

Acredito que, quando falamos em ecossistema, pensamos em várias comunidades de animais, plantas e espécies de outros reinos (biocenose), onde um depende ou influencia o outro sobre determinado ambiente formado por estruturas não vivas como a areia e as pedras (biótopo).

Uma floresta é um conjunto de ecossistemas, portanto quando falamos numa espécie de animal, por exemplo, estamos a referir-nos a uma parte essencial, a um grupo de indivíduos de um lugar, de um ecossistema que, somado a outros ecossistemas, forma biomas (conjunto de ecossistemas), e o conjunto de biomas forma a biosfera, a esfera da vida de nosso planeta Terra. Por outro lado, os leitores possuem curiosidade sobre a natureza, os seus seres vivos e os problemas ambientais.

E digo que a natureza por si só possui uma inteligência própria, um lado engraçado e interessante, uma autoconsciência de organização que as actividades humanas excessivas estão a desequilibrar por meio da energia da destruição. Você pode morar na cidade, no campo ou numa floresta, mas saiba, a ecologia e a natureza estão perto de você, você respira!

@V - Qual é o seu sentimento ao ver o seu trabalho publicado em diversos países?

No Brasil, comecei a publicar as minhas tiras em revistas ecológicas. Em 2001, já colaborava com a revista “Ecologia e Desenvolvimento”, uma das mais antigas existentes no país que parou de circular em 2003. Já publiquei em várias revistas ecológicas.

Estou desde 2006 na revista “Com Ciência Ambiental” de São Paulo, publicando uma página inteira de quadrinhos do “Oi!”, estou também em outros veículos brasileiros, mas, no momento, as minhas tiras são mais publicadas fora do Brasil, elas são lidas em português, espanhol e em inglês; nos EUA, Inglaterra, Moçambique (Jornal @Verdade), e no Canadá.

Apesar de publicar os meus desenhos em países do primeiro mundo, sempre tive o objectivo de publicar os meus “quadrinhos” em países lusófonos, Moçambique está a ser o primeiro. Para mim, enviar os meus desenhos para o @Verdade é um acto muito especial, estou a expressar a minha arte para as crianças e jovens de um país que demonstra ser amável e lutador, apesar de todas as dificuldades de um país africano. Vejo Moçambique como um país que tem muita vontade de crescer e de sorrir, e isso é muito legal.

Acredito que o @ Verdade compartilha desse objectivo, pois ninguém cresce e sorri sem educação e conteúdo. O @Verdade, assim como vocês dizem, “está a oferecer notícias de qualidade para o povo moçambicano de modo gratuito”, construindo uma nova geração de leitores conscientes. Sinto-me feliz por fazer parte dessa construção compartilhando a minha arte com vocês. No que eu puder, contem comigo!

@V - Quais são os maiores desafios que tem enfrentado como desenhista e escritor no seu país?

FR - No decorrer desta entrevista revelei alguns. Dificuldades sempre passei na vida, mas, há alguns anos, já não tenho mais medo de receber um “não”, hoje tenho a consciência de que preciso de construir o meu próprio “sim” e valorizar aqueles que me apoiam.

Não sou xenófobo, gosto da arte estrangeira e sou a favor do intercâmbio cultural, temos que ler de tudo de todos os países mas, no Brasil, ainda há um intenso domínio dos quadrinhos norte-americanos de super-heróis, somente dois ou três brasileiros conseguem manter-se com uma ampla distribuição dos seus livros e revistas.

Uns cinco ou 10 autores brasileiros novos conseguem lançar álbuns especiais com o apoio de editoras ou de patrocínios ao ano, e uma grande quantidade de autores independentes lançam-se em blogues, editoras de médio porte ou em selos independentes.

No meu caso, apesar de já ter lançado livros através de editoras (algo que ainda posso fazer no futuro) tenho batalhado pela ideia dos meus gibis sem patrocínio privado ou governamental, tendo que dividir o meu tempo entre várias funções e estudos, e ter que enfrentar a miopia de alguns jornais e empresas que publicam tudo, menos quadrinhos e tiras.

O principal jornal de minha cidade, por exemplo, não publica arte há mais de 12 anos, já conversei com o director deles diversas vezes, mas... Facto que me obriga a publicar minhas tiras em jornais e revistas de outras cidades do Brasil.

Porém, em 2010, publiquei as minhas tiras num tablóide diário gratuito da minha cidade, distribuído em pontos de autocarro todos os dias, mas como a publicação diária das minhas tiras elevava os meus custos e o jornal não tinha condições de me ajudar, tive de sair.

Publicar semanalmente ou mensalmente não eleva muito os meus custos, é uma periodicidade que me permite manter parcerias gratuitas ou orçamento acessível aos editores.

@V – Qual é a mensagem que gostaria de deixar para os leitores do jornal?

FR - Espero que estejam a gostar das minhas tiras do “Oi!”, continuem a ler! Fiquei muito feliz por poder colaborar com tiras e passatempos especiais no Dia das Crianças de Moçambique. Para a edição de Natal, aguardem! Sucessos para vocês e obrigado pela amizade de todos.

Comentar


Código de segurança
Atualizar

 
Avaliação: / 2
FracoBom