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Quando as armas viram obras de arte PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Vida e Lazer - Cultura
Escrito por Redação   

As armas de fogo e as respectivas munições nas mãos do jovem escultor moçambicano Gonçalo Mabunda - um dos artistas mais renomados do país - ganham uma nova vida, sendo transformadas em verdadeiras obras de arte nas quais é possível ver impressa a sua marca invulgar e pessoal. É, digamos, uma espécie de reciclagem de material bélico.

Quando Gonçalo Mabunda, de 35 anos de idade, recebeu uma chamada telefónica do estrangeiro, a sua reacção foi de estranheza. E quando a pessoa que estava em linha o disse que era o ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, Mabunda não acreditou pois, pensou, que podia a ser mais um desses “apanhados”.

Mas, quando do outro lado da linha o antecessor de George W. Bush lhe formulou um convite para fazer os prémios para Clinton Global Iniciative porque tinha visto uma das suas obras com um coleccionador em Paris, França, as dúvidas dissiparam-se, e Mabunda aceitou imediatamente o repto. “Ele [Clinton] viu as minhas obras e gostou, perguntou quem era o escultor que havia feito aquele trabalho e o coleccionador falou-lhe de mim”, conta.

A primeira proposta que apresentou deixou o antigo estadista deslumbrado com o trabalho, tendo-o aprovado de imediato e, de seguida, encomendado mais quatro. E não fi cou por aí: “Clinton perguntou-me porque é que o meu trabalho era feito à base de balas e armas e eu respondi-lhe que “cada bala que uso para as minhas obras é uma vida salva”. Apesar de o convite ter sido prestigiante para a sua vida profi ssional, o jovem escultor diz que não foi o momento mais marcante na sua carreira artística.

Nascido a 1 de Janeiro de 1975, em Maputo, Gonçalo Mabunda, tal como os seus sete irmãos, teve uma infância igual à de qualquer outra criança moçambicana que nasce numa família humilde. “Tive uma infância tranquila e interessante. Apesar de minha mãe não ter ido à escola, sempre lutou para que os filhos tivessem uma boa educação”, comenta. Criador de várias obras de escultura metálica, Mabunda entrou para o universo das artes por mero acaso. Nunca havia sonhado tornar-se escultor. A sua ambição era ser militar ou formar-se em qualquer área profissional que lhe garantisse o sustento mas, diz, “a vida deu-me outro destino.

” Mas não foi fácil alcançar esse “outro destino”. Por dificuldades financeiras da família viu-se forçado a abandonar a escola - na altura preparava-se para fazer a 12ª classe - e como não queria ficar sem fazer nada decidiu pedir ajuda ao seu amigo e vizinho Hilário Nhatugueja que o levou ao Núcleo de Arte, corria o ano de 1992.

Na verdade, o primeiro contacto com o mundo artístico começou na altura em que frequentava o ateliê do seu vizinho ajudando-o a limpar as esculturas. No Núcleo de Arte, Gonçalo trabalhou primeiro como estafeta e depois como galerista.

Em 1994, aquele núcleo organizou um workshop internacional onde Mabunda acabou por conhecer o escultor sul-africano Andries Botha e também professor de arte na Universidade de Durban que, por sinal, precisava de um ajudante. “Ele pediu ao meu chefe, Ernesto Muando, para levar-me para a África de Sul, pois queria ensinar-me a arte de esculpir, visto que acreditava que eu tinha talento”. Em Durban ficou três meses, tempo suficiente para aprendeu a trabalhar com metal, sobretudo bronze.

Quando regressou a Moçambique, decidiu trabalhar com o mesmo material e hoje, comenta, inspira-se no dia-a-dia, na vida, no país, no mundo, e não só. “Tudo o que está à minha volta inspira-me. Mas, acima de tudo, a liberdade. Gosto de ser livre e as minhas criações reflectem essa mesma liberdade”.

Nas suas criações utiliza armas e balas. Começou como um projecto do Conselho Cristão de Moçambique que, depois da guerra civil, recolheu material bélico e destruiu. E é assim que ainda hoje entrega a Mabunda e mais outras nove pessoas para que estas as transformem em obras de artes. Hoje, o escultor faz disso, e com esmero, a sua actividade diária e não vê a fazer outra coisa. Mabunda não faz ideia de quantas obras já produziu, apenas sabe dizer que “são muitas”. Mas adianta: “Doravante passarei a contabilizar as obras que for fazendo.”

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Actualizado em Sexta, 05 Novembro 2010 11:29
 
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