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Pombo - rato voador ou herói urbano? PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Vida e Lazer - Ambiente
Escrito por Redação   

Alguns pensam que o pombo é simplesmente uma peste, fonte de doenças. Mas Steve Harris conta-nos uma história diferente, sobre uma ave forte, adaptável e bastante útil à sociedade.

Em 1980, Woody Allen consolidou a má fama dos pobres animais no seu filme Memórias. Nele, os pombos são chamados depreciativamente de “ratos com asas”. O termo, na verdade, apareceu pela primeira vez em 1966, num artigo do jornal Th e New York Times. Porém, o filme de Allen alcançou um público muito mais amplo e acabou por ser o último prego no caixão dessas aves – haveria desgraça maior do que estar em pé de igualdade com ratos?

Desde então, os pombos comuns tornaram-se integrantes de uma sinistra “tríade asquerosa”, a par do esquilo-cinzento da América do Norte (os “ratos de árvores”) e os próprios ratos. A decadência do prestígio dessas aves foi drástica e, de forma impressionante, levou apenas algumas décadas para se consolidar.

Origens selvagens

O pombo-da-rocha, “Columba livia” de seu nome científico, foi o ancestral selvagem do pombo comum e a primeira ave a ser domesticada, há cerca de 6 mil anos, no Médio Oriente. Desde então, as suas contribuições para o bem-estar humano têm sido surpreendentes. Até os avanços bastante recentes na agricultura, as criações de pombos, coelhos e peixes de água doce eram as três principais fontes de carne durante todo o ano na Europa.

Além de servirem de alimento, os pombos produziam um adubo tão rico em nutrientes que uma medida desse produto equivalia a dez medidas de fertilizantes gerados por outras espécies. Em muitos países, o excremento de pombos era parte fundamental do desenvolvimento da agricultura.

Pode parecer improvável que o pombo-da-rocha, uma espécie relativamente rara existente em colinas afastadas dos centros urbanos, tenha sido a primeira ave a ser domesticada. No entanto, esse processo não envolveu a captura e a criação selectiva, mas apenas o fornecimento de um local alternativo para os animais se aninharem, geralmente um pombal com fileiras de saliências ou potes de barro ao longo das paredes internas. Algumas instalações podiam acomodar milhares de fêmeas a chocar.

Os pombos recebiam um pouco de comida, mas, em geral, voavam para procurar alimentos noutros lugares. E, embora exigissem atenção mínima, cada casal costumava produzir cerca de dez filhotes por ano. Assim, os pombos tornaram-se a fonte perfeita de proteína.

A dependência do pombo como fonte de alimento decaiu quando ficou claro que o frango se adaptava melhor à produção em massa. No entanto, o interesse em criar essas aves manteve-se; grande parte do primeiro capítulo de “A origem das espécies” é dedicada aos pombos. No livro, Darwin descreve as muitas raças que podem ser concebidas artifi cialmente. Hoje, no entanto, os passatempos de criar essas aves e promover corridas de pombos decrescem em popularidade.

Esses hobbies requerem grande quantidade de paciência e dedicação – substantivos bastante escassos no mundo moderno. Embora os pombos ainda fossem importante fonte de alimento no século 19, eles estavam a ser, em grande parte, roubados dos pombais para serem usados num então novo e popular desporto: o tiro ao pombo.

Os animais eram usados como alvo vivo em competições. O Hurlingham Club, em Londres, foi fundado em 1869 exclusivamente para o tiro ao pombo. Quando a actividade se tornou ilegal, em 1921, foi inventado o tiro ao prato.

Além de oferecerem alimento, fertilizante e diversão, os pombos também tiveram um papel fundamental na medicina. A prolactina, hormona responsável pela produção do leite em mamíferos, foi isolada pela primeira vez em 1933, em pombos; o mesmo hormónio estimula aves, machos e fêmeas, a segregar “leite” do seu papo para alimentar os filhotes.

Serviço postal

Entretanto, os pombos são mais famosos pela sua habilidade de entregar mensagem e encontrar o caminho de volta para casa. Isso foi explorado pela primeira vez há 3 mil anos, e, por volta do século 5º a.C., a Síria e a Pérsia tinham redes difundidas de pombos mensageiros. Em 1850, o recém-criado serviço de notícias de Paul Julius Reuter costumava orientar pombos que voavam os 120 km entre Aachen, Alemanha,e Bruxelas, na Bélgica, criando, assim, as bases para uma agenda de notícias global. Além disso, os primeiros selos de “correio aéreo” foram emitidos, no mesmo ano, para o The Great Barrier Pigeon-Gram Service.

A capacidade de orientação das aves foi aproveitada durante as duas guerras mundiais: no início dos anos 40, o American Signal Pigeon Corps era composto por 3.150 soldados e 54 mil aves. Cerca de 90% das mensagens chegavam ao destinatário final.

E esses agentes secretos aviários também salvaram incontáveis vidas – das 54 medalhas Dickin (a versão animal da medalha de honra Victoria Cross) concedidas durante a Segunda Guerra Mundial, 32 foram recebidas por pombos.

Surpreendente, no entanto, é de notar que, apesar de décadas de pesquisas, ainda não estamos certos de como os pombos encontram o seu caminho para casa sobre áreas que nunca viram antes, e com facilidade aparentemente considerável. Em parte, essa confusão ocorre porque diferentes raças parecem apoiar-se em diferences pistas.

O consenso é que os pombos usam o Sol e/ ou o campo magnético da Terra em viagens longas. Deste modo, as pistas visuais tornarse- iam importantes em áreas próximas dos pombais. Porém, estudos recentes sugerem que esses animais também usam odores como apoio.

Excomungado urbano

O pombo comum colaborou com a civilização de mais formas do que qualquer outra ave. Então, como eles se tornaram seres tão rejeitados? O principal motivo é o facto de a tecnologia moderna ter reduzido muito a nossa dependência desses animais. Tudo o que a maioria das pessoas vê hoje é o mais óbvio vestígio da ligação entre pessoas e pombos atravessando vários milénios: bandos de aves selvagens encontradas em todos os continentes, excepto na Antárctida.

Não é de impressionar que os pombos prosperem em áreas urbanas. Os prédios são locais perfeitos para esses exilados construírem os seus ninhos, imitando as colinas expostas ao vento, usadas pelos seus ancestrais.

Há poucas imagens mais emocionantes do que multidões de pombos pairando sobre as ruas das nossas cidades, ocasionalmente acompanhadas por outras espécies de pássaros. Portanto, é difícil saber porque os pombos são, hoje, tão criticados. Afinal, eles estão entre as poucas aves que os habitantes das cidades vêem regularmente.

E não nos esqueçamos de que os pombos são algumas das mais belas aves que você poderia esperar ver. A sua plumagem tem uma série de cores diferentes, incluindo verdes metálicos, tons de bronze e roxo, além de refinados padrões de asas.

Aves problemáticas

Com frequência costuma-se dizer que os pombos domésticos são um incómodo, mas quais seriam exactamente os problemas? O pombo comum é acusado de ser “sujo”, pois defeca nas ruas e nos prédios. Entretanto, convenhamos que é muito mais simples limpar a sujeira produzida por esses animais do que livrar as nossas cidades de pinturas, papéis e chicletes mascadas.

Há também a questão das doenças ligadas aos pombos domésticos. Assustador! Porém, vamos colocar as coisas em contexto: sabe-se que existem muito mais doenças relacionadas com as pessoas e com os seus animais domésticos.

Além disso, todos os animais transmitem doenças: o factor-chave é com que frequência essas doenças são transmitidas aos humanos, e há poucas evidências de que isso ocorra com o pombo comum.

Em Novembro de 1855, Charles Darwin, sem dúvida o mais famoso columbófi lo, enviou uma carta ao seu grande amigo e geólogo Charles Lyell, que estava prestes a fazer-lhe uma visita. Darwin escreveu: “Eu mostrar-lhe-ei os meus pombos! O que é, em minha opinião, o maior agrado que se pode oferecer a um ser humano”. E como ele estava certo.

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Actualizado em Sábado, 19 Março 2011 15:10
 
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